Islamismo

 

O que é o Islamismo?


O Islamismo é uma religião monoteísta surgida no século VII na Península Arábica a partir das pregações de Maomé. Seus seguidores são chamados de muçulmanos, termo que pode ser entendido como aqueles que se submetem à vontade de Deus. A religião islâmica reconhece a existência de um único Deus, chamado Alá em árabe, e considera Maomé o último de uma longa sequência de profetas.

Ao longo dos séculos, o Islamismo ultrapassou os limites da Península Arábica e passou a exercer forte influência religiosa, política, social e cultural em diferentes regiões da África, da Ásia e da Europa. Atualmente, constitui uma das maiores religiões do mundo e apresenta significativa diversidade interna, tanto em suas interpretações religiosas quanto em suas práticas culturais.




Origem histórica


O Islamismo surgiu no início do século VII na cidade de Meca, importante centro comercial e religioso da Península Arábica. Segundo a tradição islâmica, em 610 d.C., Maomé teria recebido sua primeira revelação divina por intermédio do anjo Gabriel. Essas revelações continuaram ao longo dos anos e formariam posteriormente o conteúdo do Alcorão.

Maomé passou a pregar a existência de um único Deus e a criticar práticas religiosas politeístas existentes em Meca. Sua mensagem também apresentava princípios morais e sociais, como a solidariedade, a responsabilidade perante Deus e a atenção aos pobres e necessitados. A oposição de setores influentes da sociedade de Meca aumentou à medida que o número de seguidores de Maomé crescia.

Em 622 d.C., Maomé e seus seguidores deixaram Meca e se estabeleceram em Medina. Esse deslocamento ficou conhecido como Hégira e passou a marcar o início do calendário islâmico. Em Medina, Maomé tornou-se não apenas uma liderança religiosa, mas também política, exercendo papel central na organização da comunidade muçulmana.

Nos anos seguintes, os seguidores do Islamismo ampliaram sua influência na Península Arábica. Em 630 d.C., Maomé retornou a Meca e consolidou sua autoridade sobre a cidade. Quando morreu, em 632 d.C., grande parte da Arábia já se encontrava politicamente vinculada à comunidade islâmica.




Crenças fundamentais


As crenças islâmicas estão fundamentadas na submissão à vontade de Deus e na ideia de que a vida humana deve seguir princípios religiosos e morais estabelecidos pela revelação divina. A fé muçulmana envolve tanto convicções religiosas quanto práticas que orientam a vida cotidiana.

Monoteísmo

O Islamismo afirma a existência de um único Deus, Alá. A crença na unicidade divina constitui um dos princípios centrais da religião. Para os muçulmanos, Deus é o criador do universo, soberano sobre todas as coisas e responsável pelo julgamento dos seres humanos.

O termo Alá não representa uma divindade diferente do Deus das tradições judaica e cristã. Trata-se simplesmente da palavra árabe usada para designar Deus. O Islamismo considera que sua mensagem faz parte de uma tradição monoteísta mais ampla, associada também ao Judaísmo e ao Cristianismo.

Profetas

Segundo a tradição islâmica, Deus enviou diversos profetas ao longo da história para orientar a humanidade. Entre eles estão figuras também presentes nas tradições judaica e cristã, como Abraão, Moisés e Jesus.

Jesus é reconhecido pelo Islamismo como importante profeta e mensageiro de Deus, embora não seja considerado divino. Maomé ocupa uma posição especial por ser reconhecido como o último dos profetas, aquele por meio do qual teria sido transmitida a revelação definitiva.

Destino e julgamento

Os muçulmanos acreditam que os seres humanos são moralmente responsáveis por suas ações. A vida terrena é entendida como um período em que cada indivíduo deve procurar agir de acordo com os princípios estabelecidos por Deus.

A religião islâmica também ensina a existência de um julgamento final. Após a morte, cada pessoa seria julgada por Deus de acordo com sua fé e suas ações. Essa concepção reforça valores relacionados à justiça, à responsabilidade moral, à caridade e ao comportamento ético.




