MPB - Música Popular Brasileira


O que é



MPB é a sigla de Música Popular Brasileira, denominação que passou a ser utilizada principalmente a partir da década de 1960 para identificar uma vertente da música brasileira surgida no contexto posterior à Bossa Nova. Embora a expressão possa parecer abranger toda a música popular produzida no país, historicamente ela adquiriu um significado mais específico, relacionado a artistas e compositores que combinaram elementos de gêneros brasileiros, como samba, baião, choro, frevo e música caipira, com influências da Bossa Nova, do jazz, do rock e de outras tendências internacionais.

Uma das marcas da MPB é a importância atribuída à composição e às letras. Temas políticos, sociais, amorosos, existenciais e culturais aparecem com frequência em seu repertório. Ao longo de sua história, porém, a MPB passou por profundas transformações, incorporando novos instrumentos, recursos eletrônicos, ritmos regionais e influências estrangeiras.

Mais do que um gênero musical com características rígidas, a MPB pode ser entendida como um amplo campo da música brasileira. Por esse motivo, artistas bastante diferentes entre si, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Bethânia e Djavan, costumam ser associados a ela.



Origem



O surgimento da MPB ocorreu em meados da década de 1960 e esteve diretamente ligado às transformações vividas pela música brasileira naquele período. A Bossa Nova, desenvolvida no final dos anos 1950, havia renovado o samba ao incorporar harmonias sofisticadas, novas formas de interpretação e forte influência do jazz. Entre seus principais representantes estavam João Gilberto, Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes.

No início da década seguinte, parte dos músicos brasileiros passou a procurar novas formas de expressão. Alguns artistas consideravam necessário aproximar a música de questões sociais e políticas do país, ao mesmo tempo que buscavam preservar e renovar elementos da cultura musical brasileira. Esse processo ganhou força especialmente entre estudantes universitários, compositores, intérpretes e participantes dos movimentos culturais urbanos.

O golpe civil-militar de 1964 e a implantação da ditadura militar (1964-1985) também influenciaram profundamente esse ambiente artístico. A repressão política, a censura e os conflitos sociais levaram muitos compositores a produzir músicas de crítica, protesto ou reflexão sobre a realidade brasileira.

Um momento simbólico ocorreu em 1965, quando Elis Regina interpretou "Arrastão", composta por Edu Lobo e Vinicius de Moraes, no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior. A vitória da canção contribuiu para consolidar uma nova geração de compositores e intérpretes. A partir dessa época, a expressão Música Popular Brasileira, posteriormente abreviada como MPB, tornou-se cada vez mais utilizada.

Os festivais televisivos realizados durante a segunda metade da década de 1960 tiveram importância decisiva. Transmitidos para milhões de espectadores, revelaram ou consolidaram nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Milton Nascimento e Elis Regina. As apresentações frequentemente despertavam intensos debates e manifestações do público.



Formação e festivais da canção, de 1965 a 1968



A primeira fase corresponde ao período de formação e consolidação da MPB. A televisão tornou-se o principal meio de divulgação dos novos artistas, especialmente por meio dos festivais promovidos por emissoras como Record, Excelsior e Globo.

As composições dessa época apresentavam forte presença de elementos do samba, da Bossa Nova e de ritmos regionais. Parte dos músicos defendia uma produção musical identificada com temas nacionais e sociais. As chamadas canções de protesto ganharam destaque diante do avanço da ditadura militar.

Chico Buarque tornou-se um dos principais compositores do período com músicas caracterizadas pela qualidade poética e pela observação da sociedade brasileira. Geraldo Vandré destacou-se por canções politicamente engajadas, enquanto Edu Lobo combinou elementos da música nordestina com harmonias associadas à Bossa Nova.

Entre as músicas representativas dessa fase estão "Arrastão", de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, interpretada por Elis Regina; "A Banda", de Chico Buarque; "Disparada", de Geraldo Vandré e Théo de Barros, interpretada por Jair Rodrigues; "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam; e "Pra não Dizer que não Falei das Flores", de Geraldo Vandré.



O Tropicalismo e renovação estética, de 1967 a 1968



Dentro do próprio processo de formação da MPB surgiu um movimento que provocou intensas discussões sobre os caminhos da música brasileira: o Tropicalismo ou Tropicália. Liderados principalmente por Caetano Veloso e Gilberto Gil, os tropicalistas defendiam a combinação de elementos nacionais com influências internacionais.

Guitarras elétricas, rock, psicodelia, música experimental, samba, ritmos nordestinos e referências à cultura de massa passaram a aparecer lado a lado. Essa proposta contrariava setores que defendiam uma música brasileira menos influenciada pelo rock estrangeiro.

O movimento também contou com artistas como Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto e Rogério Duprat. Em 1968, o álbum coletivo "Tropicália ou Panis et Circencis" tornou-se uma das obras mais representativas dessa experiência artística.

Entre as canções mais importantes encontram-se "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso; "Domingo no Parque", de Gilberto Gil; "Tropicália", de Caetano Veloso; "Panis et Circencis", de Gilberto Gil e Caetano Veloso; e "Baby", de Caetano Veloso.



