História do Karatê

 

O que é o Karatê?



O karatê é uma arte marcial desenvolvida principalmente em Okinawa, arquipélago que atualmente pertence ao Japão. Sua prática utiliza técnicas de ataque e defesa executadas sobretudo com as mãos, braços, pernas e pés. Socos, chutes, bloqueios, deslocamentos e movimentos de esquiva fazem parte do treinamento, que procura desenvolver controle corporal, velocidade, equilíbrio, coordenação e precisão.

A palavra karatê é formada por termos japoneses que podem ser traduzidos como “mãos vazias”. O nome está relacionado ao fato de que seus praticantes tradicionalmente treinam técnicas de combate sem utilizar armas. Quando aparece a expressão karate-dō, o elemento dō significa “caminho”, indicando que a prática não deve ser entendida somente como um conjunto de golpes, mas também como um processo de aperfeiçoamento técnico e pessoal.

O treinamento costuma ser organizado em três componentes importantes. O kihon corresponde ao aprendizado e à repetição das técnicas básicas. O kata consiste em sequências previamente organizadas de movimentos que simulam situações de combate. Já o kumite é o treinamento de luta realizado entre dois praticantes, seguindo diferentes métodos e regras de acordo com o estilo ou com a competição.



Origem e história



As origens do karatê encontram-se nas ilhas Ryukyu, especialmente em Okinawa. Durante vários séculos, o arquipélago manteve intensas relações comerciais e culturais com diferentes regiões do leste da Ásia, principalmente com a China. Nesse ambiente de intercâmbio desenvolveram-se sistemas locais de combate que, ao longo do tempo, receberam influências de técnicas chinesas.

Antes da formação do karatê moderno, algumas dessas práticas eram conhecidas pelo termo te, que significa “mão”. Em Okinawa, desenvolveram-se tradições relacionadas a importantes localidades da ilha, como Shuri, Naha e Tomari. Por esse motivo, surgiram denominações como Shuri-te, Naha-te e Tomari-te.

A história dessas artes marciais também esteve relacionada às transformações políticas de Okinawa. O Reino de Ryukyu havia se constituído no século XV e manteve uma posição estratégica nas rotas comerciais asiáticas. Em 1609, forças do domínio japonês de Satsuma invadiram o arquipélago e passaram a exercer forte influência política sobre o reino.

Durante muito tempo tornou-se comum afirmar que o karatê teria surgido diretamente da proibição absoluta de armas em Okinawa. Essa explicação, porém, é considerada simplificadora por estudos históricos mais recentes. Restrições ao porte de armas existiram em diferentes momentos, mas o desenvolvimento das artes marciais de Okinawa ocorreu por um processo mais amplo, envolvendo tradições locais, intercâmbios culturais, necessidades de defesa e contatos com métodos chineses de luta.

No século XIX, alguns mestres tiveram papel decisivo na preservação e transformação das técnicas de Okinawa. Entre eles estava Sōkon Matsumura, associado à tradição de Shuri, cuja influência alcançou diversos professores das gerações seguintes. Nesse período, a transmissão do conhecimento ocorria principalmente por meio da relação direta entre mestre e discípulo.

Uma transformação importante aconteceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Ankō Itosu procurou organizar o ensino do karatê para que pudesse ser praticado por um número maior de pessoas. Por volta de 1901, sua introdução em escolas de Okinawa contribuiu para transformar uma prática transmitida em pequenos círculos numa atividade educacional mais sistematizada.

Itosu também participou da adaptação de técnicas e formas de treinamento às necessidades escolares. Algumas sequências de kata foram organizadas com finalidade pedagógica, facilitando o aprendizado progressivo dos estudantes. Essa etapa foi fundamental para a posterior expansão do karatê.

No começo do século XX, Okinawa já estava integrada ao Estado japonês, situação consolidada em 1879 com a transformação do antigo reino na Prefeitura de Okinawa. Foi nesse contexto que professores okinawanos começaram a divulgar sua arte em outras partes do Japão.

Um momento decisivo ocorreu em 1922, quando Gichin Funakoshi realizou uma importante demonstração de karatê em Tóquio. Sua permanência na capital e seu trabalho como professor contribuíram decisivamente para tornar a modalidade conhecida entre estudantes, militares e outros grupos da sociedade japonesa.

A expansão pelas universidades japonesas durante as décadas de 1920 e 1930 modificou a estrutura do karatê. O treinamento tornou-se mais organizado, surgiram associações e foram desenvolvidos métodos sistemáticos de graduação e ensino. Aos poucos, a prática passou de uma tradição predominantemente okinawana para uma arte marcial difundida em várias regiões do Japão.

