Marchinhas de Carnaval

 

O que são


As marchinhas de carnaval são canções populares associadas principalmente aos festejos carnavalescos brasileiros. Caracterizam-se por melodias simples, refrões fáceis de memorizar e letras geralmente bem-humoradas. Durante grande parte do século XX, estiveram entre os principais gêneros musicais tocados nos bailes, blocos e desfiles de carnaval, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.



Origem


As marchinhas surgiram no final do século XIX e no início do século XX, influenciadas pelas marchas militares, pelas polcas e por outros gêneros musicais populares urbanos. Um marco importante foi a composição "Ó Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, criada em 1899 para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro, no Rio de Janeiro. A obra é frequentemente considerada uma das primeiras marchinhas carnavalescas brasileiras.

Nas primeiras décadas do século XX, o gênero ganhou espaço nos bailes e nas festas de rua. Com o desenvolvimento do rádio e da indústria fonográfica, sobretudo a partir das décadas de 1930 e 1940, as marchinhas passaram a alcançar públicos maiores. Compositores como Lamartine Babo, Braguinha e Noel Rosa participaram desse ambiente musical, enquanto intérpretes populares ajudavam a transformar determinadas canções em sucessos nacionais.

Entre as décadas de 1930 e 1960, ocorreu o período de maior popularidade das marchinhas. Muitas músicas eram lançadas pouco antes do carnaval e rapidamente se tornavam conhecidas por meio do rádio, dos discos e dos bailes. A partir da segunda metade do século XX, outros gêneros carnavalescos ganharam maior espaço, mas as marchinhas permaneceram presentes em blocos tradicionais e festas populares.



Principais características:


• Letras simples e bem-humoradas: muitas marchinhas utilizam situações cotidianas, personagens caricatos, brincadeiras e jogos de palavras como temas de suas letras.



• Refrões fáceis de memorizar: uma característica marcante é a presença de refrões curtos e repetitivos, permitindo que grandes grupos de foliões acompanhem a música.



• Ritmo animado: embora tenham recebido influência das marchas militares, apresentam andamento festivo e adequado à dança e aos deslocamentos dos blocos carnavalescos.



• Melodias simples: normalmente possuem estruturas musicais de fácil assimilação, favorecendo sua rápida popularização durante o carnaval.



• Forte presença de instrumentos de sopro e percussão: trompetes, trombones, clarinetes, saxofones, caixas, surdos e outros instrumentos costumam aparecer nos conjuntos que executam marchinhas.



• Humor e sátira: várias composições fazem críticas aos costumes sociais, ao cotidiano ou a figuras conhecidas por meio do humor. Algumas letras antigas, porém, apresentam estereótipos e expressões consideradas preconceituosas atualmente, refletindo valores existentes no período em que foram compostas.



• Ligação com os blocos e bailes carnavalescos: as marchinhas foram especialmente importantes nos carnavais de rua e nos salões durante boa parte do século XX.



• Participação coletiva: são músicas voltadas para o canto em grupo, permitindo que os foliões participem diretamente da execução por meio dos refrões.



• Temática carnavalesca: fantasias, relacionamentos amorosos, situações engraçadas, personagens populares e acontecimentos do cotidiano aparecem com frequência nas composições.



• Importância histórica: mesmo tendo perdido espaço para outros gêneros musicais a partir da segunda metade do século XX, as marchinhas continuam sendo utilizadas em blocos tradicionais e ajudam a preservar parte da memória musical do carnaval brasileiro.

