Pedagogia Histórico-Critica
O que é
A Pedagogia Histórico-Crítica é uma corrente pedagógica desenvolvida no Brasil que compreende a educação como uma prática social ligada às condições históricas, econômicas, políticas e culturais da sociedade. Sua principal referência é o educador e filósofo brasileiro Dermeval Saviani, que sistematizou essa proposta principalmente a partir do final da década de 1970 e do início dos anos 1980.
Essa concepção entende que a escola não deve limitar-se a reproduzir conhecimentos de maneira mecânica, mas também não deve abandonar a transmissão dos conteúdos sistematizados. Para a Pedagogia Histórico-Crítica, o acesso aos conhecimentos científicos, filosóficos e artísticos acumulados historicamente pela humanidade é essencial para a formação dos estudantes.
O termo "histórico" indica que a educação é compreendida dentro do processo de transformação das sociedades. Já a palavra "crítica" refere-se à análise das relações sociais, das desigualdades e das contradições existentes na realidade.
Origem e contexto histórico
A Pedagogia Histórico-Crítica surgiu em um período marcado por intensos debates sobre a educação brasileira. Durante as décadas de 1970 e 1980, diferentes pesquisadores passaram a questionar tanto os modelos tradicionais de ensino quanto determinadas propostas pedagógicas que colocavam em segundo plano os conteúdos escolares.
O Brasil vivia, naquele período, os últimos anos da Ditadura Militar, iniciada em 1964, e um processo gradual de abertura política. Educadores e intelectuais discutiam de que maneira a escola poderia contribuir para uma sociedade mais democrática e para a redução das desigualdades educacionais.
Dermeval Saviani formulou sua proposta dialogando criticamente com diferentes correntes educacionais. Entre suas influências intelectuais encontram-se elementos do materialismo histórico, especialmente a compreensão de que os fenômenos sociais precisam ser analisados considerando suas condições históricas concretas.
A expressão Pedagogia Histórico-Crítica passou a ser empregada por Saviani no início da década de 1980, tornando-se posteriormente uma importante referência nos debates educacionais brasileiros.
Dermeval Saviani e a Pedagogia Histórico-Crítica
Dermeval Saviani nasceu em 1943 e tornou-se um dos principais pesquisadores brasileiros da área de Filosofia e História da Educação. Sua produção intelectual busca compreender a relação entre educação, sociedade e transformação histórica.
Uma de suas obras mais conhecidas é "Escola e Democracia", publicada originalmente em 1983. Nesse trabalho, Saviani discute diferentes teorias pedagógicas e analisa o papel desempenhado pela escola nas sociedades marcadas por desigualdades.
Outra obra fundamental é "Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações", na qual o autor apresenta conceitos centrais dessa concepção pedagógica.
Para Saviani, a escola possui uma função específica dentro da sociedade: possibilitar que os estudantes tenham acesso ao conhecimento sistematizado produzido historicamente pela humanidade.
Educação e sociedade
A Pedagogia Histórico-Crítica considera que a educação não está isolada das relações sociais. As escolas funcionam dentro de sociedades organizadas por estruturas econômicas, políticas e culturais.
Desigualdades existentes na sociedade também podem aparecer no sistema educacional. Diferenças de renda, acesso à cultura, condições familiares e infraestrutura escolar influenciam as possibilidades de aprendizagem.
Essa perspectiva não considera que a escola seja apenas um reflexo passivo da sociedade. A educação também pode contribuir para ampliar a compreensão dos indivíduos sobre a realidade social.
Ao adquirir conhecimentos científicos, históricos, filosóficos e culturais, o estudante desenvolve instrumentos intelectuais que permitem interpretar de maneira mais aprofundada o mundo em que vive.
Importância dos conteúdos escolares
Um dos pontos centrais da Pedagogia Histórico-Crítica é a valorização dos conteúdos escolares.
A escola deve possibilitar o acesso ao conhecimento elaborado historicamente pela humanidade. Esse conhecimento não corresponde apenas às experiências cotidianas dos estudantes, mas também aos saberes sistematizados pelas diferentes áreas do conhecimento.
Entre eles encontram-se a Matemática, a História, a Geografia, a Biologia, a Física, a Filosofia, a Literatura e as Artes.
Nesse sentido, o conhecimento escolar amplia aquilo que o estudante já conhece por meio de sua experiência cotidiana. O aluno passa a compreender fenômenos que não poderiam ser explicados apenas pelo senso comum ou pela observação imediata.
Conhecimento cotidiano e conhecimento sistematizado
A experiência cotidiana dos estudantes possui importância no processo educativo, pois constitui o ponto de partida de sua relação com o mundo. Entretanto, a função da escola não pode restringir-se a repetir aquilo que os alunos já conhecem.
