Questões sobre a resistência dos escravizados
1. Qual alternativa apresenta diferentes formas de resistência dos escravizados no Brasil?
a) A distribuição de alimentos pelos proprietários e a organização de alojamentos, usadas para administrar a força de trabalho.
b) O recrutamento de capitães do mato e a vigilância das estradas, destinados a controlar a circulação de trabalhadores.
c) As fugas, a organização de revoltas e a defesa de práticas culturais, que enfrentavam diferentes dimensões do domínio senhorial.
d) A compra de trabalhadores e a ampliação das lavouras, empregadas para aumentar os rendimentos das propriedades rurais.
e) O registro de pessoas em inventários e a cobrança de impostos, que regulamentavam a propriedade e o comércio de cativos.
2. No contexto da escravidão no Brasil, a formação de quilombos representava uma forma de resistência porque:
a) possibilitava a construção de comunidades e meios de sobrevivência por fugitivos, criando espaços de autonomia diante do cativeiro.
b) organizava colônias agrícolas administradas pelos senhores, nas quais os trabalhadores cumpriam tarefas longe da propriedade principal.
c) estabelecia postos de fiscalização nas matas, destinados a identificar pessoas que circulavam sem autorização dos proprietários.
d) reunia trabalhadores em alojamentos ligados aos engenhos, facilitando o controle dos deslocamentos entre moradia e lavoura.
e) oferecia locais de treinamento para as tropas coloniais, que recebiam fugitivos interessados em participar da captura de outros cativos.
3. O jongo reuniu cantos, dança e referências de povos africanos de língua banto entre comunidades escravizadas do Sudeste. Como práticas culturais desse tipo podiam contribuir para a resistência ao cativeiro?
a) Ao aproximar os participantes dos costumes senhoriais, facilitava a substituição de suas referências anteriores pelas da propriedade.
b) Por meio da continuidade dos rituais, estabelecia um reconhecimento legal de liberdade para quem participava das celebrações.
c) Na organização de festas, transferia aos proprietários a responsabilidade de escolher os símbolos e as memórias do grupo.
d) Com a valorização dos antepassados, restaurava as mesmas instituições políticas africanas no interior das fazendas brasileiras.
e) Ao fortalecer vínculos e referências compartilhadas, ajudava a enfrentar a desumanização e a sustentar identidades e solidariedades.
4. Algumas fugas terminavam com o retorno do escravizado à propriedade, após um período de afastamento. Para compreender esses casos, é adequado considerar que:
a) o retorno indica que o afastamento integrava um descanso autorizado, cujo prazo era definido previamente pelo proprietário.
b) a ausência temporária podia servir para escapar de castigos e pressionar por mudanças, mesmo sem romper definitivamente com o cativeiro.
c) a decisão de voltar demonstra que o fugitivo havia recebido alforria e pretendia estabelecer uma relação de trabalho remunerado.
d) o deslocamento correspondia a uma obrigação de trabalhadores de ganho, encarregados de entregar rendimentos em outra localidade.
e) a curta duração permite classificar a fuga como transferência de propriedade, realizada por acordo entre dois senhores.
5. O que a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, permite compreender sobre a resistência dos escravizados?
a) A reivindicação de autonomia rural mobilizou comunidades quilombolas que pretendiam negociar a demarcação de suas terras.
b) O comando de proprietários descontentes reuniu trabalhadores cativos para disputar o controle comercial do porto baiano.
c) A atuação de associações católicas organizou uma campanha parlamentar para substituir o trabalho escravizado pelo assalariado.
d) O protagonismo de africanos muçulmanos, escravizados e libertos, articulou vínculos religiosos e sociais em uma insurreição urbana.
e) A liderança de autoridades provinciais promoveu uma mobilização militar para reconhecer a liberdade de trabalhadores de ganho.
6. Um grupo de escravizados contesta a retirada do tempo destinado ao cultivo de suas próprias roças e exige sua manutenção. Nessa situação hipotética, inspirada em conflitos do Brasil escravista, a negociação cotidiana pode ser interpretada como:
a) contratação de serviços agrícolas, pois o cultivo de roças próprias transformava os participantes em trabalhadores juridicamente livres.
b) expressão de dependência voluntária, uma vez que a reivindicação de tempo para si substituía a coerção por um vínculo de cooperação.
c) disputa por margens de autonomia, na qual os trabalhadores defendiam costumes e recursos que limitavam o controle sobre sua vida.
d) delegação do poder de mando, já que a existência de roças próprias colocava os trabalhadores na administração geral da fazenda.
e) manifestação de apoio à disciplina senhorial, porque o grupo procurava ampliar o tempo de trabalho destinado à produção do proprietário.