Repressão, censura e exílio, de 1969 a 1974



A publicação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, marcou o endurecimento da ditadura militar. A censura sobre jornais, peças teatrais, filmes e músicas tornou-se mais intensa, atingindo diretamente os compositores da MPB.

Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos no final de 1968 e posteriormente partiram para o exílio em Londres, onde permaneceram até 1972. Chico Buarque passou uma temporada na Itália e teve numerosas composições censuradas. Em determinados momentos, chegou a utilizar o pseudônimo Julinho da Adelaide para contornar a censura.

Diante da repressão, muitos compositores desenvolveram letras metafóricas e ambíguas. O uso de figuras de linguagem permitia tratar de liberdade, autoritarismo e problemas sociais sem apresentar necessariamente uma crítica política explícita.

Paralelamente, surgiram experiências musicais inovadoras. Em Minas Gerais, artistas ligados ao chamado Clube da Esquina, como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Fernando Brant, combinaram ritmos brasileiros, rock, jazz, música latino-americana e harmonias sofisticadas.

Entre as músicas representativas encontram-se "Apesar de Você", de Chico Buarque; "Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil, composta em 1973 e posteriormente gravada; "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, posteriormente consagrada na interpretação de Elis Regina; "Nada Será Como Antes", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos; e "Cais", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

O álbum "Clube da Esquina", lançado em 1972 por Milton Nascimento e Lô Borges, tornou-se uma referência fundamental desse período.



Expansão e pluralidade musical, de 1975 a 1984



Na segunda metade da década de 1970, a MPB alcançou grande prestígio artístico e comercial. Mesmo com a continuidade da ditadura, o processo de abertura política iniciado durante o governo de Ernesto Geisel permitiu uma ampliação gradual dos espaços de expressão cultural, embora a censura permanecesse atuante.

Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia consolidaram suas carreiras. Ao mesmo tempo, ganharam projeção compositores e intérpretes como Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Gonzaguinha, Fagner, Belchior e Simone.

A música produzida nesse período apresentou grande variedade temática. Críticas sociais continuaram presentes, mas ganharam espaço composições sobre relacionamentos, cotidiano urbano, identidade individual e questões existenciais.

O final da década de 1970 também foi marcado pelas expectativas em torno da redemocratização. Nesse contexto, algumas canções passaram a ser associadas ao desejo de liberdade política e ao retorno dos exilados.

Podem ser destacadas "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, interpretada por Elis Regina; "Como Nossos Pais", de Belchior, consagrada na voz de Elis Regina; "Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil; "Sangrando", de Gonzaguinha; "Flor de Lis", de Djavan; "Samurai", de Djavan; e "Começar de Novo", de Ivan Lins e Vitor Martins, interpretada por Simone.



Redemocratização e concorrência com novos gêneros, de 1985 a 1989



O fim da ditadura militar em 1985 modificou o ambiente político e cultural brasileiro. A crítica ao autoritarismo deixou de ocupar o mesmo espaço que havia adquirido nas décadas anteriores, enquanto novos temas relacionados à vida urbana, aos sentimentos, às relações pessoais e às transformações sociais tornaram-se frequentes.

Nesse período, a MPB passou a disputar espaço com o rock brasileiro, que alcançou enorme popularidade por meio de grupos como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Capital Inicial. O sertanejo e outros gêneros também ampliaram sua presença no mercado fonográfico.

Os artistas já consagrados continuaram produzindo obras de grande repercussão. Novos músicos também estabeleceram diálogos entre a tradição da MPB, o pop, o jazz e os ritmos regionais.

Entre as músicas conhecidas do período estão "Meu Erro", dos Paralamas do Sucesso, situada principalmente no campo do rock brasileiro, mas representativa do novo ambiente musical; "Oceano", de Djavan; "Codinome Beija-Flor", de Cazuza, igualmente associado ao rock e à música popular brasileira; "Faz Parte do Meu Show", de Cazuza; e "Todo Azul do Mar", de Flávio Venturini e Ronaldo Bastos.



Renovação e aproximação com novos estilos, década de 1990



Durante a década de 1990, tornou-se cada vez mais difícil estabelecer fronteiras rígidas para a MPB. A indústria fonográfica brasileira passou por mudanças significativas, enquanto gêneros como sertanejo, pagode, axé e música eletrônica alcançaram grande espaço comercial.

Novos artistas surgiram estabelecendo relações com a tradição da música popular brasileira. Marisa Monte destacou-se combinando samba, pop e elementos experimentais. Adriana Calcanhotto desenvolveu uma produção marcada pelo cuidado com as letras e por arranjos variados. Zeca Baleiro, Lenine e Chico César também ganharam projeção com trabalhos que reuniam referências regionais e contemporâneas.

A geração anterior permaneceu ativa. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque, Djavan e outros músicos continuaram lançando discos e realizando turnês, promovendo encontros entre diferentes gerações.

