Tratado de Methuen
O que foi
Também conhecido como Tratado de Panos e Vinhos, o Tratado de Methuen foi um acordo comercial assinado entre Portugal e Grã-Bretanha em 27 de dezembro de 1703. Este acordo vigorou entre 1703 e 1836. De acordo com o tratado, Portugal abriu sua economia à importação dos produtos britânicos (geralmente produtos manufaturados caros). Em contrapartida, os britânicos fizeram o mesmo, porém aos vinhos portugueses. O nome do tratado está relacionado ao nome do político e embaixador inglês, John Methuen, que intermediou as negociações entre os dois países.
Causas:
Aliança política entre Portugal e Inglaterra: desde o século XVII, Portugal buscava apoio inglês para garantir sua independência diante das ameaças da Espanha. Após a Restauração Portuguesa de 1640, a monarquia portuguesa precisava de aliados fortes para sustentar sua posição política na Europa. A Inglaterra, interessada em ampliar sua influência no Atlântico e enfraquecer a presença francesa e espanhola, tornou-se uma parceira estratégica para Portugal.
Guerra de Sucessão Espanhola: a assinatura do Tratado de Methuen, em 1703, ocorreu durante a Guerra de Sucessão Espanhola, iniciada em 1701. O conflito envolvia várias potências europeias preocupadas com o equilíbrio de poder no continente. Portugal, pressionado pelo cenário internacional, aproximou-se da Inglaterra para obter proteção militar e diplomática contra a possível expansão da influência francesa e espanhola.
Interesse inglês no mercado português: a Inglaterra tinha uma produção têxtil em expansão e buscava novos mercados consumidores para seus tecidos de lã. Portugal era um comprador importante, pois sua indústria manufatureira era limitada e não conseguia competir com a produção inglesa. O tratado abriu espaço para que os produtos ingleses entrassem com maior facilidade no mercado português.
Interesse português no mercado inglês para seus vinhos: Portugal desejava ampliar a venda de seus vinhos, especialmente os produzidos na região do Porto, para o mercado britânico. O tratado garantiu vantagens alfandegárias para os vinhos portugueses em relação aos vinhos franceses. Isso favoreceu produtores e comerciantes portugueses ligados à exportação vinícola.
Fragilidade econômica de Portugal: no início do século XVIII, Portugal tinha dificuldades para desenvolver uma indústria forte e dependia muito do comércio externo. A economia portuguesa era marcada pela exportação de produtos agrícolas e coloniais, enquanto importava grande quantidade de manufaturados. Essa fragilidade favoreceu a aceitação de um acordo comercial que beneficiava diretamente a produção industrial inglesa.
Disputa comercial entre Inglaterra e França: a Inglaterra buscava reduzir o consumo de vinhos franceses e fortalecer aliados comerciais contrários à influência da França. Como Portugal era aliado político dos ingleses, seus vinhos passaram a ser favorecidos no mercado britânico. Dessa forma, o tratado teve também uma função estratégica dentro da rivalidade econômica e política entre ingleses e franceses.
Dependência portuguesa em relação ao ouro brasileiro: no começo do século XVIII, a mineração no Brasil ganhava grande importância para Portugal. O ouro extraído na colônia ajudava a sustentar os gastos da Coroa e permitia o pagamento das importações. O Tratado de Methuen contribuiu para intensificar essa dependência, pois parte do ouro brasileiro acabou sendo transferida indiretamente para a Inglaterra por meio da compra de tecidos e outros produtos manufaturados.
Contexto histórico
No início do século XVIII, o Tratado de Methuen foi assinado em 1703, em um contexto marcado pela rivalidade entre as potências europeias e pela Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714). Nesse período, a Inglaterra buscava ampliar sua influência comercial no continente europeu e fortalecer sua posição contra a França. Portugal, por sua vez, procurava garantir proteção política e militar diante das pressões internacionais, especialmente porque sua localização estratégica no Atlântico e suas relações com a Espanha tornavam o país vulnerável em meio às disputas entre as grandes monarquias europeias.