O ensino escolar deve proporcionar o contato com formas mais elaboradas de conhecimento.
Por exemplo, uma pessoa pode perceber mudanças nas condições climáticas em seu cotidiano. Entretanto, o estudo sistemático da Geografia e das Ciências permite compreender conceitos relacionados à atmosfera, às massas de ar, às mudanças climáticas e aos processos ambientais.
Da mesma maneira, experiências relacionadas ao trabalho, à política ou à desigualdade podem ser compreendidas de forma mais ampla quando estudadas com o auxílio da História, da Sociologia, da Economia e da Filosofia.
O papel do professor
Na Pedagogia Histórico-Crítica, o professor ocupa uma posição importante no processo educativo.
Sua função não consiste apenas em acompanhar espontaneamente as atividades realizadas pelos alunos. O professor deve dominar os conteúdos de sua área, organizar o processo de ensino e criar condições para que os estudantes se apropriem dos conhecimentos.
A atuação docente envolve selecionar conteúdos relevantes, explicar conceitos, propor atividades, estimular questionamentos e acompanhar o desenvolvimento da aprendizagem.
Isso não significa que o estudante seja considerado passivo. Pelo contrário, espera-se que participe ativamente do processo de aprendizagem, interpretando, relacionando, questionando e utilizando os conhecimentos trabalhados.
O papel do estudante
O estudante é entendido como sujeito do processo educativo, mas sua aprendizagem ocorre por meio da interação com conhecimentos que foram construídos anteriormente por outras gerações.
Durante sua formação escolar, ele entra em contato com conceitos, teorias, métodos científicos, obras artísticas e interpretações históricas.
A aprendizagem modifica gradualmente sua maneira de compreender a realidade.
Por isso, o objetivo não é apenas memorizar informações. O estudante deve desenvolver capacidades de análise, comparação, interpretação, argumentação e reflexão.
As cinco etapas frequentemente associadas à metodologia histórico-crítica
A aplicação didática da Pedagogia Histórico-Crítica costuma ser apresentada por meio de cinco momentos articulados. É importante observar que esses momentos não devem ser entendidos como uma sequência rígida ou como uma fórmula obrigatória para todas as aulas.
Prática social inicial
O processo educativo parte da realidade social na qual professor e estudantes estão inseridos.
O professor procura identificar os conhecimentos prévios dos alunos e suas formas de compreender determinado fenômeno.
Em uma aula sobre industrialização, por exemplo, os estudantes podem inicialmente apresentar suas percepções sobre fábricas, trabalho, tecnologia e produção de mercadorias.
Problematização
Nesse momento são formuladas questões que mostram os limites das explicações iniciais.
O objetivo é transformar determinados aspectos da realidade em problemas de estudo.
No caso da industrialização, poderiam surgir questões relacionadas às condições de trabalho, às mudanças tecnológicas, à urbanização e às transformações econômicas provocadas pela expansão industrial.
Instrumentalização
A instrumentalização corresponde ao momento em que os estudantes entram em contato com os conhecimentos científicos e culturais necessários para compreender o problema estudado.
O professor apresenta conceitos, informações, documentos, teorias, mapas, gráficos, obras ou outros recursos adequados à disciplina.
Trata-se de uma etapa fundamental, pois é nela que ocorre a apropriação dos instrumentos intelectuais produzidos historicamente pela humanidade.
Catarse
Na Pedagogia Histórico-Crítica, a catarse corresponde ao momento em que o estudante consegue elaborar uma compreensão mais desenvolvida do conteúdo estudado.
Ele passa a estabelecer relações entre conceitos, conhecimentos e problemas da realidade.
Não se trata simplesmente de repetir aquilo que o professor explicou. O objetivo é demonstrar que ocorreu uma reorganização da compreensão do estudante.
Prática social final
Depois da aprendizagem, o estudante retorna à realidade social com uma compreensão diferente daquela que possuía inicialmente.
A realidade pode ser a mesma, mas sua interpretação foi ampliada pelos conhecimentos adquiridos.
Nesse sentido, o processo educativo procura produzir mudanças qualitativas na maneira como os indivíduos compreendem e analisam a sociedade.
A relação entre teoria e prática
A Pedagogia Histórico-Crítica procura superar a separação rígida entre teoria e prática.
O conhecimento teórico permite compreender fenômenos que não são imediatamente visíveis na experiência cotidiana. Ao mesmo tempo, a realidade social fornece problemas e questões que estimulam a produção e a utilização do conhecimento.
Por isso, teoria e prática aparecem como dimensões relacionadas.