Algumas músicas representativas são "Beija Eu", de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay; "Esquadros", de Adriana Calcanhotto; "À Primeira Vista", de Chico César; "Paciência", de Lenine e Dudu Falcão; e "Telegrama", de Zeca Baleiro, lançada já no início da década seguinte.



A MPB no século XXI



A partir dos anos 2000, a MPB passou a conviver com profundas mudanças na produção e na distribuição musical. A expansão da internet, dos arquivos digitais e posteriormente das plataformas de streaming reduziu a dependência dos artistas em relação às grandes gravadoras e criou novos caminhos para a divulgação de músicas.

Nesse contexto, novos intérpretes e compositores passaram a dialogar com samba, rock, música eletrônica, rap, soul, funk, jazz e ritmos regionais. Nomes como Céu, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Criolo, Silva, Tiago Iorc, Liniker e outros artistas contemporâneos estabeleceram relações variadas com a tradição da MPB, embora nem todos possam ser classificados exclusivamente dentro dela.

Também se tornou comum a recuperação de obras das décadas anteriores. Novas gerações passaram a reinterpretar composições de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Elis Regina e outros músicos que ajudaram a formar o repertório histórico da música brasileira.

Entre canções frequentemente relacionadas à renovação da música popular brasileira no século XXI encontram-se "Não Existe Amor em SP", de Criolo; "Pra Sonhar", de Marcelo Jeneci; "Malemolência", de Céu; "Efêmera", de Tulipa Ruiz; e "Zero", interpretada por Liniker e os Caramelows.



Características históricas da MPB



Ao longo de sua trajetória, a MPB nunca apresentou uma única forma musical. Sua principal característica histórica foi justamente a capacidade de incorporar diferentes tradições e influências. Samba, Bossa Nova, baião, frevo, maracatu, choro, jazz, rock, música latino-americana, soul e música eletrônica apareceram, em diferentes momentos, nas obras de artistas associados à MPB.

Outro aspecto importante foi a valorização das letras. Muitos compositores utilizaram a canção como forma de narrar experiências pessoais, discutir problemas sociais, comentar acontecimentos políticos ou refletir sobre aspectos da cultura brasileira.

A relação entre tradição e inovação também esteve presente desde os anos 1960. Enquanto alguns artistas procuraram recuperar elementos da música tradicional brasileira, outros incorporaram instrumentos elétricos e referências estrangeiras. Em muitos casos, essas duas tendências apareceram simultaneamente.



Importância histórica e cultural


A história da MPB está diretamente relacionada às transformações políticas, sociais e culturais ocorridas no Brasil desde a década de 1960. Durante a ditadura militar, determinadas canções transformaram-se em importantes meios de crítica ao autoritarismo e de defesa da liberdade. Em outros momentos, a MPB registrou mudanças de comportamento, novas formas de relacionamento e experiências da vida cotidiana brasileira.

Sua importância também pode ser observada na projeção internacional alcançada por músicos brasileiros. Artistas como Antônio Carlos Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Djavan contribuíram para ampliar o conhecimento da música brasileira em diferentes países.

Nos dias de hoje, a expressão MPB possui limites menos definidos do que nas décadas de 1960 e 1970. Isso ocorre porque a produção musical brasileira tornou-se cada vez mais marcada pelo encontro entre gêneros e pela circulação de referências culturais. Mesmo assim, a MPB permanece como uma das principais tradições da música brasileira contemporânea e como um importante registro das transformações vividas pela sociedade brasileira nas últimas décadas.

 

Tom Jobim e Chico Buaque

Tom Jobim e Chico Buarque no auge da MPB (foto de 1968, Arquivo Nacional).

 

 

Curiosidades sobre a MPB:


• A sigla MPB começou a se popularizar na década de 1960, especialmente com os festivais de música transmitidos pela televisão, que ajudaram a revelar e consolidar diversos compositores e intérpretes.



• Elis Regina teve papel fundamental na divulgação da MPB. Sua interpretação de "Arrastão", em 1965, é frequentemente apontada como um dos momentos marcantes da consolidação desse novo cenário musical brasileiro.



• Durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), várias músicas da MPB foram censuradas. Para escapar da repressão, alguns compositores recorreram a metáforas, ambiguidades e jogos de palavras em suas letras.



• Chico Buarque chegou a utilizar o pseudônimo Julinho da Adelaide para apresentar composições à censura sem que fossem imediatamente associadas ao seu nome, já bastante visado pelos órgãos repressivos.



• O Tropicalismo provocou forte polêmica dentro da própria música brasileira ao incorporar guitarras elétricas, rock e elementos da cultura pop internacional. Caetano Veloso e Gilberto Gil estiveram entre seus principais representantes.



• O álbum "Clube da Esquina", lançado em 1972 por Milton Nascimento e Lô Borges, tornou-se uma das obras mais influentes da música brasileira, reunindo elementos de MPB, rock, jazz, música latino-americana e tradições musicais de Minas Gerais.

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).

Atualizado em 24/08/2026