Cândido Portinari

 

Quem foi

Candido Portinari (1903-1962) foi um dos mais importantes pintores brasileiros do século XX. Nascido em Brodowski, no interior de São Paulo, destacou-se por representar trabalhadores, retirantes, crianças, festas populares e acontecimentos da História do Brasil. Ao longo de sua carreira, alcançou reconhecimento nacional e internacional, produziu pinturas, murais e painéis de grandes dimensões e desenvolveu uma obra marcada pela valorização da cultura brasileira e pela preocupação com os problemas sociais do país.



Biografia



Candido Torquato Portinari nasceu em 29 de dezembro de 1903, em uma fazenda de café próxima à cidade de Brodowski, no interior do estado de São Paulo. Filho dos imigrantes italianos Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, cresceu em uma família numerosa e de condições econômicas modestas. Desde a infância, conviveu com trabalhadores rurais e com a realidade social das plantações de café, experiências que marcaram profundamente sua formação pessoal e profissional.

Portinari frequentou a escola apenas durante os primeiros anos da infância. Ainda jovem, demonstrou grande interesse pelo desenho. Por volta dos nove anos de idade, participou da pintura da decoração da igreja de Brodowski, ajudando artistas italianos que trabalhavam no local. Essa experiência despertou seu interesse definitivo pelas Artes e contribuiu para que sua família reconhecesse sua habilidade artística.

Em 1919, aos quinze anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de estudar pintura. Na capital federal, matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, onde recebeu formação acadêmica em desenho e pintura. Durante esse período, enfrentou dificuldades financeiras e precisou realizar diferentes trabalhos para se sustentar. Mesmo assim, destacou-se entre os estudantes e começou a participar de exposições promovidas pela instituição.

O reconhecimento profissional ocorreu gradualmente durante a década de 1920. Em 1928, recebeu o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, concedido pela Escola Nacional de Belas Artes. A premiação possibilitou sua permanência na Europa entre 1929 e 1931. Portinari estabeleceu-se principalmente em Paris, onde entrou em contato com diferentes correntes artísticas e visitou museus, galerias e exposições. Essa experiência ampliou sua formação cultural e reforçou seu interesse em representar temas relacionados ao Brasil.

Durante sua permanência na França, conheceu a uruguaia Maria Victoria Martinelli, com quem se casou em 1930. O casal teve um único filho, João Candido Portinari, nascido em 1939. Maria Victoria desempenhou papel importante na vida pessoal e profissional do artista, acompanhando sua carreira e colaborando na organização de seus documentos, compromissos e exposições.

Ao retornar ao Brasil, em 1931, Portinari passou a se dedicar intensamente à pintura e começou a conquistar projeção nacional. Instalou seu ateliê no Rio de Janeiro e participou de exposições no Brasil e no exterior. Sua carreira avançou durante as décadas de 1930 e 1940, período em que recebeu encomendas de instituições públicas, autoridades governamentais, organizações culturais e colecionadores particulares.

Em 1935, uma de suas pinturas recebeu menção honrosa em uma exposição internacional realizada em Pittsburgh, nos Estados Unidos. A partir desse reconhecimento, sua produção passou a circular com maior frequência fora do Brasil. Nos anos seguintes, realizou exposições em cidades como Nova York, Washington, Paris, Montevidéu e Buenos Aires, consolidando-se como um dos artistas brasileiros mais conhecidos internacionalmente.

Portinari também trabalhou como professor. Entre 1935 e 1939, lecionou pintura mural e de cavalete no Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro. Sua atuação docente aproximou-o de estudantes, intelectuais e artistas ligados aos debates culturais e políticos da época. Manteve contato com importantes escritores, músicos, arquitetos e educadores brasileiros, entre eles Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer e Manuel Bandeira.

Politicamente, Portinari demonstrava preocupação com as desigualdades sociais existentes no Brasil. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidatou-se a deputado federal em 1945. No ano seguinte, concorreu ao cargo de senador pelo estado de São Paulo, mas não foi eleito. Com o aumento da perseguição política aos comunistas, viveu por um período no Uruguai, retornando posteriormente ao Brasil.

Na década de 1950, sua saúde começou a apresentar problemas causados pela exposição prolongada às tintas que continham substâncias tóxicas, especialmente chumbo. Os médicos recomendaram que abandonasse ou reduzisse sua atividade profissional. Portinari, entretanto, continuou trabalhando, pois considerava a pintura parte essencial de sua vida.