Uma aula de História sobre escravidão no Brasil, por exemplo, pode apresentar documentos históricos, conceitos econômicos, relações sociais e processos políticos. Esses conhecimentos também podem contribuir para interpretar questões contemporâneas relacionadas às desigualdades sociais e às formas de discriminação.
Influência do materialismo histórico
A Pedagogia Histórico-Crítica recebeu influência significativa do materialismo histórico associado às obras de Karl Marx e Friedrich Engels.
Essa influência aparece principalmente na compreensão de que as sociedades são produzidas historicamente e apresentam relações sociais marcadas por interesses, conflitos e contradições.
A educação também é analisada como uma prática inserida nessas relações históricas.
Entretanto, a proposta pedagógica desenvolvida por Saviani possui características próprias relacionadas aos problemas educacionais brasileiros e ao papel específico da escola.
Escola e democratização do conhecimento
Um dos argumentos centrais dessa pedagogia é que o acesso ao conhecimento constitui uma questão importante para a democratização da educação.
Grupos socialmente privilegiados geralmente possuem maior acesso a livros, instituições culturais, cursos, tecnologias e outras formas de conhecimento.
Nesse contexto, a escola pública pode desempenhar uma função fundamental ao garantir que estudantes de diferentes condições sociais tenham acesso aos conhecimentos produzidos historicamente.
Desse ponto de vista, reduzir o ensino escolar apenas às experiências cotidianas dos estudantes poderia limitar as possibilidades de aprendizagem justamente daqueles que possuem menor acesso a bens culturais fora da escola.
A relação com outras tendências pedagógicas
A Pedagogia Histórico-Crítica diferencia-se de outras concepções educacionais.
Em relação à pedagogia tradicional, critica formas de ensino excessivamente baseadas na memorização, na autoridade rígida e na transmissão mecânica dos conteúdos.
Por outro lado, também questiona determinadas interpretações das pedagogias centradas exclusivamente nos interesses imediatos dos estudantes, quando essas concepções diminuem a importância do conhecimento sistematizado e da atuação do professor.
A proposta procura combinar a participação ativa do estudante com a valorização dos conteúdos escolares e da intervenção pedagógica do docente.
Pedagogia Histórico-Crítica e transformação social
A educação, nessa perspectiva, não é considerada capaz de transformar sozinha toda a estrutura da sociedade.
As desigualdades possuem causas econômicas, políticas e históricas que ultrapassam o espaço escolar.
Mesmo assim, a educação pode desempenhar um papel relevante ao ampliar o acesso ao conhecimento e desenvolver capacidades de compreensão crítica da realidade.
O estudante que domina conhecimentos científicos, históricos e culturais dispõe de instrumentos mais complexos para interpretar problemas sociais e participar da vida coletiva.
Importância para a educação brasileira
A Pedagogia Histórico-Crítica tornou-se uma das principais correntes do pensamento educacional brasileiro contemporâneo.
Sua influência pode ser encontrada em pesquisas acadêmicas, cursos de formação de professores, propostas curriculares e debates sobre a função social da escola.
Entre suas principais contribuições está a defesa do direito de todos os estudantes ao conhecimento elaborado.
Essa perspectiva também chama atenção para um problema recorrente da educação brasileira: as desigualdades no acesso aos conhecimentos científicos e culturais.
Críticas e debates
Como outras teorias pedagógicas, a Pedagogia Histórico-Crítica também é objeto de debates.
Alguns pesquisadores discutem as dificuldades de transformar seus princípios teóricos em práticas concretas de sala de aula. Existem ainda diferentes interpretações sobre a maneira de organizar os conteúdos e sobre as relações entre conhecimentos escolares e experiências dos estudantes.
Outro debate envolve o risco de tratar os cinco momentos pedagógicos como etapas rígidas. Autores ligados à própria perspectiva histórico-crítica destacam que o processo educativo é mais complexo e que esses momentos podem ocorrer de maneira articulada.
Essas discussões fazem parte do desenvolvimento da própria teoria e demonstram que sua aplicação depende das condições específicas de cada escola, disciplina e grupo de estudantes.
Principais características da Pedagogia Histórico-Crítica
A Pedagogia Histórico-Crítica pode ser identificada por algumas características fundamentais:
• compreende a educação como uma prática social e histórica.
• valoriza o conhecimento científico, filosófico, artístico e cultural produzido pela humanidade.
• atribui à escola a função de garantir o acesso ao conhecimento sistematizado.
• considera o professor responsável pela organização e mediação do processo de ensino.
• reconhece o estudante como participante ativo da aprendizagem.
• procura relacionar os conteúdos escolares com a realidade social.
• defende a articulação entre teoria e prática.
• entende que o conhecimento pode ampliar a capacidade de interpretação crítica da sociedade.