7. Ao estudar as formas de resistência dos escravizados, qual alternativa apresenta uma interpretação INCORRETA?
a) A formação de comunidades de fugitivos podia exigir cultivo de alimentos, organização da defesa e relações com moradores das proximidades.
b) A apresentação de reivindicações ao senhor deve ser entendida como concordância com o cativeiro, pois negociar expressava adesão ao domínio senhorial.
c) O afastamento temporário de uma propriedade podia integrar conflitos por condições de vida, castigos ou preservação de vínculos pessoais.
d) A transmissão de conhecimentos e práticas culturais podia sustentar solidariedades e oferecer recursos para enfrentar a violência da escravidão.
e) O planejamento de uma revolta dependia de articulação entre participantes e enfrentava riscos de denúncia, repressão e punição.
8. Leia o trecho com três espaços em branco.
Ao se estabelecerem em comunidades como os ________________, fugitivos procuravam construir condições de vida fora do cativeiro. A transmissão de crenças, cantos e saberes podia sustentar a resistência ________________. Já as disputas por tempo de descanso e condições de trabalho podiam envolver ________________ com os senhores.
Escolha a sequência que completa o trecho de modo historicamente correto:
a) aldeamentos missionários, cultural, negociações cotidianas.
b) quilombos, administrativa, contratos de trabalho assalariado.
c) destacamentos militares, religiosa, negociações cotidianas.
d) quilombos, cultural, autorizações para o tráfico atlântico.
e) quilombos, cultural, negociações cotidianas.
9. Por que as relações de certos quilombos com comerciantes, libertos e outros moradores das proximidades são relevantes para compreender sua resistência?
a) Essas relações podiam favorecer abastecimento, circulação de informações e apoio, mostrando que a autonomia podia ser construída por meio de redes sociais.
b) O comércio com vizinhos funcionava como registro de alforria coletiva, convertendo a circulação de produtos em reconhecimento oficial de liberdade.
c) A troca de informações transferia a direção dos quilombos às autoridades locais, que passavam a organizar suas estratégias de defesa territorial.
d) Tais contatos aproximavam os quilombos das senzalas, pois o intercâmbio comercial restabelecia a propriedade senhorial sobre seus moradores.
e) A presença de intermediários indica que o sustento vinha de doações dos proprietários, reduzindo a importância do cultivo realizado nas comunidades.
10. Leia os dois parágrafos a seguir, elaborados com base nas reivindicações dos rebeldes do Engenho de Santana, em Ilhéus, na Bahia.
Após se rebelarem e se refugiarem nas matas, trabalhadores escravizados apresentaram ao proprietário condições para voltar ao engenho. Reivindicaram tempo para trabalhar em suas próprias roças, limites para determinadas tarefas e participação na escolha de novos feitores.
O documento também defendia a realização de festas e batuques sem autorização prévia. Assim, as exigências reuniam questões de trabalho e de vida comunitária: o retorno proposto não equivalia à obtenção da liberdade, mas estava condicionado a mudanças na relação com o senhor.
A interpretação mais adequada da combinação entre rebelião e proposta de acordo apresentada no texto é:
a) a intenção de voltar ao engenho transforma o levante em uma disputa entre proprietários, conduzida pelos trabalhadores em nome de seus senhores.
b) o pedido de festas indica que a principal finalidade do acordo era aumentar a produtividade, deixando em segundo plano o controle sobre o trabalho.
c) a participação na escolha dos feitores demonstra que o grupo já possuía liberdade jurídica e negociava os termos de uma contratação remunerada.
d) o confronto e a negociação integravam uma estratégia para modificar condições do cativeiro, incluindo o controle do trabalho e a autonomia cultural.
e) a apresentação de condições revela que o acordo já havia sido cumprido, permitindo aos rebeldes garantir sua liberdade antes do retorno.
11. Analise as afirmações sobre a resistência dos escravizados no Brasil.
I. Uma fuga podia buscar liberdade duradoura ou funcionar como recurso de pressão em um conflito imediato.
II. Negociar mudanças nas condições de trabalho era incompatível com resistir, pois pressupunha reconhecer como legítima a escravização.