Também ocorreu uma transformação no próprio nome. Anteriormente, um dos modos de escrever karate podia ser interpretado como “mão chinesa”, referência às influências provenientes da China. Durante a primeira metade do século XX, difundiu-se a escrita com caracteres cujo significado era “mão vazia”. A mudança ajudou a integrar a modalidade ao conjunto das artes marciais japonesas modernas.

Diferentes mestres organizaram seus próprios métodos de treinamento, dando origem aos principais estilos modernos. O Shotokan ficou fortemente associado aos ensinamentos de Gichin Funakoshi; o Goju-ryu foi sistematizado por Chōjun Miyagi; o Shito-ryu teve como fundador Kenwa Mabuni; e o Wado-ryu foi desenvolvido por Hironori Otsuka. Paralelamente, estilos tradicionais de Okinawa, como o Shorin-ryu, continuaram a desenvolver suas próprias escolas.

 

Foto de 1938 mostrando um treinamento coletivo de Karatê na cidade japonesa de Okinawa
Foto de 1938, mostrando um treinamento coletivo de Karatê na cidade japonesa de Okinawa

 

Após a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o karatê entrou numa nova etapa. A presença militar dos Estados Unidos no Japão e em Okinawa colocou muitos estrangeiros em contato com as artes marciais japonesas. Professores também começaram a viajar para outros países, fundando academias e organizações.

Nas décadas de 1950 e 1960, sua expansão internacional acelerou-se. Europa, América e outras regiões passaram a receber instrutores japoneses e okinawanos. Campeonatos nacionais e internacionais contribuíram para o desenvolvimento de uma vertente esportiva, paralelamente à manutenção das escolas que enfatizavam os aspectos tradicionais da arte marcial.

A criação de organizações internacionais permitiu a aproximação entre diferentes federações e estilos. Em 1970 foi realizado em Tóquio o primeiro Campeonato Mundial de Karatê ligado à organização que posteriormente daria origem à atual estrutura internacional da modalidade.

Depois de décadas de esforços para integrar o programa olímpico, o karatê participou pela primeira vez dos Jogos Olímpicos realizados em Tóquio em 2021, correspondentes à edição oficialmente denominada Tóquio 2020, adiada em razão da pandemia de Covid-19. Foram realizadas disputas de kata e kumite. A modalidade, entretanto, não permaneceu automaticamente no programa das edições olímpicas seguintes.

 

Foto de Gichin Funakoshi
Gichin Funakoshi: conhecido como o o "pai do Karatê moderno".




O Karatê no Brasil: chegada e evolução


A introdução do karatê no Brasil esteve diretamente relacionada à presença da comunidade japonesa. A imigração japonesa em grande escala começou em 1908, quando o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos. Nas décadas seguintes, milhares de japoneses se estabeleceram principalmente no estado de São Paulo e levaram consigo diferentes elementos de sua cultura, incluindo práticas marciais.

Não é possível estabelecer com absoluta segurança uma única pessoa como responsável pela introdução do karatê no país. A história da modalidade brasileira apresenta registros de praticantes e professores que atuaram em diferentes comunidades antes da criação das primeiras academias estruturadas. Por isso, os historiadores tendem a tratar sua implantação como um processo desenvolvido principalmente durante as décadas de 1950 e 1960.

Um dos primeiros registros conhecidos está relacionado a Motoku Yabiku, professor de origem okinawana que realizou atividades no Brasil no início da década de 1950. Existem registros de uma apresentação realizada por seus alunos no Ginásio do Pacaembu, em São Paulo, em 1951. Sua atuação mostra que a prática já estava presente no país antes da abertura das academias que posteriormente se tornariam mais conhecidas.

Outro personagem fundamental foi Yoshihide Shinzato, que desembarcou em Santos em 15 de janeiro de 1954. Natural de Okinawa e praticante do Shorin-ryu, começou a ensinar inicialmente dentro da comunidade de imigrantes e descendentes japoneses no litoral paulista. Também realizou demonstrações públicas que ajudaram os brasileiros a conhecer aquela arte marcial ainda pouco difundida.

Mitsusuke Harada chegou ao Brasil em 1955. Ligado ao Shotokan e à Universidade de Waseda, começou a organizar o ensino da modalidade em São Paulo. Em 1956, estabeleceu um dojô na capital paulista e tornou-se um dos principais pioneiros da sistematização do karatê no país.