O Alcorão


O Alcorão é o livro sagrado do Islamismo. De acordo com a tradição muçulmana, seu conteúdo corresponde às revelações transmitidas por Deus a Maomé por intermédio do anjo Gabriel entre 610 e 632 d.C.

As revelações foram inicialmente transmitidas oralmente e registradas por seguidores de Maomé. Após sua morte, esses materiais foram reunidos e organizados, constituindo o texto que se tornou a principal referência religiosa do Islamismo.

Estrutura textual

O Alcorão é composto por 114 capítulos chamados suras. As suras possuem extensões diferentes e são divididas em versículos, conhecidos como ayat.

Seu conteúdo aborda temas relacionados à fé, à moral, à vida comunitária, à justiça, à família, à oração, à caridade e às relações humanas. Também apresenta narrativas envolvendo personagens e acontecimentos conhecidos de outras tradições monoteístas.

Função teológica

Para os muçulmanos, o Alcorão representa a palavra de Deus revelada a Maomé. Por essa razão, possui posição central na doutrina e na prática religiosa islâmica.

O texto serve como referência para a fé, para os comportamentos individuais e para determinados princípios jurídicos e sociais. Sua interpretação, entretanto, desenvolveu-se historicamente por meio de diferentes escolas religiosas, jurídicas e teológicas.



Práticas religiosas


Grande parte das práticas religiosas dos muçulmanos é tradicionalmente apresentada por meio dos Cinco Pilares do Islamismo. Eles representam deveres fundamentais da vida religiosa e procuram fortalecer a relação do fiel com Deus e com a comunidade.

Shahada

A Shahada é a profissão de fé islâmica. Por meio dela, o muçulmano declara sua crença em um único Deus e reconhece Maomé como seu mensageiro.

Essa declaração sintetiza dois princípios fundamentais da religião: o monoteísmo e o reconhecimento da missão profética de Maomé.

Salat

A Salat corresponde às orações rituais realizadas diariamente pelos muçulmanos. Tradicionalmente, são realizadas cinco vezes ao dia em horários determinados.

Durante as orações, os fiéis voltam-se em direção à Caaba, localizada na cidade de Meca. A prática envolve recitações, movimentos corporais e momentos de prostração, simbolizando devoção e submissão a Deus.

Zakat

A Zakat é uma contribuição destinada principalmente à assistência aos pobres e necessitados. Trata-se de uma prática religiosa associada à solidariedade e à responsabilidade social.

Seu princípio está relacionado à ideia de que parte da riqueza individual deve beneficiar a comunidade. Dessa forma, a caridade ocupa posição importante na ética islâmica.

Sawm

A Sawm corresponde ao jejum praticado durante o mês do Ramadã, período considerado sagrado pelos muçulmanos. Durante esse mês, os fiéis adultos que possuem condições de saúde devem se abster de alimentos e bebidas entre o amanhecer e o pôr do sol.

O jejum possui caráter religioso e disciplinar. Seu objetivo inclui fortalecer a espiritualidade, desenvolver o autocontrole e estimular a reflexão sobre as dificuldades enfrentadas pelos mais pobres.

Hajj

O Hajj é a peregrinação à cidade de Meca. Todo muçulmano adulto que tenha condições físicas e financeiras deve procurar realizá-la pelo menos uma vez na vida.

A peregrinação reúne fiéis de diferentes partes do mundo e inclui diversos rituais religiosos. Entre eles está a passagem pela Caaba, santuário localizado no interior da Grande Mesquita de Meca e considerado o principal local sagrado do Islamismo.



Divisões internas do Islamismo


Após a morte de Maomé, em 632 d.C., surgiu uma discussão sobre quem deveria assumir a liderança da comunidade muçulmana. Essa questão contribuiu para o aparecimento das duas principais vertentes históricas do Islamismo: o sunismo e o xiismo.

A divisão teve inicialmente forte dimensão política, mas, ao longo do tempo, também produziu diferenças religiosas, jurídicas e teológicas. Apesar dessas distinções, sunitas e xiitas compartilham elementos fundamentais da fé islâmica, como a crença em um único Deus, a importância do Alcorão e o reconhecimento de Maomé como profeta.

