Estruturalismo na Filosofia

 

O que é

 

O estruturalismo é uma corrente teórica e metodológica das Ciências Humanas que busca compreender os fenômenos humanos por meio das estruturas que organizam a linguagem, a cultura, a sociedade e o pensamento. Desenvolvido principalmente ao longo do século XX, esse método parte da ideia de que costumes, crenças, comportamentos e formas de conhecimento não devem ser analisados isoladamente, mas como elementos relacionados dentro de sistemas mais amplos. Influenciado pela Linguística de Ferdinand de Saussure, o estruturalismo ganhou destaque em áreas como Antropologia, Sociologia, Filosofia, Psicanálise, Semiótica e crítica literária.

 

Origem

 

A origem do estruturalismo está relacionada à Linguística desenvolvida pelo suíço Ferdinand de Saussure no início do século XX, especialmente a partir da publicação póstuma de “Curso de Linguística Geral”, em 1916. Saussure propôs que a língua deveria ser estudada como um sistema de signos cujos elementos adquirem sentido por meio das relações e diferenças existentes entre eles. Essa perspectiva foi posteriormente ampliada para outras áreas das Ciências Humanas, sobretudo a Antropologia, com Claude Lévi-Strauss, a partir da década de 1940. Ao aplicar o método estrutural à análise dos mitos, dos sistemas de parentesco e das culturas, Lévi-Strauss contribuiu para consolidar o estruturalismo como uma das principais correntes intelectuais do século XX.

 



Principais características do estruturalismo:



• Ruptura com abordagens tradicionais centradas exclusivamente no indivíduo, na intenção pessoal ou na descrição isolada dos fenômenos sociais e culturais.



• Utilização de uma metodologia voltada para a compreensão dos elementos culturais por meio das relações que mantêm entre si dentro de um sistema mais amplo.



• Busca pela identificação das estruturas subjacentes que organizam diferentes aspectos da vida humana, como a religiosidade, as crenças, os comportamentos, os sentimentos, os costumes e as manifestações culturais.



• Compreensão de que os fenômenos sociais e culturais não devem ser analisados de forma isolada, pois seu sentido depende da posição ocupada por cada elemento no interior de uma estrutura.



• Entendimento de que os significados são produzidos e reproduzidos dentro de uma cultura por meio de práticas, instituições, discursos, ações sociais e sistemas de representação.



• Valorização das relações entre os elementos de um sistema. Para os estruturalistas, um elemento não possui significado completo por si mesmo, mas somente quando comparado ou relacionado a outros elementos.



• Ênfase na existência de estruturas profundas e, muitas vezes, inconscientes, que influenciam a organização do pensamento, da linguagem, dos mitos, das relações de parentesco e das práticas sociais.



• Redução da importância atribuída à ação individual e à criatividade pessoal. Nessa perspectiva, os indivíduos são fortemente condicionados pelas estruturas sociais, culturais e linguísticas nas quais estão inseridos.



• Influência decisiva da Linguística de Ferdinand de Saussure. O estruturalismo utiliza a linguagem como modelo para compreender outros sistemas culturais, destacando os conceitos de significante, que corresponde à forma da palavra ou do signo, e significado, que corresponde ao conceito representado.



• Forte relação com a Semiótica, área dedicada ao estudo dos signos. O estruturalismo investiga como palavras, imagens, gestos, rituais, objetos e costumes transmitem significados por meio das relações e diferenças existentes entre eles.



• Uso frequente de oposições binárias, como natureza e cultura, masculino e feminino, vida e morte, sagrado e profano. Essas oposições seriam formas fundamentais de organização do pensamento humano.



• Procura por padrões universais presentes em diferentes sociedades. Embora as culturas apresentem grande diversidade, os estruturalistas defendem que elas podem compartilhar estruturas mentais e formas de organização semelhantes.



• Aplicação interdisciplinar. O estruturalismo exerceu influência sobre a Linguística, a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia, a Psicanálise, a crítica literária e os estudos culturais.



Principais filósofos, sociólogos e antropólogos estruturalistas:


1. Principais sociólogos estruturalistas


Talcott Parsons (1902–1979)

Sociólogo norte-americano associado ao estrutural-funcionalismo. Parsons compreendia a sociedade como um sistema formado por instituições interdependentes, como a família, a escola, a religião, a economia e o Estado. Cada instituição desempenharia funções necessárias à manutenção da ordem e da estabilidade social. Embora não pertencesse ao estruturalismo francês, sua teoria aproximou-se dessa perspectiva ao priorizar as estruturas sociais em relação às ações individuais.



