Joana D'arc

 

Quem foi


Joana D’Arc foi uma jovem camponesa francesa que se tornou uma das personagens mais conhecidas da história medieval europeia. Nasceu por volta de 1412, na aldeia de Domrémy, no nordeste da França, em um período marcado pela Guerra dos Cem Anos (1337-1453), conflito entre França e Inglaterra pelo controle do trono francês. Mesmo sem pertencer à nobreza e sem formação militar tradicional, Joana passou a exercer papel decisivo na resistência francesa contra os ingleses, especialmente ao liderar tropas que contribuíram para a libertação da cidade de Orléans, em 1429.

Sua trajetória combinou fé religiosa, ação política e participação militar. Joana afirmava ouvir vozes de santos que a orientavam a ajudar o delfim Carlos, herdeiro francês, a recuperar sua autoridade e ser coroado rei. Em uma sociedade profundamente cristã, suas afirmações religiosas tiveram grande impacto, mas também provocaram desconfiança entre adversários políticos e autoridades eclesiásticas. Capturada em 1430, foi entregue aos ingleses e julgada por heresia. Em 1431, foi condenada e queimada viva em Rouen, aos cerca de 19 anos. Anos depois, sua condenação foi anulada, e, em 1920, foi canonizada pela Igreja Católica.



Biografia


Joana D’Arc nasceu em Domrémy, região rural ligada ao reino da França, em uma família camponesa. Seu pai, Jacques d’Arc, e sua mãe, Isabelle Romée, viviam do trabalho agrícola, em um contexto de insegurança constante. A França estava enfraquecida por guerras, disputas internas e pela presença inglesa em várias regiões. O Tratado de Troyes, assinado em 1420, havia reconhecido o rei da Inglaterra como herdeiro do trono francês, o que colocava em risco a legitimidade do delfim Carlos.

Desde jovem, Joana demonstrou forte religiosidade. Segundo seus próprios relatos, por volta dos 13 anos começou a ouvir vozes que identificava como mensagens de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida. Essas vozes, de acordo com ela, ordenavam que ajudasse a expulsar os ingleses e conduzisse Carlos à coroação em Reims, cidade tradicional das cerimônias de coroação dos reis franceses. Para o período medieval, tais experiências eram interpretadas dentro de uma cultura profundamente marcada pela fé, pelos santos e pela ideia de intervenção divina nos assuntos humanos.

Em 1429, Joana conseguiu encontrar apoio para ser levada até o delfim Carlos, que estava em Chinon. Antes de receber autorização para atuar, foi examinada por clérigos, que avaliaram sua conduta e suas declarações religiosas. Embora fosse uma jovem camponesa sem experiência militar formal, sua convicção e seu discurso contribuíram para fortalecer a moral dos franceses. Ela passou a acompanhar o exército usando armadura e estandarte, tornando-se uma figura de inspiração para as tropas.

Seu momento mais importante ocorreu no cerco de Orléans. A cidade estava ameaçada pelos ingleses, e sua queda poderia comprometer ainda mais a posição francesa. A presença de Joana junto às tropas ajudou a elevar o ânimo dos combatentes. Em maio de 1429, os franceses conseguiram romper o cerco, vitória que transformou Joana em símbolo de esperança para os partidários do delfim. Pouco depois, ela participou da campanha que abriu caminho para a coroação de Carlos VII em Reims, em julho de 1429.

Após a coroação, a situação política tornou-se mais complexa. Joana desejava continuar a guerra para recuperar territórios ocupados, mas nem sempre recebeu o mesmo apoio da corte francesa. Em 1430, durante uma ação militar em Compiègne, foi capturada por forças borgonhesas, aliadas dos ingleses. Posteriormente, foi vendida aos ingleses, que tinham grande interesse em desmoralizá-la, pois sua figura fortalecia a legitimidade de Carlos VII.

O julgamento de Joana ocorreu em Rouen, sob forte influência inglesa. Ela foi acusada de heresia, feitiçaria, desobediência à Igreja e uso de roupas masculinas, entre outras acusações. O processo teve caráter religioso, mas também foi profundamente político. Condenar Joana significava enfraquecer a imagem de Carlos VII, já que sua coroação havia sido associada à missão religiosa defendida por ela. Mesmo pressionada, Joana sustentou grande parte de suas afirmações.