1. Sunitas

Os sunitas formaram historicamente o grupo majoritário entre os muçulmanos. Nos primeiros debates sucessórios, seus antecessores defenderam que a liderança da comunidade poderia ser atribuída a pessoas reconhecidas por sua capacidade e aceitação entre os seguidores de Maomé, sem necessidade de pertencimento direto à família do profeta.

O nome está relacionado à valorização da sunnah, conjunto de tradições associadas às palavras e aos exemplos atribuídos a Maomé. Ao longo da história, diferentes escolas jurídicas e teológicas desenvolveram-se no interior do sunismo.

2. Xiitas

Os xiitas defenderam que a liderança da comunidade deveria permanecer vinculada à família de Maomé. Para eles, Ali, primo e genro do profeta, possuía legitimidade especial para exercer essa função.

O xiismo desenvolveu posteriormente uma concepção religiosa específica sobre a autoridade dos imãs, considerados importantes lideranças espirituais. Existem diferentes correntes xiitas, que apresentam interpretações próprias sobre a sucessão desses líderes.




Organização social e cultural


O Islamismo não se limita às práticas realizadas dentro das mesquitas. Historicamente, suas normas religiosas exerceram influência sobre diferentes dimensões da vida social, como família, comércio, educação, justiça, assistência aos necessitados e relações comunitárias.

Essa influência assumiu formas variadas conforme o período histórico e a região. Por essa razão, não existe uma única cultura islâmica homogênea. Sociedades muçulmanas da África, do Oriente Médio, da Ásia Central, do Sudeste Asiático e de outras regiões desenvolveram costumes distintos, embora compartilhem referências religiosas semelhantes.




Direito islâmico


A sharia corresponde ao conjunto de princípios religiosos e jurídicos derivados das fontes islâmicas. Entre suas principais referências estão o Alcorão e a sunnah.

Sua aplicação e interpretação variaram amplamente ao longo da história. Diferentes escolas jurídicas elaboraram interpretações sobre questões familiares, comerciais, sociais e religiosas. Nos Estados contemporâneos de maioria muçulmana, a relação entre legislação civil e normas derivadas da sharia também apresenta grande diversidade.




Papel das mesquitas


As mesquitas são os principais espaços destinados às orações coletivas dos muçulmanos. Nelas são realizadas cerimônias religiosas, estudos do Alcorão e encontros comunitários.

Historicamente, muitas mesquitas também funcionaram como centros educacionais e culturais. Algumas deram origem a importantes instituições de ensino, contribuindo para a formação de estudiosos e para a transmissão de conhecimentos religiosos, científicos e filosóficos.




Expansão histórica


Depois da morte de Maomé, a expansão política dos primeiros Estados islâmicos ocorreu rapidamente. Durante os séculos VII e VIII, exércitos comandados pelos califas conquistaram extensos territórios anteriormente controlados pelos impérios Bizantino e Sassânida.

O domínio islâmico passou a abranger regiões do Oriente Médio, norte da África, Península Ibérica e partes da Ásia Central. Entretanto, a expansão territorial dos Estados muçulmanos não deve ser confundida com uma conversão religiosa imediata de todas as populações conquistadas. Em diversas regiões, comunidades cristãs, judaicas e de outras religiões permaneceram durante séculos.




Conquistas territoriais


Durante o governo dos primeiros califas e posteriormente das dinastias Omíada e Abássida, o poder político islâmico expandiu-se por uma vasta área. Damasco tornou-se a capital do Califado Omíada entre 661 e 750, enquanto Bagdá passou a desempenhar importante papel político e cultural durante o período Abássida, iniciado em 750.

Na Península Ibérica, forças muçulmanas iniciaram sua ocupação em 711. A região conhecida como Al-Andalus tornou-se um importante espaço político e cultural, embora seu território e suas fronteiras tenham sofrido diversas transformações ao longo dos séculos.