Robert K. Merton (1910–2003)

Sociólogo norte-americano que reformulou diversos aspectos do funcionalismo estrutural. Merton distinguiu as funções manifestas, que são intencionais e reconhecidas, das funções latentes, que produzem consequências não planejadas. Também estudou as disfunções sociais, demonstrando que determinadas instituições podem contribuir para a estabilidade de alguns grupos e, ao mesmo tempo, causar problemas para outros.



Pierre Bourdieu (1930–2002)

Sociólogo francês cuja obra combinou elementos do estruturalismo com a análise das práticas individuais. Bourdieu desenvolveu conceitos como habitus, campo e capital cultural. Para ele, os indivíduos agem dentro de estruturas sociais previamente constituídas, mas suas práticas também podem conservar ou transformar essas estruturas. Por essa razão, sua abordagem é frequentemente chamada de estruturalismo construtivista ou estruturalismo genético.



Louis Althusser (1918–1990)

Embora fosse principalmente filósofo, Althusser exerceu forte influência sobre a Sociologia por meio do chamado marxismo estruturalista. Ele analisou a sociedade como uma totalidade formada por estruturas econômicas, políticas e ideológicas relativamente autônomas. Desenvolveu o conceito de aparelhos ideológicos de Estado, como a escola, a família, a Igreja e os meios de comunicação, que contribuiriam para a reprodução das relações sociais existentes.



Nicos Poulantzas (1936–1979)

Sociólogo e pensador político greco-francês influenciado por Althusser. Poulantzas estudou o Estado capitalista como uma estrutura que não atua apenas em favor de indivíduos específicos, mas contribui para a manutenção das relações de classe. Sua obra procurou explicar como o poder político se organiza institucionalmente e como o Estado possui certa autonomia em relação às diferentes frações das classes dominantes.




2. Principais antropólogos estruturalistas:


Claude Lévi-Strauss (1908–2009)


Foi o principal representante do estruturalismo na Antropologia. Lévi-Strauss defendia que costumes, mitos, sistemas de parentesco e formas de classificação eram organizados por estruturas mentais inconscientes. Essas estruturas seriam comuns aos seres humanos, embora se manifestassem de maneiras diferentes em cada cultura. Em seus estudos, procurou identificar relações e oposições, como natureza e cultura, vida e morte, cru e cozido.



Marcel Mauss (1872–1950)

Antropólogo e sociólogo francês considerado um importante precursor do estruturalismo. Em sua obra “Ensaio sobre a Dádiva”, analisou as trocas de presentes como fatos sociais que envolvem, simultaneamente, aspectos econômicos, religiosos, jurídicos e políticos. Sua concepção de totalidade social influenciou diretamente Lévi-Strauss e outros antropólogos estruturalistas.



Alfred Radcliffe-Brown (1881–1955)


Antropólogo britânico ligado ao estrutural-funcionalismo. Estudou as relações sociais como partes de uma estrutura relativamente duradoura, responsável pela manutenção da sociedade. Para Radcliffe-Brown, a Antropologia deveria investigar as funções exercidas pelas instituições e pelos costumes dentro do conjunto social. Sua abordagem apresentava diferenças em relação ao estruturalismo francês, mas contribuiu para consolidar a análise das estruturas sociais.



Edmund Leach (1910–1989)

Antropólogo britânico influenciado tanto pelo funcionalismo quanto por Lévi-Strauss. Leach criticou a ideia de que as sociedades formariam sistemas completamente estáveis e equilibrados. Em seus estudos, mostrou que as estruturas sociais podem apresentar contradições, conflitos e transformações. Também aplicou a análise estrutural ao parentesco, aos rituais e aos sistemas simbólicos.



Mary Douglas (1921–2007)


Antropóloga britânica que utilizou elementos estruturalistas para estudar os sistemas de classificação cultural. Em “Pureza e Perigo”, analisou como diferentes sociedades definem o que é puro, impuro, permitido ou proibido. Para Douglas, as ideias de sujeira e contaminação não dependem apenas de questões de higiene, mas refletem a maneira como cada cultura organiza simbolicamente o mundo.



