Religião na Inglaterra
Introdução
A religião exerceu papel fundamental na formação histórica, política e cultural da Inglaterra. Durante séculos, questões religiosas estiveram diretamente relacionadas ao poder da monarquia, às disputas políticas, às guerras civis, à educação e aos costumes da sociedade inglesa. O cristianismo foi a religião predominante desde a Antiguidade Tardia e, especialmente, após a conversão dos povos anglo-saxões iniciada no final do século VI.
Uma característica particular da história inglesa foi a formação, no século XVI, da Igreja da Inglaterra, também conhecida como Igreja Anglicana. Surgida durante a Reforma Protestante, ela rompeu a autoridade religiosa do papa sobre o reino inglês e passou a manter uma estreita ligação institucional com a monarquia.
Na Inglaterra contemporânea, entretanto, o cenário religioso mudou significativamente. O cristianismo continua exercendo influência cultural e institucional, mas aumentou o número de pessoas que não possuem religião. Paralelamente, comunidades muçulmanas, hindus, sikhs, judaicas, budistas e de outras tradições religiosas fazem parte da sociedade inglesa atual.
História
Religiões anteriores ao cristianismo
Antes da expansão do cristianismo, diferentes crenças eram praticadas pelos povos que habitavam o território correspondente à atual Inglaterra. Entre os antigos povos celtas predominavam religiões politeístas associadas à natureza, às forças naturais e a diferentes divindades. Os druidas exerciam importantes funções religiosas e sociais em algumas comunidades célticas.
A conquista romana da Britânia, iniciada em 43 d.C., favoreceu a introdução de cultos religiosos provenientes de diferentes partes do Império Romano. Divindades romanas passaram a conviver com crenças locais. Posteriormente, o cristianismo também chegou à Britânia romana, sobretudo entre os séculos III e IV.
Com o enfraquecimento do domínio romano no início do século V e a chegada de anglos, saxões e jutos, religiões germânicas politeístas ganharam espaço em grande parte do território inglês. Esses povos cultuavam diferentes divindades e mantinham tradições religiosas relacionadas às sociedades germânicas do norte da Europa.
Cristianização da Inglaterra
Um momento decisivo ocorreu em 597, quando o papa Gregório I enviou uma missão religiosa chefiada pelo monge Agostinho de Cantuária para promover a conversão dos anglo-saxões ao cristianismo. Agostinho estabeleceu sua missão no Reino de Kent e posteriormente tornou-se o primeiro arcebispo de Cantuária.
A cristianização ocorreu gradualmente durante os séculos VII e VIII. Reis anglo-saxões converteram-se ao cristianismo e contribuíram para a fundação de igrejas, mosteiros e centros de estudos religiosos. Os mosteiros adquiriram grande importância cultural, pois preservavam manuscritos, formavam religiosos e funcionavam como centros de produção intelectual.
Durante a Idade Média, a Igreja Católica exerceu enorme influência na Inglaterra. Bispos e abades possuíam terras e participavam da política do reino. Mosteiros controlavam propriedades agrícolas, prestavam assistência aos pobres e contribuíam para a educação.
A Inglaterra católica medieval
Entre os séculos XI e XV, a sociedade inglesa esteve profundamente ligada ao cristianismo católico. Igrejas e catedrais eram importantes centros da vida comunitária, enquanto festas religiosas organizavam parte do calendário anual.
A relação entre a monarquia inglesa e o papado, contudo, nem sempre foi tranquila. Um dos conflitos mais conhecidos envolveu o rei Henrique II e Thomas Becket, arcebispo de Cantuária. Becket foi assassinado em 1170 após entrar em conflito com o monarca sobre os limites da autoridade real em assuntos relacionados à Igreja.
Ao longo da Baixa Idade Média também apareceram movimentos que questionavam determinados aspectos da Igreja. No século XIV, o teólogo inglês John Wycliffe criticou a riqueza do clero e defendeu maior acesso dos cristãos às Escrituras. Seus seguidores ficaram conhecidos como lolardos. Algumas de suas ideias anteciparam críticas que posteriormente apareceriam durante a Reforma Protestante.
A Reforma Inglesa
A transformação religiosa mais importante da história inglesa ocorreu durante o reinado de Henrique VIII, entre 1509 e 1547.
Inicialmente, Henrique VIII permaneceu fiel ao catolicismo e chegou a combater intelectualmente algumas ideias de Martinho Lutero. Entretanto, seu conflito com o papa Clemente VII em torno da anulação de seu casamento com Catarina de Aragão acabou produzindo uma ruptura política e religiosa.
Em 1534, o Parlamento aprovou o Ato de Supremacia, pelo qual o rei passou a ser reconhecido como autoridade máxima da Igreja na Inglaterra. Dessa maneira, rompeu-se oficialmente a submissão da Igreja inglesa ao papa.