• reconhece que a escola está inserida em uma sociedade marcada por desigualdades e contradições.
• defende a democratização do acesso aos conhecimentos historicamente produzidos.
Exemplo prático de aula segundo a Pedagogia Histórico-Crítica
Tema: industrialização e condições de trabalho
Turma: 9º ano do Ensino Fundamental ou 1º ano do Ensino Médio
Objetivo da aula: compreender como a industrialização transformou o trabalho, as cidades e as relações sociais, relacionando esse processo histórico com situações do presente.
Prática social inicial
O professor inicia a aula perguntando aos alunos o que eles sabem sobre fábricas, jornadas de trabalho, salários, máquinas e produção em grande escala.
Também pode apresentar situações atuais, como trabalho em aplicativos, linhas de produção, automação e longas jornadas. Nesse momento, o objetivo é identificar os conhecimentos prévios dos estudantes.
Problematização
Depois das primeiras respostas, o professor propõe questões que tornem o tema mais complexo:
Por que a industrialização modificou tanto a vida dos trabalhadores?
Por que muitas fábricas empregavam mulheres e crianças?
Como o crescimento das indústrias contribuiu para a expansão das cidades?
Por que surgiram movimentos operários e reivindicações por direitos?
A intenção é mostrar que as explicações iniciais dos alunos não são suficientes para compreender todo o processo histórico.
Instrumentalização
O professor apresenta os conteúdos necessários para aprofundar o tema.
Podem ser trabalhados:
• Revolução Industrial.
• Sistema fabril.
• Divisão do trabalho.
• Urbanização.
• Jornadas extensas.
• Trabalho feminino e infantil.
• Formação da classe operária.
• Sindicatos e movimentos trabalhistas.
• Mudanças provocadas pelas máquinas.
Também podem ser utilizados textos, imagens de fábricas, documentos históricos, gráficos e relatos de trabalhadores.
Nessa etapa, o professor tem papel ativo na explicação e na organização do conhecimento.
Catarse
Após estudar os conteúdos, os alunos produzem uma síntese.
Uma atividade possível seria pedir que respondessem:
"Explique por que a industrialização não representou apenas uma mudança tecnológica, mas também uma transformação social."
Espera-se que o estudante consiga relacionar máquinas, produção industrial, urbanização, condições de trabalho e conflitos sociais.
Nesse momento, ele demonstra uma compreensão mais elaborada do assunto do que aquela apresentada no início da aula.
Prática social final
Para encerrar, o professor retoma questões atuais sobre o mundo do trabalho.
Os alunos podem comparar o trabalho nas primeiras fábricas com situações contemporâneas, como automação, trabalho por aplicativos, terceirização e direitos trabalhistas.
A proposta não é afirmar que as duas realidades sejam iguais, mas utilizar o conhecimento histórico para analisar permanências, diferenças e transformações.
Assim, o estudante retorna ao problema inicial com instrumentos conceituais mais desenvolvidos.
O que caracteriza essa aula como histórico-crítica
O ponto central é que a aula não fica apenas na experiência cotidiana dos alunos. Ela parte dessa experiência, apresenta um problema, introduz conhecimentos históricos sistematizados e permite que os estudantes reconstruam sua compreensão da realidade.
O professor não atua apenas como observador ou facilitador. Ele seleciona conteúdos, explica conceitos e conduz a aprendizagem. O aluno, por sua vez, participa ativamente, mas sua participação ocorre por meio da apropriação de conhecimentos que ampliam sua capacidade de interpretar o mundo.
Conclusão
A Pedagogia Histórico-Crítica concebe a educação escolar como uma atividade fundamental para a formação intelectual dos indivíduos. Sua proposta procura garantir aos estudantes o acesso aos conhecimentos científicos, filosóficos, artísticos e culturais acumulados historicamente.
Para essa corrente pedagógica, ensinar não significa simplesmente transmitir informações nem limitar o aprendizado às experiências imediatas dos alunos. O processo educativo deve permitir que os estudantes avancem de uma compreensão inicial da realidade para formas mais elaboradas de interpretação.
A contribuição central da Pedagogia Histórico-Crítica está, portanto, na defesa de uma escola que ensine conteúdos relevantes e possibilite sua compreensão crítica. Ao dominar conhecimentos historicamente produzidos, os estudantes ampliam seus instrumentos para compreender a sociedade, interpretar suas contradições e participar de maneira mais consciente da vida social.
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| Mapa mental com síntese sobre a Pedagogia Histórico-Crítica |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 20/09/2026
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Fontes:
PEDAGOGIA HISTÓRICO CRÍTICA: DA TEORIA À PRÁTICA NO CONTEXTO ESCOLAR