Nos últimos anos, manteve uma intensa rotina de produção, viagens e exposições. Em 1961, preparava uma grande mostra de seus trabalhos que seria realizada em Milão, na Itália. Seu estado de saúde, porém, agravou-se rapidamente. Candido Portinari morreu em 6 de fevereiro de 1962, no Rio de Janeiro, aos 58 anos, em consequência de intoxicação provocada pelos materiais utilizados em sua atividade profissional.

 

Foto de Portinari ao lado deu uma de suas pinturas

Cândido Portinari em 1958, ao lado de uma de suas pinturas.

 

 

Características principais de suas pinturas e do seu estilo artístico:

 

• Retratou questões sociais do Brasil e temas bíblicos (cristãos);

 

• Utilizou alguns elementos artísticos da arte moderna europeia;

 

• Suas obras de arte refletem influências do surrealismo, cubismo e da arte dos muralistas mexicanos;

 

• Arte figurativa, valorizando as tradições da pintura;

 

• Em suas pinturas, valorizou as ideias transmitidas pelos desenhos e figuras. As cores também foram muito valorizadas pelo artista;

 

• Portinari é conhecido por seus fortes traços e uso de cores;

 

• Seu trabalho varia desde o abstrato até o figurativo;

 

• Além de suas pinturas, Portinari é também conhecido por seus grandes murais e afrescos,

 

• A principal técnica de pintura utilizada por Portinari foi a da tinta a óleo sobre tela.

 

Pintura de um casal com roupas de casamento

Casamento na roça (1947): pintura de Cândido Portinari.




Principais obras de Portinari:



"Café" (1935)

A pintura retrata trabalhadores envolvidos na colheita e no transporte do café, uma das principais atividades econômicas do Brasil naquele período. As figuras humanas aparecem com mãos e pés grandes, recurso utilizado para destacar a força física e o trabalho pesado realizado nas fazendas. A obra também apresenta uma crítica às difíceis condições de vida dos trabalhadores rurais.



"O lavrador de café" (1934)


Nesta obra, Portinari representou um trabalhador negro em uma plantação de café. O personagem ocupa grande parte da composição e aparece com braços e pés robustos, simbolizando a força do trabalho manual. Ao fundo, a paisagem agrícola reforça a relação entre a economia cafeeira, a exploração do trabalho e a formação histórica do Brasil.



"Retirantes" (1944)


A pintura apresenta uma família de retirantes que abandona sua região devido à seca, à fome e à pobreza. Os corpos magros, as expressões de sofrimento e a paisagem árida revelam as dificuldades enfrentadas por milhares de nordestinos. A obra tornou-se uma das principais representações da desigualdade social e das migrações internas brasileiras.



"Criança morta" (1944)


Parte da série dedicada aos retirantes, a obra mostra uma família lamentando a morte de uma criança. As lágrimas exageradas e as expressões de desespero intensificam o sofrimento das personagens. Portinari abordou, nessa pintura, as consequências da fome, da miséria e da falta de assistência às populações mais pobres.



"Enterro na rede" (1944)


A cena representa o transporte de uma pessoa morta em uma rede, prática comum em regiões pobres onde não havia recursos para a aquisição de caixões. O quadro destaca a tristeza dos familiares e a precariedade das condições sociais. A composição reforça a denúncia das desigualdades existentes no país.



"Os despejados" (1934)


A obra retrata pessoas pobres que perderam suas moradias e aparecem cercadas por poucos objetos pessoais. Por meio da cena, Portinari chamou a atenção para a exclusão social, o desemprego e a ausência de condições dignas de habitação. A pintura demonstra seu interesse pelas dificuldades enfrentadas pelas camadas populares.



"Mestiço" (1934)


O personagem central é um trabalhador mestiço representado diante de uma plantação. A figura possui braços fortes e ocupa posição de destaque, evidenciando a importância dos trabalhadores na construção econômica e social do Brasil. A obra também valoriza a diversidade étnica da população brasileira.



"Futebol" (1935)

A pintura mostra crianças jogando futebol em um terreno simples, semelhante aos espaços encontrados nas pequenas cidades do interior. A cena está relacionada às lembranças da infância de Portinari em Brodowski. O quadro apresenta o futebol como uma atividade popular e como parte da vida cotidiana brasileira.



