Questões sobre o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas
Testes de múltipla escolha (questão 1 a 15)
1. Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", uma das características mais marcantes da narrativa é a condição do narrador. Qual alternativa explica corretamente essa particularidade?
A) Brás Cubas narra sua vida ainda jovem, enquanto os acontecimentos estão ocorrendo.
B) A história é contada por um narrador externo que conhece todos os pensamentos do protagonista.
C) Brás Cubas escreve suas memórias depois de morto, condição que lhe permite comentar sua própria vida com distanciamento, ironia e liberdade.
D) O romance é narrado alternadamente por Brás Cubas, Virgília e Quincas Borba.
E) A narrativa assume a forma de cartas encontradas após a morte do protagonista.
2. Logo no início do romance, Brás Cubas dedica sua obra "ao verme que primeiro roeu as frias carnes" de seu cadáver. Essa dedicatória contribui principalmente para:
A) Estabelecer desde o começo o tom irônico, provocador e pouco convencional que caracteriza a obra.
B) Demonstrar que o romance será predominantemente uma narrativa de terror sobre a morte.
C) Apresentar uma reflexão religiosa voltada para a ideia de salvação da alma.
D) Indicar que Brás Cubas deseja ocultar sua identidade dos leitores.
E) Mostrar que o narrador pretende escrever uma biografia científica sobre o corpo humano.
3. A estrutura de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" diferencia-se de muitos romances tradicionais do século XIX. Sobre essa estrutura:
A) Os capítulos são sempre longos e seguem rigorosamente a ordem cronológica dos acontecimentos.
B) A narrativa é construída apenas por diálogos entre as personagens, sem interferência do narrador.
C) A obra apresenta capítulos breves, interrupções, digressões e comentários dirigidos diretamente ao leitor.
D) O romance possui estrutura linear e evita qualquer retorno ao passado do protagonista.
E) Machado de Assis organiza toda a narrativa como um diário escrito diariamente por Brás Cubas.
4. Marcela ocupa papel importante na juventude de Brás Cubas. Como essa personagem aparece na trajetória do protagonista?
A) Como uma amiga de infância que o ajuda a desenvolver sua carreira política.
B) Como o primeiro grande envolvimento amoroso de Brás Cubas, marcado também por interesses materiais e pela idealização do jovem protagonista.
C) Como uma mulher escolhida pela família de Brás Cubas para se casar com ele.
D) Como uma professora responsável pela formação intelectual do protagonista.
E) Como uma parente que administra os bens da família Cubas.
5. A famosa frase segundo a qual Marcela teria amado Brás Cubas "durante quinze meses e onze contos de réis" revela principalmente:
A) A valorização romântica de um amor puro e completamente desinteressado.
B) A preocupação de Brás Cubas em apresentar dados financeiros precisos sobre sua juventude.
C) Uma crítica irônica à associação entre relações afetivas e interesses econômicos.
D) A tentativa do narrador de provar que Marcela pertencia a uma família muito rica.
E) A defesa de que o dinheiro não exercia influência sobre as relações sociais daquele período.
6. Virgília é uma das personagens centrais do romance. Qual alternativa apresenta corretamente sua relação com Brás Cubas?
A) Virgília é irmã de Brás Cubas e procura impedir que ele abandone a carreira política.
B) Ela é apresentada como uma personagem sem importância para a vida emocional do protagonista.
C) Virgília abandona Lobo Neves publicamente para viver com Brás Cubas.
D) Brás Cubas deseja inicialmente casar-se com Virgília, mas ela se casa com Lobo Neves e, posteriormente, mantém com Brás Cubas uma relação amorosa extraconjugal.
E) Ela conhece Brás Cubas apenas nos últimos capítulos, quando ele já está gravemente doente.
7. A relação entre Brás Cubas e Virgília também permite a Machado de Assis desenvolver uma crítica social. Essa crítica relaciona-se especialmente:
A) À apresentação do casamento, do prestígio social e das relações afetivas como espaços nos quais interesses, convenções e aparências podem ter grande importância.
B) À defesa da ideia de que as relações amorosas são sempre determinadas exclusivamente pelo sentimento.
C) À condenação da educação feminina por impedir que as mulheres participassem de qualquer atividade social.
D) À valorização do casamento como instituição inteiramente independente dos interesses econômicos e políticos.
E) À representação da sociedade brasileira como um ambiente no qual não existiam conflitos entre vida privada e posição pública.