Françoise Héritier (1933–2017)

Antropóloga francesa que sucedeu Lévi-Strauss no Collège de France. Desenvolveu estudos sobre parentesco, diferenças entre os sexos, casamento e relações de poder. Héritier manteve princípios da Antropologia estrutural, mas ampliou suas análises ao investigar como as sociedades construíram hierarquias entre homens e mulheres.




3. Principais filósofos estruturalistas:


Louis Althusser (1918–1990)

Filósofo francês que aplicou o estruturalismo à interpretação do marxismo. Althusser rejeitou explicações históricas centradas exclusivamente nas intenções dos indivíduos. Para ele, os acontecimentos deveriam ser compreendidos a partir das relações entre estruturas econômicas, políticas e ideológicas. Defendeu também que a sociedade não seria determinada mecanicamente apenas pela economia, pois suas diferentes estruturas possuiriam autonomia relativa.



Michel Foucault (1926–1984)

Filósofo francês frequentemente associado ao estruturalismo, embora tenha rejeitado essa classificação em diferentes momentos de sua trajetória. Foucault investigou as estruturas históricas que determinam o que pode ser considerado verdadeiro, científico, normal ou aceitável em determinada época. Estudou instituições como prisões, hospitais, escolas e manicômios, analisando suas relações com o poder e a produção de conhecimentos.



Jacques Derrida (1930–2004)

Filósofo franco-argelino inicialmente vinculado aos debates estruturalistas, mas reconhecido principalmente como um dos fundadores do pós-estruturalismo. Derrida formulou a desconstrução, método de leitura que procura revelar contradições, ambiguidades e hierarquias presentes nos textos. Ele criticou a ideia de que as estruturas linguísticas possuiriam centros fixos ou significados definitivos.



Gilles Deleuze (1925–1995)


Filósofo francês que dialogou com o estruturalismo, mas desenvolveu uma perspectiva crítica em relação às estruturas rígidas e permanentes. Deleuze destacou a multiplicidade, a diferença, o movimento e a transformação. Em trabalhos escritos com Félix Guattari, criticou modelos hierárquicos de pensamento e propôs o conceito de rizoma, caracterizado por conexões múltiplas e sem um centro único.



Roland Barthes (1915–1980)

Pensador francês ligado à Filosofia, à Semiótica e à crítica literária. Barthes utilizou o estruturalismo para analisar textos, imagens, propagandas, moda e produtos culturais. Em “Mitologias”, demonstrou como objetos e práticas cotidianas podem transmitir valores ideológicos, fazendo construções históricas parecerem naturais. Posteriormente, aproximou-se do pós-estruturalismo ao enfatizar a multiplicidade de sentidos dos textos.



Jacques Lacan (1901–1981)

Psicanalista francês que reinterpretou as ideias de Sigmund Freud com base na Linguística estrutural. Lacan afirmou que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Para ele, a identidade do indivíduo é construída por meio de símbolos, palavras e relações sociais, e não resulta apenas de características biológicas ou de decisões conscientes. Sua obra influenciou a Filosofia, a Sociologia, a crítica literária e os estudos culturais.



Consideração sobre as classificações

As fronteiras entre Sociologia, Antropologia e Filosofia não são rígidas no estruturalismo. Lévi-Strauss era antropólogo, mas influenciou a Sociologia e a Filosofia; Althusser era filósofo, mas exerceu grande impacto sobre a teoria sociológica; Barthes atuou na crítica literária e na Semiótica. Também é necessário distinguir o estruturalismo propriamente dito do estrutural-funcionalismo e do pós-estruturalismo, pois essas correntes apresentam aproximações, mas não são equivalentes.

 

Foto do filósofo estruturalista francês Michel Foucault

O filósofo francês Michel Foucault foi outro importante representante do Estruturalismo na Filosofia.

 

Principais obras estruturalistas:

 


1. “Curso de Linguística Geral” (1916), de Ferdinand de Saussure

Publicada postumamente a partir das anotações de seus alunos, essa obra estabeleceu as bases da Linguística estrutural. Saussure definiu a língua como um sistema formado por signos que adquirem sentido por meio das relações e diferenças existentes entre eles.

O autor distinguiu língua e fala. A língua corresponde ao sistema coletivo de regras e signos compartilhados por uma comunidade, enquanto a fala representa o uso individual desse sistema. Também apresentou a distinção entre significante, a forma sonora ou gráfica da palavra, e significado, o conceito associado a ela.