III. Práticas culturais podiam fortalecer laços comunitários, mesmo quando recriadas em novas condições sociais.
IV. O intercâmbio de produtos com moradores livres anulava o caráter de resistência dos quilombos, pois os reintegrava ao domínio dos proprietários.
Quais afirmações estão corretas?
a) I e II, pois as fugas podiam ter objetivos variados, enquanto as negociações expressavam legitimação do cativeiro.
b) II e III, porque a recriação cultural sustentava vínculos, mas a reivindicação de melhores condições excluía a resistência.
c) I e III, já que a resistência comportava diferentes objetivos e podia envolver a construção de solidariedades culturais.
d) I e IV, uma vez que as fugas eram diversificadas, mas o comércio restabelecia o controle senhorial sobre os quilombos.
e) III e IV, pois a cultura favorecia a vida comunitária, enquanto as trocas comerciais retiravam a autonomia dos fugitivos.
12. Um pesquisador encontra um relatório de repressão a um quilombo que descreve seus moradores como ameaça à ordem e destaca a atuação das tropas. Para investigar as formas de resistência, a leitura historicamente mais cuidadosa desse documento consiste em:
a) examinar os interesses de quem produziu o relato e confrontá-lo com outras evidências, buscando também indícios de organização e sobrevivência dos fugitivos.
b) aceitar a classificação dos moradores como descrição de seus objetivos, usando a autoridade do responsável pelo relatório como garantia de sua precisão.
c) descartar o registro por ter origem repressiva, atribuindo às fontes da administração uma incapacidade de informar sobre a vida dos quilombolas.
d) substituir as informações do relatório por uma narrativa de harmonia comunitária, tomando a resistência como evidência suficiente de ausência de conflitos.
e) medir o sucesso do quilombo pelo número de capturas registrado, adotando os resultados da expedição como principal explicação da experiência dos moradores.
13. Um historiador afirma que o cultivo de roças próprias podia ampliar a autonomia dos escravizados, embora também ajudasse a manter a força de trabalho da propriedade. Como interpretar essa aparente tensão?
a) O benefício econômico para o proprietário transforma a roça em trabalho senhorial, impedindo que seu uso integre reivindicações de autonomia.
b) A administração da produção pelos cultivadores equivale à posse jurídica de si mesmos, permitindo considerar a roça uma modalidade de alforria.
c) A importância dos alimentos para a propriedade indica que o cultivo resultava de concessão espontânea, tornando secundários os conflitos pela sua manutenção.
d) O conflito sobre o tempo de cultivo demonstra que a produção se destinava ao mercado externo, substituindo o abastecimento da comunidade escravizada.
e) A mesma prática podia atender a interesses distintos, e sua função na resistência dependia das disputas pelo tempo, pelos produtos e por seu controle.
14. Ao comparar fugas, revoltas, quilombos, preservação cultural e negociações cotidianas, a análise histórica mais consistente considera que:
a) a passagem da negociação à revolta correspondia a uma sequência de amadurecimento, na qual práticas culturais pertenciam a uma etapa inicial de contestação.
b) essas estratégias podiam se combinar ou se alternar conforme recursos, vínculos e riscos, disputando a liberdade ou espaços de autonomia sob coerção.
c) os meios de resistência correspondiam à origem dos participantes, com africanos organizando levantes e nascidos no Brasil privilegiando acordos individuais.
d) a eficácia de cada estratégia deve ser medida pela obtenção de alforrias, tomando os resultados jurídicos individuais como expressão principal de seu alcance.
e) as diferenças entre as estratégias refletem posições fixas diante do cativeiro, separando os que aceitavam negociar dos que procuravam romper com a escravidão.
Gabarito explicativo:
1. c) A resistência assumiu formas individuais e coletivas, abertas ou desenvolvidas no cotidiano. Fugas e levantes confrontavam o controle sobre as pessoas, enquanto práticas culturais e reivindicações podiam defender vínculos, identidades e autonomia. As demais alternativas descrevem mecanismos de administração, exploração ou repressão empregados pelo sistema escravista.
2. a) Quilombos constituíram experiências de organização da vida fora do cativeiro, com produção de alimentos, proteção e relações comunitárias. Seu tamanho, duração e funcionamento variavam. Não eram alojamentos senhoriais ou postos de fiscalização: sua formação desafiava as tentativas de manter ou recuperar o controle sobre fugitivos.