Convivência cultural


A expansão dos territórios islâmicos colocou diferentes povos, línguas, tradições religiosas e conhecimentos em contato. Cidades como Bagdá, Córdoba e Damasco transformaram-se em importantes centros de comércio, produção intelectual e intercâmbio cultural.

Estudiosos que atuavam em sociedades islâmicas contribuíram para áreas como Matemática, Astronomia, Medicina, Filosofia, Geografia e Literatura. Obras provenientes das tradições grega, persa e indiana foram traduzidas, estudadas e ampliadas, participando de um complexo processo de circulação de conhecimentos entre diferentes civilizações.



Importância histórica e cultural


O Islamismo exerceu papel fundamental na formação de diversos Estados e sociedades desde o século VII. Sua expansão contribuiu para integrar rotas comerciais que conectavam o Mediterrâneo, a África, o Oriente Médio, a Ásia Central, a Índia e outras regiões.

Sua influência também pode ser observada na arquitetura, na literatura, na ciência, na filosofia, no direito e na educação. A diversidade histórica das sociedades muçulmanas mostra que o Islamismo foi interpretado e vivenciado de maneiras distintas conforme os contextos políticos, culturais e geográficos.

Compreender o Islamismo exige, portanto, distinguir a religião das diferentes sociedades e governos que se desenvolveram em regiões de maioria muçulmana. Embora compartilhem princípios fundamentais, essas sociedades apresentam diferenças históricas, culturais e políticas significativas, resultado de mais de quatorze séculos de transformações e contatos entre povos diversos.

 

Infográfico sobre o Islamismo

Infográfico com o essencial sobre o Islamismo

 

 


 

RESUMO

 

Islamismo: Religião monoteísta fundada por Maomé no século VII na Península Arábica

• Origem histórica: surgiu em 610 d.C. quando Maomé afirmou ter recebido revelações do anjo Gabriel.
• Expansão inicial: difundiu-se rapidamente pela Arábia após 622 d.C., consolidando-se politicamente em Medina.


Crenças fundamentais: Baseia-se na submissão total a Alá

• Monoteísmo: afirma a existência de um único Deus, Alá.
• Profetas: reconhece vários profetas anteriores, como Abraão, Moisés e Jesus, sendo Maomé o último.
• Destino e julgamento: defende a responsabilidade moral e o julgamento final após a morte.


O Alcorão: Livro sagrado que reúne as revelações feitas a Maomé

• Estrutura textual: organizado em suras, divididas em versículos com conteúdo religioso e ético.
• Função teológica: considerado a palavra literal de Deus e base normativa da fé islâmica.


Práticas religiosas: Expressas nos Cinco Pilares do Islamismo

• Shahada: profissão de fé que afirma a unicidade de Deus e Maomé como seu mensageiro.
• Salat: ritual de orações diárias realizadas em direção a Meca.
• Zakat: contribuição financeira destinada aos necessitados.
• Sawm: jejum realizado no mês do Ramadã como disciplina espiritual.
• Hajj: peregrinação a Meca, obrigatória para quem possui condições físicas e financeiras.


Divisões internas: Surgiram após a morte de Maomé em 632 d.C.

• Sunitas: defendem que o líder religioso deveria ser eleito pela comunidade.
• Xiitas: acreditam que a liderança deveria permanecer na família de Maomé, especialmente em Ali.


Organização social e cultural: Influencia profundamente a vida cotidiana dos fiéis

• Direito islâmico: baseado na sharia, que regula aspectos civis, morais e sociais.
• Papel das mesquitas: funcionam como centros religiosos, educacionais e comunitários.


Expansão histórica: Consolidou-se como uma das grandes religiões do mundo

• Conquistas territoriais: difundiu-se pela Ásia, norte da África e parte da Europa entre os séculos VII e VIII.
• Convivência cultural: promoveu intercâmbios científicos e artísticos em regiões como Bagdá, Córdoba e Damasco.

 



Artigo publicado em 05/09/2018 e atualizado em 11/08/2026

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).