"Meninos soltando pipas" (1947)

Nesta composição, crianças brincam ao ar livre enquanto empinam pipas. O tema da infância aparece associado à liberdade, à convivência e às brincadeiras populares. Portinari produziu diversas pinturas sobre crianças, muitas delas inspiradas nas experiências vividas durante seus primeiros anos no interior paulista.



"São Francisco de Assis" (1944)

A obra foi produzida para a Igreja de São Francisco de Assis, localizada no conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte. Portinari representou episódios da vida do santo por meio de painéis, integrando pintura e arquitetura. A realização do projeto contou com a colaboração do arquiteto Oscar Niemeyer.



"Primeira missa no Brasil" (1948)


A pintura representa a cerimônia religiosa realizada pelos portugueses pouco depois da chegada ao território brasileiro, em 1500. Portinari reuniu religiosos, navegadores e indígenas ao redor do altar. A obra apresenta uma interpretação artística de um acontecimento associado ao início da colonização portuguesa no Brasil.



"Descobrimento do Brasil" (1956)

A composição aborda a chegada dos portugueses ao território que mais tarde formaria o Brasil. A cena reúne embarcações, colonizadores e elementos relacionados ao encontro entre europeus e indígenas. O trabalho faz parte do conjunto de produções em que Portinari representou episódios da História brasileira.



"Tiradentes" (1948-1949)

O painel narra momentos relacionados à prisão, ao julgamento e à execução de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, participante da Inconfidência Mineira. A obra foi organizada em diferentes cenas e destaca o sofrimento e o caráter trágico da trajetória do personagem. O painel possui grandes dimensões e apresenta forte dramaticidade.



"Guerra e Paz" (1952-1956)


Os dois grandes painéis foram produzidos para a sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York. "Guerra" apresenta sofrimento, destruição, medo e morte, enquanto "Paz" mostra cenas de convivência, brincadeiras, trabalho e harmonia. O conjunto sintetiza a preocupação de Portinari com os conflitos humanos e com a construção de uma sociedade pacífica.



"Baile na roça" (1923-1924)


Considerada uma de suas primeiras obras de destaque, a pintura representa uma festa popular realizada no interior. A cena reúne pessoas dançando e convivendo em um ambiente simples. O quadro demonstra o interesse inicial do artista pelos costumes, pelas festas e pela vida cotidiana da população brasileira.

 

Café, obra de Cândido Portinari
Café (1935), obra de Cândido Portinari.



Principais temas retratados em suas obras:

 

• Trabalho rural: trabalhadores das lavouras de café, agricultores e atividades ligadas ao campo aparecem com frequência em suas pinturas.



• Desigualdade social: Portinari retratou a pobreza, a exploração do trabalho e as difíceis condições de vida das camadas populares.



• Retirantes nordestinos: famílias que migravam por causa da seca, da fome e da miséria foram representadas em obras marcadas pelo sofrimento humano.



• Infância: crianças brincando, soltando pipas, jogando futebol ou vivendo em ambientes rurais aparecem em diversas pinturas do artista.



• Cultura popular brasileira: festas, danças, tradições, brincadeiras e costumes cotidianos foram utilizados para valorizar a identidade cultural do país.



• História do Brasil: acontecimentos como a chegada dos portugueses, a primeira missa e a trajetória de Tiradentes foram representados em grandes painéis.



• Temas religiosos: episódios bíblicos, santos e cenas relacionadas ao Cristianismo também fizeram parte de sua produção artística.



• Guerra e paz: conflitos, violência, medo e destruição foram contrastados com cenas de convivência, solidariedade, trabalho e esperança.

 

 

Importância para a arte brasileira

 

Candido Portinari teve grande importância para as Artes Plásticas brasileiras por desenvolver uma produção artística profundamente ligada à realidade histórica, social e cultural do país. Suas pinturas valorizaram os trabalhadores, a infância, as festas populares, as paisagens rurais e os problemas enfrentados pelas camadas mais pobres da população, contribuindo para a formação de uma arte de identidade nacional. Reconhecido no Brasil e no exterior, o artista também ampliou a presença da pintura brasileira em exposições e instituições internacionais, tornando-se uma das principais referências do modernismo e da arte social no Brasil.

 



Publicado em: 27/05/2021 e atualizado em 25/07/2026

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).