O acordo também deve ser entendido dentro da relação econômica entre Portugal, Inglaterra e Brasil colonial. Desde o século XVII, Portugal enfrentava dificuldades para competir industrialmente com outras regiões da Europa e dependia cada vez mais de sua aliança com os ingleses. Com o Tratado de Methuen, os vinhos portugueses passaram a ter vantagens no mercado inglês, enquanto os tecidos de lã ingleses entraram com privilégios em Portugal. Na prática, esse acordo reforçou a dependência portuguesa em relação à Inglaterra e contribuiu para que parte significativa do ouro extraído no Brasil, principalmente no século XVIII, fosse usada para pagar importações de produtos manufaturados ingleses.
Principais consequências do Tratado de Methuen:
• O tratado foi extremamente desfavorável à economia portuguesa, pois os ingleses puderam exportar para Portugal, e sua colônia na América (Brasil), grandes quantidades de produtos têxteis de alto valor, além de outros manufaturados. Embora os vinhos portugueses tenham entrado facilmente no mercado britânico, a diferença entre exportações e importações (balança comercial) foi amplamente favorável aos ingleses.
• A expressiva desigualdade financeira, resultante das relações comerciais (estabelecidas pelo tratado) entre Portugal e Inglaterra, aprofundou a crise econômica portuguesa.
• Favoreceu o processo de Revolução Industrial na Inglaterra, que estava em gestação, ampliando a produção têxtil deste país, assim como as exportações de manufaturados. Logo, o tratado foi amplamente favorável aos interesses econômicos britânicos.
• Aumento da dependência econômica de Portugal em relação à Inglaterra.
• Aumento da dívida externa de Portugal em relação à Inglaterra. Neste contexto, grande parte do ouro, que os portugueses retiraram do Brasil no século XVIII, foi parar na Inglaterra para cobrir estas dívidas.
• O acordo dificultou e prejudicou enormemente o desenvolvimento industrial português no século XVIII. Isto ocorreu, pois os tecidos ingleses eram produzidos com qualidade superior aos portugueses. Com as vantagens fiscais, os produtos têxteis ingleses acabaram dominando o mercado de Portugal, estagnando a indústria de manufaturados portugueses que estava em processo de gestação.
• Os produtos manufaturados ingleses chegaram também ao Brasil (que era colônia de Portugal) com preços elevados. Além de ter colaborado para a inviabilização do desenvolvimento industrial do Brasil, o Tratado de Methuen gerou dificuldades de acesso de grande parte da população brasileira (em função dos altos preços) aos produtos manufaturados, pois somente os mais ricos podiam comprar.
Conclusão
O Tratado de Methuen, assinado em 1703, representou mais do que um simples acordo comercial entre Portugal e Inglaterra. Ele expressou a posição frágil da economia portuguesa no início do século XVIII e a crescente força industrial e mercantil inglesa no cenário europeu. Ao favorecer a entrada de tecidos ingleses em Portugal e garantir vantagens aos vinhos portugueses no mercado britânico, o tratado consolidou uma relação desigual, na qual Portugal se manteve dependente das manufaturas inglesas, enquanto a Inglaterra ampliava seus mercados consumidores e fortalecia sua capacidade econômica.
Do ponto de vista histórico, o tratado também teve impactos significativos sobre o Brasil colonial. A riqueza gerada pela mineração, especialmente o ouro extraído em Minas Gerais durante o século XVIII, ajudou Portugal a pagar suas importações de produtos ingleses. Desse modo, parte importante das riquezas coloniais brasileiras acabou sendo transferida para a Inglaterra, contribuindo para o fortalecimento econômico britânico. Por isso, o Tratado de Methuen é frequentemente interpretado como um marco da dependência portuguesa em relação à Inglaterra e como um acordo que reforçou as desigualdades econômicas dentro do sistema colonial português.
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| Ilustração de época mostrando a assinatura do Tratado de Methuen - fonte: Livro História de Portugal, Popular e Ilustrada, por Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 02/05/2026
Bibliografia e vídeos indicados:
Fontes de referência:
https://en.wikipedia.org/wiki/Methuen_Treaty
VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil, São Paulo: Editora Scipione, 2005.
KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise Manzi Frayse. História Geral e do Brasil. São Paulo: Editora Atual, 1998.
AZEVEDO, J. Lúcio de. Épocas de Portugal Económico (2.ª ed.). Lisboa: 1947.
CORREIA, Francisco António. O Tratado de Methuen. Lisboa: 1929.
Vídeo indicado no YouTube:
O TRATADO DE METHUEN OU PANOS E VINHOS DE 1703 - Canal Parabólica