 

 


Letras das marchinhas de carnaval mais famosas do Brasil:

 

 

ALLAH-LÁ-Ô (Haroldo Lobo-Nássara, 1940)

Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara

Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah! allah! allah, meu bom allah!
Mande água pra ioiô
Mande água pra iaiá
Allah! meu bom allah

 

AURORA (Mário Lago-Roberto Roberti, 1940)

Se você fosse sincera 
Ô ô ô ô Aurora
Veja só que bom que era 
Ô ô ô ô Aurora

Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô Aurora

 

 

ABRE ALAS (Chiquinha Gonzaga, 1899)

Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar

Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Rosa de ouro é que vai ganhar

 

 

Ô BALANCÊ (Braguinha-Alberto Ribeiro, 1936)

Ô balancê balancê
Quero dançar com você
Entra na roda morena pra ver
Ô balancê balancê

Quando por mim você passa
Fingindo que não me vê
Meu coração quase se despedaça
No balancê balancê

Você foi minha cartilha
Você foi meu ABC
E por isso eu sou a maior maravilha
No balancê balancê

Eu levo a vida pensando
Pensando só em você
E o tempo passa e eu vou me acabando
No balancê balancê

 

 

MAMÃE EU QUERO (Jararaca-Vicente Paiva, 1936)

Mamãe eu quero, mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebe não chorar

Dorme filhinho do meu coração
Pega a mamadeira e vem entrá pro meu cordão
Eu tenho uma irmã que se chama Ana
De piscar o olho já ficou sem a pestana

Olho as pequenas mas daquele jeito
Tenho muita pena não ser criança de peito
Eu tenho uma irmã que é fenomenal
Ela é da bossa e o marido é um boçal

 

 

ME DÁ UM DINHEIRO AÍ (Ivan Ferreira-Homero Ferreira-Glauco Ferreira, 1959)

Ei, você aí! 
Me dá um dinheiro aí!
Me dá um dinheiro aí!

Não vai dar? 
Não vai dar não?
Você vai ver a grande confusão
Que eu vou fazer bebendo até cair
Me dá me dá me dá, ô!
Me dá um dinheiro aí!

 

 

CACHAÇA (Mirabeau Pinheiro-Lúcio de Castro-Heber Lobato, 1953)

Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique 
E água vem do ribeirão

Pode me faltar tudo na vida
Arroz feijão e pão
Pode me faltar manteiga
E tudo mais não faz falta não
Pode me faltar o amor 
Há, há, há, há!
Isto até acho graça
Só não quero que me falte
A danada da cachaça

 

 

CABELEIRA DO ZEZÉ (João Roberto Kelly-Roberto Faissal, 1963)

Olha a cabeleira do zezé
Será que ele é
Será que ele é

Será que ele é bossa nova
Será que ele é maomé
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!

 

 

A JARDINEIRA (Benedito Lacerda-Humberto Porto, 1938)

Ó jardineira porque estás tão triste
Mas o que foi que te aconteceu
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu

Vem jardineira vem meu amor
Não fiques triste que este mundo é todo seu
Tu és muito mais bonita 
Que a camélia que morreu

 

 

LINDA MORENA (Lamartine Babo, 1932)

Linda morena, morena
Morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha
Não brilha tanto quanto o teu olhar

Tu és morena uma ótima pequena
Não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas
Sai às vezes bofetão 
Toda gente faz questão
Do teu sorriso

Teu coração é uma espécie de pensão
De pensão familiar à beira-mar
Oh! Moreninha, não alugues tudo não
Deixe ao menos o porão pra eu morar

Por tua causa já se faz revolução
Vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha
Desta vez, ó moreninha, a taça é tua

 

 

O TEU CABELO NÃO NEGA (Lamartine Babo-Irmãos Valença, 1931)

O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Quem te inventou meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta

Quando meu bem vieste à terra
Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da gama contra o batalhão naval

 

 

SACA-ROLHA (Zé da Zilda-Zilda do Zé-Waldir Machado, 1953)

As águas vão rolar 
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo mão na saca saca saca rolha
E bebo até me afogar 
Deixa as águas rolar

Se a polícia por isso me prender
Mas na última hora me soltar 
Eu pego o saca saca saca rolha
Ninguém me agarra ninguém me agarra.

 

PIERROT APAIXONADO (Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, 1934)

 

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, caiu assim, assim

Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim.

 

 

Você sabia?

 

Carmen Miranda (foto abaixo) foi uma das principais cantoras de marchinhas de carnaval.

 

Foto em preto e branco de Carmen Miranda
Carmen Miranda

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 24/08/2026