Nos anos seguintes chegaram ou começaram a atuar outros professores japoneses. Juichi Sagara, Seiichi Akamine, Yasutaka Tanaka, Sadamu Uriu, Koji Takamatsu e diversos outros mestres colaboraram para introduzir diferentes escolas e métodos. Dessa maneira, o karatê brasileiro não se desenvolveu a partir de uma única linhagem.

A década de 1960 marcou uma importante fase de expansão geográfica. Em 1961, Eisuke Oishi participou da introdução da modalidade na Bahia. No Rio de Janeiro, professores como Yasutaka Tanaka e Sadamu Uriu contribuíram para a formação de academias e praticantes. Outros mestres estabeleceram atividades em diferentes estados.

No litoral paulista, Yoshihide Shinzato fundou, em 1962, a Academia Santista de Karate-Do, que se tornou uma importante referência do Shorin-ryu. A partir desse núcleo foram formados professores e abertas academias em diversas regiões, fortalecendo a presença dessa tradição no Brasil.

Inicialmente, o karatê brasileiro não possuía organizações esportivas próprias suficientemente estruturadas. Em vários estados, suas entidades ficaram vinculadas às federações de pugilismo, que administravam diferentes modalidades de combate. Campeonatos começaram a ser realizados e contribuíram para aumentar o interesse pela arte marcial.

Durante as décadas de 1970 e 1980, o número de academias, praticantes e competições cresceu consideravelmente. Diferentes estilos estabeleceram associações próprias, enquanto atletas brasileiros começaram a participar com maior frequência de torneios internacionais. O karatê passou a ser praticado não apenas dentro das comunidades de origem japonesa, alcançando um público muito mais amplo.

Em 1987 foi fundada a Confederação Brasileira de Karatê (CBK), entidade que passou a desempenhar importante função na organização da vertente esportiva da modalidade no país. Federações estaduais, campeonatos nacionais, cursos de arbitragem e programas de formação contribuíram para ampliar a estrutura competitiva.

Nas décadas seguintes, atletas brasileiros conquistaram resultados expressivos em competições continentais e mundiais. Ao mesmo tempo, continuaram atuando no país numerosas organizações vinculadas a estilos e linhagens específicas. Essa característica explica por que a história do karatê brasileiro envolve tanto entidades esportivas quanto associações tradicionais independentes.

Atualmente, a modalidade está presente em academias, clubes, universidades, projetos sociais e instituições esportivas de praticamente todas as regiões brasileiras. Sua trajetória no país resulta da combinação entre a imigração japonesa, o trabalho dos primeiros mestres, a formação de professores brasileiros e a progressiva organização esportiva desenvolvida desde meados do século XX.




Principais nomes da história do Karatê:



Sōkon Matsumura (c. 1809–1899)

Entre os grandes mestres de Okinawa do século XIX, Matsumura ocupa posição de destaque. Ligado à tradição marcial de Shuri, atuou no ambiente da corte do Reino de Ryukyu e ensinou praticantes que posteriormente exerceriam grande influência sobre o desenvolvimento do karatê. Muitas linhagens modernas reconhecem sua importância na transmissão das técnicas que deram origem ao Shuri-te e, posteriormente, a diferentes escolas de Shorin-ryu.



Ankō Itosu (1831–1915)

A transformação do karatê numa prática ensinada de maneira mais sistemática deve muito a Itosu. Professor em Okinawa, ele defendeu sua utilização na educação dos jovens e participou de sua introdução no ambiente escolar no início do século XX. Também reorganizou métodos de treinamento e ajudou a tornar o aprendizado mais acessível para grupos maiores de estudantes. Vários mestres que difundiram posteriormente o karatê receberam sua influência direta ou indireta.



Kanryō Higaonna (1853–1915)

O desenvolvimento das tradições de Naha teve em Higaonna um de seus principais representantes. Depois de contatos com artes marciais chinesas, especialmente durante sua permanência na região de Fujian, na China, transmitiu em Okinawa métodos que enfatizavam respiração, fortalecimento corporal, movimentos circulares e técnicas executadas a curta distância. Entre seus discípulos estava Chōjun Miyagi.



Gichin Funakoshi (1868–1957)

Responsável por uma das etapas mais importantes da internacionalização do karatê, Funakoshi nasceu em Okinawa e estudou com mestres como Ankō Itosu e Ankō Asato. Depois da demonstração realizada em Tóquio em 1922, permaneceu no Japão e dedicou grande parte de sua vida à divulgação da modalidade. Seus ensinamentos deram origem ao desenvolvimento do Shotokan, posteriormente transformado em um dos estilos mais praticados do mundo.