A Reforma Inglesa não ocorreu apenas por questões matrimoniais. O fortalecimento do poder monárquico, os interesses econômicos relacionados às propriedades eclesiásticas e a circulação das ideias reformistas pela Europa também contribuíram para o processo.
Entre 1536 e 1540, ocorreu a dissolução dos mosteiros. Centenas de instituições religiosas foram fechadas e grande parte de suas terras e riquezas foi confiscada pela Coroa, sendo posteriormente transferida ou vendida para membros da nobreza e outros proprietários.
Formação do anglicanismo
As características religiosas da Igreja da Inglaterra foram sendo definidas progressivamente ao longo do século XVI. Durante o reinado de Eduardo VI, entre 1547 e 1553, reformas de orientação protestante foram aprofundadas.
A situação voltou a mudar durante o governo de Maria I, de 1553 a 1558. Católica, a rainha restabeleceu temporariamente a autoridade do papa e promoveu perseguições contra determinados protestantes.
Com a ascensão de Elizabeth I, em 1558, ocorreu uma nova consolidação da Igreja da Inglaterra. O Ato de Supremacia de 1559 reafirmou a independência religiosa inglesa em relação a Roma.
O chamado Acordo Religioso Elisabetano organizou uma Igreja nacional que possuía elementos provenientes da tradição católica e da Reforma Protestante. A monarquia manteve-se vinculada à Igreja da Inglaterra, relação institucional que permanece até os dias atuais.
Conflitos religiosos dos séculos XVI e XVII
A Reforma não eliminou os conflitos religiosos. Católicos ingleses enfrentaram diversas restrições, principalmente porque eram frequentemente associados pelas autoridades a potências católicas estrangeiras.
Também existiam grupos protestantes que consideravam insuficientes as reformas realizadas pela Igreja Anglicana. Entre eles estavam os puritanos, que defendiam uma transformação mais profunda da Igreja inglesa e a eliminação de práticas consideradas próximas do catolicismo.
No século XVII, disputas políticas e religiosas contribuíram para a Revolução Inglesa. Durante a Guerra Civil Inglesa, ocorrida principalmente entre 1642 e 1649, questões relacionadas ao governo da Igreja, ao poder real e às diferentes correntes protestantes estiveram ligadas aos conflitos entre o rei Carlos I e seus adversários parlamentares.
Após a restauração da monarquia em 1660, a Igreja da Inglaterra voltou a ocupar sua posição privilegiada. Outras comunidades protestantes continuaram existindo, embora durante determinado período enfrentassem limitações legais.
Tolerância religiosa
A tolerância religiosa desenvolveu-se gradualmente. O Ato de Tolerância de 1689 concedeu maior liberdade de culto a vários grupos protestantes não anglicanos, embora não tenha estabelecido plena igualdade religiosa.
Durante os séculos XVIII e XIX, diferentes denominações protestantes cresceram no país. Metodistas, batistas, quakers, congregacionalistas e outros grupos constituíram importantes comunidades religiosas.
O metodismo teve particular relevância. Desenvolvido a partir da atuação de John Wesley e Charles Wesley no século XVIII, o movimento defendia intensa experiência religiosa pessoal, estudo bíblico, pregação e disciplina moral. Posteriormente, organizou-se como denominação independente da Igreja Anglicana.
Os direitos civis dos católicos também foram ampliados progressivamente. Uma mudança importante ocorreu com a Lei de Emancipação Católica de 1829, que eliminou várias restrições políticas aplicadas aos católicos no Reino Unido.
Religião entre os séculos XIX e XX
Durante a Era Vitoriana, entre 1837 e 1901, o cristianismo continuou exercendo forte influência na sociedade inglesa. Igrejas protestantes participaram de obras assistenciais, campanhas sociais, educação e atividades missionárias.
Ao mesmo tempo, transformações científicas, filosóficas e sociais contribuíram para novos debates sobre religião. A industrialização, a urbanização, o desenvolvimento das ciências naturais e a circulação de ideias secularistas modificaram gradualmente a relação de parte da sociedade com as instituições religiosas.
No século XX, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu uma redução progressiva da participação regular em muitas igrejas cristãs. A secularização passou a caracterizar parcela crescente da sociedade.
Outro fenômeno importante foi a chegada de imigrantes provenientes de antigas colônias britânicas e de outras regiões do mundo. A partir da segunda metade do século XX, comunidades originárias do sul da Ásia, Caribe, África e Oriente Médio contribuíram para ampliar a pluralidade religiosa inglesa.
Religião na Inglaterra atual
A Igreja da Inglaterra
A Igreja da Inglaterra continua sendo a igreja oficialmente estabelecida no país. O monarca britânico ocupa a posição de Governador Supremo da Igreja da Inglaterra, enquanto o arcebispo de Cantuária é sua principal autoridade religiosa.
Essa ligação entre Igreja e Estado aparece também no Parlamento. Determinados bispos da Igreja da Inglaterra possuem assentos na Câmara dos Lordes e participam de debates legislativos.