Em 30 de maio de 1431, Joana D’Arc foi queimada viva na praça do mercado de Rouen. Sua morte causou impacto duradouro. Em 1456, após a vitória francesa na Guerra dos Cem Anos, um novo processo revisou seu julgamento e anulou sua condenação, reconhecendo irregularidades no processo anterior. Com o passar dos séculos, Joana foi transformada em heroína nacional francesa e figura religiosa. Em 1920, foi canonizada pelo papa Bento XV, tornando-se Santa Joana D’Arc.



Simbolismo em torno de Joana D’Arc


Joana D’Arc tornou-se um símbolo de resistência nacional. Sua imagem está ligada à defesa da França em um momento de crise política, militar e territorial. Durante a Guerra dos Cem Anos, a monarquia francesa estava enfraquecida, e parte do território encontrava-se sob domínio inglês ou influência borgonhesa. Ao apoiar Carlos VII e participar da libertação de Orléans, Joana passou a representar a ideia de unidade francesa contra a ocupação estrangeira.

Sua figura também simboliza a força da fé religiosa na Idade Média. Joana afirmava agir por missão divina, e sua autoridade não vinha da nobreza, da riqueza ou da educação formal, mas de sua convicção espiritual. Para muitos de seus contemporâneos, isso explicava sua coragem e seu papel incomum em um mundo dominado por estruturas sociais rígidas. Posteriormente, a Igreja Católica passou a valorizá-la como exemplo de devoção, obediência à fé e sacrifício.

Outro aspecto importante de seu simbolismo está relacionado à presença feminina em espaços tradicionalmente masculinos. Joana viveu em uma sociedade na qual as mulheres tinham participação limitada na vida política e militar. Mesmo assim, vestiu armadura, acompanhou campanhas militares e dialogou com reis, nobres e clérigos. Por isso, sua imagem passou a ser associada à coragem feminina, à liderança e à ruptura de expectativas sociais impostas às mulheres de seu tempo.

Na memória histórica francesa, Joana D’Arc foi reinterpretada por diferentes grupos políticos e religiosos. Monarquistas, republicanos, católicos e nacionalistas utilizaram sua imagem em momentos distintos da história da França. Para alguns, ela representava a fidelidade à monarquia; para outros, a defesa da pátria; para a Igreja, a santidade; para movimentos modernos, a resistência de uma jovem mulher diante de poderes estabelecidos. Essa variedade de interpretações mostra como sua trajetória ultrapassou o contexto medieval.

Joana também simboliza o martírio. Sua morte na fogueira, após um julgamento marcado por interesses políticos, reforçou a imagem de uma jovem injustiçada por forças poderosas. A revisão de sua condenação, em 1456, contribuiu para consolidar essa visão. Com o tempo, sua morte passou a ser lembrada como exemplo de sacrifício em nome de uma missão considerada superior, seja ela entendida em termos religiosos, patrióticos ou morais.

Joana D’Arc permanece como uma personagem histórica cercada por múltiplos significados. Ela foi camponesa, guerreira, mística, acusada de heresia, mártir, heroína nacional e santa católica. Sua importância não se limita aos acontecimentos militares de 1429 e 1430. Ela se tornou uma das figuras mais duradouras da memória europeia, justamente porque sua vida permite discutir temas centrais da história: guerra, religião, poder, gênero, nacionalidade e construção de mitos políticos.

 

Joana d'Arc na coroação de Carlos VII, de Jean Auguste Dominique Ingres (1854)

Joana d'Arc na coroação de Carlos VII, do pintor francês Jean Auguste Dominique Ingres (1854).

 

 

Curiosidades:

 

• Joana d'Arc é a santa padroeira da França.

 

• Quando os soldados franceses ficaram sabendo da morte de Joana d'Arc, passaram a lugar com mais vontade. Ou seja, a morte da guerreira acabou por aumentar o ânimo das tropas francesas na Guerra dos Cem Anos.

 

• Ela é considerada um ícone da resistência francesa e uma das figuras mais emblemáticas da história da França.

 

Pintura mostrando Joana D'Arc na Batalha de Orleães.

Joana D'Arc na Batalha de Orleães (1890): pintura de Jules Eugène Lenepveu.

 

 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 08/07/2026