Chōjun Miyagi (1888–1953)

A tradição que deu origem ao Goju-ryu foi organizada por Miyagi a partir principalmente dos ensinamentos de Kanryō Higaonna e de seus próprios estudos. O nome do estilo reúne os conceitos de “duro” e “suave”, indicando a combinação de técnicas baseadas em força, tensão, movimentos circulares, respiração e flexibilidade. Seu trabalho teve grande influência em Okinawa e posteriormente em diversos países.



Kenwa Mabuni (1889–1952)

Conhecedor de tradições provenientes de diferentes mestres de Okinawa, Mabuni fundou o Shito-ryu. Sua formação incluiu ensinamentos relacionados tanto a Ankō Itosu quanto a Kanryō Higaonna. Essa combinação contribuiu para a preservação de um grande repertório de kata. Depois de se estabelecer na região de Osaka, participou da expansão do karatê pelo território japonês.



Hironori Otsuka (1892–1982)

Antes de se dedicar ao karatê, Otsuka possuía ampla experiência no jujutsu japonês. O contato com os ensinamentos de Funakoshi permitiu que combinasse elementos dessas tradições e desenvolvesse o Wado-ryu. O estilo valorizou princípios como esquivas, deslocamentos corporais e aproveitamento do movimento adversário, tornando-se posteriormente uma das principais escolas internacionais de karatê.



Chōshin Chibana (1885–1969)

Discípulo de Ankō Itosu, Chibana teve papel fundamental na preservação e organização da tradição Shorin-ryu de Okinawa. Sua escola influenciou numerosas gerações de praticantes. Entre aqueles que receberam seus ensinamentos estava Yoshihide Shinzato, responsável por uma importante linhagem do karatê brasileiro.



Masutatsu Oyama (1923–1994)

O desenvolvimento do Kyokushin está ligado à atuação de Masutatsu Oyama, nascido na península da Coreia durante o período de domínio japonês. Depois de estudar diferentes artes marciais no Japão, estruturou um método caracterizado por treinamento físico intenso e combates com forte contato corporal. A organização fundada por ele difundiu-se internacionalmente durante a segunda metade do século XX.



Mitsusuke Harada (1928–2021)

No Brasil, Harada teve participação fundamental na organização inicial do Shotokan. Chegou ao país em 1955 e começou a ensinar em São Paulo, estabelecendo um dojô no ano seguinte. Sua atuação está entre os primeiros esforços sistemáticos de formação de praticantes brasileiros e ajudou a transformar o karatê numa atividade organizada fora dos círculos restritos da comunidade japonesa.



Yoshihide Shinzato (1927–2008)

A história do Shorin-ryu no Brasil está profundamente relacionada a Shinzato. Nascido em Okinawa, chegou ao país em 1954 e começou a ensinar no litoral paulista. Em 1962 fundou em Santos sua primeira academia formal, formando posteriormente numerosos professores. Seu trabalho contribuiu para a expansão do karatê por várias regiões brasileiras e por outros países da América do Sul.



Seiichi Akamine (1920–1995)

Representante do Goju-ryu, Akamine integrou a geração de mestres japoneses e okinawanos responsável pela consolidação do karatê brasileiro na segunda metade da década de 1950. Desenvolveu atividades em São Paulo e participou da formação de praticantes e professores, fortalecendo uma das principais tradições da modalidade no país.



Juichi Sagara

Entre os pioneiros do Shotokan no Brasil, Sagara exerceu influência importante durante a fase de organização das primeiras academias. Sua atuação em São Paulo contribuiu para formar novos praticantes e estabelecer uma estrutura de ensino mais permanente, justamente quando a modalidade começava a ultrapassar os limites da comunidade de imigrantes japoneses.



Yasutaka Tanaka

Sua contribuição tornou-se especialmente importante para o desenvolvimento do karatê no Rio de Janeiro. Depois de passar por São Paulo, Tanaka estabeleceu atividades na capital fluminense no início da década de 1960. A formação de alunos e professores ajudou a ampliar a presença do Shotokan e a consolidar o karatê em uma das principais cidades brasileiras.



Eisuke Oishi

Na Bahia, a história da modalidade ganhou impulso com o trabalho desenvolvido por Oishi a partir de 1961. Sua atuação demonstra que a implantação do karatê no Brasil deixou rapidamente de ser um fenômeno concentrado em São Paulo. A formação de núcleos em diferentes estados durante a década de 1960 foi decisiva para que a prática adquirisse alcance nacional.

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 21/08/2026