2. “As Estruturas Elementares do Parentesco” (1949), de Claude Lévi-Strauss

Nessa obra, Lévi-Strauss aplicou o método estruturalista ao estudo dos sistemas de parentesco. O antropólogo demonstrou que regras de casamento, descendência e troca entre grupos não eram costumes isolados, mas partes de estruturas sociais organizadas.

Um dos pontos centrais do livro é a análise da proibição do incesto. Para Lévi-Strauss, essa proibição incentivava a formação de alianças entre famílias e grupos diferentes por meio do casamento. O parentesco deveria, portanto, ser compreendido como um sistema de relações e trocas.



3. “Antropologia Estrutural” (1958), de Claude Lévi-Strauss

A obra reúne estudos nos quais Lévi-Strauss apresenta os fundamentos teóricos e metodológicos da Antropologia estrutural. O autor analisa temas como parentesco, organização social, linguagem, religião, magia, arte e mitologia.

Lévi-Strauss sustentava que os fenômenos culturais eram organizados por estruturas mentais inconscientes. O trabalho do antropólogo seria identificar essas estruturas por meio da comparação entre diferentes sociedades e da análise das relações existentes entre seus elementos culturais.



4. “O Pensamento Selvagem” (1962), de Claude Lévi-Strauss

Nesse livro, Lévi-Strauss criticou a ideia de que os povos tradicionais possuíam formas de pensamento inferiores ou irracionais. Segundo ele, todas as sociedades desenvolvem sistemas complexos para classificar animais, plantas, objetos, pessoas e acontecimentos.

O chamado pensamento selvagem não seria uma forma primitiva de inteligência, mas um modo específico de organizar a realidade. A principal diferença entre o pensamento científico moderno e o pensamento tradicional estaria nos métodos e nos materiais utilizados, e não na capacidade intelectual dos seres humanos.



5. “Mitológicas” (1964–1971), de Claude Lévi-Strauss

“Mitológicas” é uma série composta por quatro volumes: “O Cru e o Cozido”, “Do Mel às Cinzas”, “A Origem dos Modos à Mesa” e “O Homem Nu”. Nesses estudos, Lévi-Strauss analisou centenas de mitos dos povos indígenas das Américas.

O antropólogo procurou demonstrar que os mitos apresentam estruturas semelhantes, mesmo quando pertencem a povos geograficamente distantes. Essas narrativas seriam organizadas por oposições como natureza e cultura, cru e cozido, vida e morte, masculino e feminino.



6. “Mitologias” (1957), de Roland Barthes

Roland Barthes analisou objetos, costumes e produtos culturais da sociedade francesa, como propagandas, revistas, esportes, automóveis, alimentos e espetáculos. Seu objetivo era demonstrar que elementos aparentemente comuns da vida cotidiana podiam transmitir valores sociais e ideológicos.

Barthes utilizou a análise dos signos para explicar como determinadas ideias históricas e culturais são apresentadas como naturais e universais. Dessa forma, o conceito de mito não se refere apenas às narrativas antigas, mas também aos discursos modernos que ocultam sua origem social e política.



7. “Por Marx” (1965), de Louis Althusser

Nessa obra, Althusser desenvolveu uma interpretação estruturalista do marxismo. O filósofo rejeitou explicações históricas baseadas exclusivamente nas decisões individuais ou em uma relação simples de causa e efeito entre economia e política.

Para Althusser, a sociedade é formada por diferentes estruturas, como a econômica, a política e a ideológica. Embora relacionadas, essas estruturas possuem certa autonomia. Os acontecimentos históricos resultariam da combinação de múltiplas determinações, e não da ação de um único fator.



8. “As Palavras e as Coisas” (1966), de Michel Foucault

Foucault investigou as condições históricas que tornaram possíveis determinadas formas de conhecimento nas sociedades ocidentais. A obra analisa campos como a História Natural, a Economia, a Gramática, a Biologia e a Linguística.

O autor apresentou o conceito de episteme, entendido como o conjunto de regras e pressupostos que organiza o conhecimento em determinada época. Embora Foucault tenha rejeitado sua classificação como estruturalista, “As Palavras e as Coisas” foi uma das obras mais influentes do ambiente intelectual estruturalista francês da década de 1960.


 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 27/07/2026