Apesar desse papel institucional, a Inglaterra contemporânea apresenta elevada liberdade religiosa. Os cidadãos podem seguir diferentes religiões, mudar de religião ou não professar nenhuma crença.
Cristianismo
O cristianismo permanece como a maior tradição religiosa declarada na Inglaterra, embora tenha perdido espaço proporcional nas últimas décadas. Segundo o Censo de 2021, 46,3% da população da Inglaterra declarou-se cristã.
O cristianismo inglês não se limita ao anglicanismo. Existem comunidades católicas, metodistas, batistas, presbiterianas, pentecostais, ortodoxas e de várias outras denominações.
A Igreja Católica possui presença significativa no país, enquanto igrejas evangélicas e pentecostais também formam comunidades importantes, particularmente em alguns centros urbanos.
Pessoas sem religião
Uma das principais transformações religiosas da Inglaterra contemporânea é o crescimento da parcela da população que declara não possuir religião.
No Censo de 2021, mais de um terço dos habitantes da Inglaterra declarou não ter religião. Esse fenômeno está associado ao processo de secularização observado ao longo das últimas décadas.
Declarar-se sem religião, contudo, não significa necessariamente ser ateu. Essa categoria pode reunir ateus, agnósticos e pessoas que possuem determinadas crenças espirituais, mas não se identificam formalmente com uma religião organizada.
Islamismo
O islamismo constitui a segunda maior religião organizada da Inglaterra depois do cristianismo. Sua presença tornou-se particularmente significativa após as migrações ocorridas durante a segunda metade do século XX.
Grande parte das comunidades muçulmanas inglesas possui vínculos históricos familiares com regiões como Paquistão, Bangladesh e Índia, embora atualmente os muçulmanos ingleses apresentem origens sociais e culturais muito variadas.
Mesquitas, escolas religiosas, centros culturais e organizações islâmicas estão presentes em diversas cidades, especialmente em grandes áreas urbanas como Londres, Birmingham, Manchester, Bradford e Leicester.
Hinduísmo
O hinduísmo também possui presença expressiva na sociedade inglesa contemporânea. Seu crescimento está relacionado principalmente às comunidades originárias da Índia e de outros territórios ligados historicamente às migrações provenientes do sul da Ásia.
Diversos templos hindus foram construídos no país. Festividades como o Diwali são celebradas por numerosas comunidades e ganharam visibilidade no calendário cultural de várias cidades inglesas.
Sikhismo
O sikhismo encontra-se fortemente relacionado às comunidades de origem punjabi estabelecidas no país. Os sikhs mantêm templos conhecidos como gurdwaras, que exercem funções religiosas e comunitárias.
A presença sikh tornou-se particularmente importante em determinadas regiões urbanas inglesas. Práticas comunitárias, como a distribuição gratuita de refeições nos gurdwaras, também contribuíram para a visibilidade social dessa religião.
Judaísmo
A presença judaica na Inglaterra possui uma longa história. Comunidades judaicas estabeleceram-se no país durante a Idade Média, mas foram expulsas pelo rei Eduardo I em 1290. A presença judaica voltou a ser oficialmente tolerada durante o governo de Oliver Cromwell, no século XVII.
Atualmente existem importantes comunidades judaicas, principalmente em Londres e outras grandes cidades. Diferentes correntes do judaísmo estão representadas no país.
Budismo e outras religiões
O budismo também está presente na Inglaterra, tanto por meio de comunidades provenientes de países asiáticos quanto entre ingleses convertidos à religião.
Outras tradições religiosas incluem o jainismo, a Fé Bahá'í, religiões neopagãs e diferentes formas de espiritualidade contemporânea. Essa variedade reflete as transformações culturais e migratórias ocorridas principalmente desde a segunda metade do século XX.
Liberdade religiosa e sociedade
A Inglaterra atual combina duas características aparentemente distintas. De um lado, mantém uma Igreja estabelecida historicamente ligada à monarquia e ao Estado. De outro, apresenta ampla liberdade de crença e uma sociedade cada vez mais secular e religiosamente plural.
O cristianismo continua deixando marcas profundas na arquitetura, nas festas tradicionais, nos costumes, na educação e nas instituições políticas inglesas. Natal e Páscoa, por exemplo, permanecem importantes referências do calendário nacional, mesmo para muitas pessoas que não praticam uma religião.
Ao mesmo tempo, o crescimento das populações sem religião e a presença de diferentes comunidades religiosas demonstram que a realidade inglesa contemporânea é consideravelmente diferente daquela existente nos séculos anteriores. Assim, a história religiosa da Inglaterra pode ser compreendida como um processo que passou do predomínio do cristianismo medieval e dos conflitos da Reforma para uma sociedade moderna caracterizada pela secularização, pela liberdade religiosa e pela coexistência de diferentes crenças.
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| Catedral de Cantuária: um dos principais templos anglicanos da Inglaterra. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 27/08/2026
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Bibliografia e vídeos indicados:
Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Christianity_in_Great_Britain