3. e) Preservar e recriar referências culturais ajudava pessoas submetidas à escravização a manter vínculos e sentidos de pertencimento. Essa continuidade não exigia reproduzir sem mudanças a vida na África, nem concedia liberdade jurídica. Cantos, crenças e saberes podiam ser adaptados e compartilhados em novas comunidades, contrapondo-se à desumanização.
4. b) Fugir nem sempre significava projetar um afastamento definitivo. Ausências temporárias podiam responder a castigos ou integrar tentativas de modificar condições de vida. Voltar à propriedade não transforma a fuga em descanso autorizado, alforria ou venda: é preciso investigar as circunstâncias e os objetivos de cada caso.
5. d) A Revolta dos Malês foi uma insurreição urbana em Salvador, com participação de africanos escravizados e libertos e protagonismo de muçulmanos. Seus vínculos religiosos e sociais contribuíram para a articulação do movimento. Isso não permite atribuir o islamismo ao conjunto dos africanos no Brasil. A revolta não foi uma campanha parlamentar nem uma mobilização comandada por proprietários ou autoridades.
6. c) A reivindicação de tempo para cultivar roças próprias disputava o uso da força de trabalho e a obtenção de recursos para a vida cotidiana. Defender costumes desse tipo podia limitar a intervenção senhorial, embora os participantes permanecessem escravizados. Negociação sob coerção não equivale a contratação livre, consentimento voluntário ou transferência da administração da fazenda.
7. b) Esta é a alternativa incorreta. Apresentar reivindicações não prova adesão ao cativeiro: podia ser uma forma de enfrentar imposições e ampliar o controle sobre a própria vida. A resistência não se restringe à ruptura imediata. As outras opções reconhecem dimensões documentadas da vida em quilombos, das fugas, da cultura e da organização de levantes.
8. e) A sequência correta é “quilombos, cultural, negociações cotidianas”. Quilombos foram espaços de organização de fugitivos; cantos, crenças e saberes podiam sustentar resistência cultural; reivindicações de descanso e trabalho podiam envolver negociação. Aldeamentos missionários e destacamentos militares designam outras instituições. Já contratos assalariados e autorizações para o tráfico não correspondem às relações descritas no trecho.
9. a) A autonomia dos quilombos podia depender de contatos externos que fornecessem produtos, informações ou apoio. A existência dessas redes não significava reconhecimento oficial de liberdade nem restabelecimento da propriedade senhorial. Portanto, compreender a resistência exige considerar tanto a organização interna das comunidades quanto suas relações com a sociedade ao redor.
10. d) O texto reúne confronto e disposição para negociar: os trabalhadores propunham voltar mediante mudanças no trabalho, na fiscalização e nas práticas culturais. Apresentar condições não demonstra que elas foram aceitas ou cumpridas. Tampouco significa que os participantes já fossem livres. O episódio evidencia a articulação entre rebelião e reivindicação de autonomia.
11. c) I e III estão corretas: fugas tinham objetivos variados, e a recriação cultural podia fortalecer solidariedades. II está errada porque negociar não pressupunha considerar legítima a escravização; podia expressar uma disputa sob condições desiguais de poder. IV também está errada: intercâmbios comerciais não anulavam a resistência nem equivaliam ao retorno dos quilombolas ao domínio senhorial.
12. a) Um relatório de repressão registra informações, mas também expressa os interesses e a perspectiva de seu autor. Confrontá-lo com outras fontes permite avaliar suas classificações e recuperar indícios que ultrapassem a narrativa da vitória militar. O documento não deve ser aceito como relato neutro nem descartado por sua origem. Também não cabe substituí-lo por uma idealização dos quilombos.
13. e) O cultivo de roças podia fornecer recursos aos escravizados e favorecer sua autonomia, enquanto também contribuía para o sustento de trabalhadores explorados pelo senhor. Esses efeitos podiam coexistir. Para entender seu papel, é necessário examinar quem controlava o tempo, a produção e o destino dos produtos, além dos conflitos em torno desse costume. Acesso a uma roça não equivalia a alforria, nem eliminava a coerção.
14. b) As estratégias não formavam etapas obrigatórias nem correspondiam a posições fixas diante do cativeiro. Pessoas e grupos podiam combinar negociação, fuga, cultura e confronto conforme suas condições e objetivos. Algumas ações buscavam romper a escravização; outras defendiam espaços de autonomia dentro dela. A análise deve considerar suas circunstâncias, sem medir toda resistência pelo número de alforrias obtidas.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 01/08/2026