8. Lobo Neves, marido de Virgília, possui importância para a crítica social presente no romance porque:
A) Representa um personagem completamente afastado da política e das preocupações com prestígio.
B) Abandona voluntariamente a carreira pública para dedicar-se exclusivamente à família.
C) Sua trajetória está relacionada à ambição política, à posição social e à preocupação com a imagem pública.
D) É apresentado como um revolucionário que combate as instituições sociais do Império.
E) Atua como narrador de vários capítulos nos quais critica Brás Cubas diretamente.
9. Eugênia é conhecida pelo episódio em que Brás Cubas a chama de "flor da moita". A relação entre os dois evidencia:
A) A capacidade de Brás Cubas de superar completamente os preconceitos sociais de seu tempo.
B) Uma crítica à superficialidade e aos preconceitos do protagonista, especialmente diante da deficiência física e da posição social de Eugênia.
C) A decisão de Brás Cubas de casar-se com Eugênia, apesar da oposição familiar.
D) A rejeição de Eugênia a Brás Cubas por considerá-lo economicamente inferior.
E) A ausência de qualquer preocupação do protagonista com aparência ou posição social.
10. Prudêncio aparece primeiro como uma pessoa escravizada pertencente à família de Brás Cubas e, posteriormente, como homem liberto. O episódio em que Brás Cubas o encontra depois da alforria é importante porque:
A) Mostra que Prudêncio conseguiu romper completamente com todas as formas de violência aprendidas durante a escravidão.
B) Demonstra que a sociedade descrita no romance havia eliminado rapidamente as consequências da escravidão.
C) Evidencia a reprodução de práticas violentas, pois Prudêncio passa a agredir uma pessoa escravizada sob seu domínio, revelando como relações de poder podem ser reproduzidas.
D) Apresenta Prudêncio como líder político responsável pela defesa imediata da abolição.
E) Mostra que Brás Cubas reconhece imediatamente sua responsabilidade pela violência do sistema escravista e decide combatê-lo.
11. Quincas Borba apresenta a Brás Cubas uma filosofia chamada Humanitismo. Dentro do romance, essa filosofia:
A) É apresentada sem qualquer ironia como a explicação definitiva para os problemas humanos.
B) Funciona como uma elaboração filosófica satírica que permite a Machado de Assis questionar explicações grandiosas sobre sociedade, competição e comportamento humano.
C) Defende exclusivamente princípios religiosos relacionados à caridade cristã.
D) Procura demonstrar que todos os conflitos sociais podem ser eliminados pela educação escolar.
E) É uma teoria científica criada por Brás Cubas para explicar doenças infecciosas.
12. A expressão "ao vencedor, as batatas", associada ao Humanitismo, pode ser compreendida no romance como:
A) Uma defesa literal da agricultura como solução para os conflitos sociais.
B) Uma frase utilizada para valorizar a solidariedade entre todos os indivíduos.
C) Uma expressão criada por Brás Cubas durante sua tentativa de desenvolver um medicamento.
D) Uma crítica feita por Virgília aos projetos políticos de Lobo Neves.
E) Uma formulação irônica relacionada à competição, à disputa pela sobrevivência e à justificativa dos vencedores em determinadas relações sociais.
13. Brás Cubas dedica parte de seus últimos esforços à criação do chamado emplasto Brás Cubas. Qual característica do protagonista esse projeto revela de maneira especialmente significativa?
A) Seu interesse exclusivo em ajudar anonimamente os mais pobres, sem obter reconhecimento pessoal.
B) Sua preocupação científica rigorosa com a medicina experimental.
C) Seu desejo de alcançar fama e reconhecimento, apresentado pelo próprio narrador como uma das motivações do projeto.
D) Sua intenção de abandonar definitivamente qualquer interesse por prestígio social.
E) Seu compromisso político com a criação de um sistema público de saúde.
14. Em diversos momentos, Brás Cubas dirige-se diretamente ao leitor, comenta a própria narrativa e até imagina possíveis reações de quem lê. Esse procedimento contribui para:
A) Criar uma relação de proximidade, provocação e diálogo com o leitor, chamando atenção também para o caráter construído da narrativa.
B) Eliminar completamente a presença do narrador e fazer com que os acontecimentos pareçam objetivos.
C) Transformar o romance em uma obra exclusivamente teatral.
D) Impedir que o leitor desenvolva interpretações diferentes das apresentadas pelo protagonista.
E) Demonstrar que Brás Cubas pretende escrever seguindo rigorosamente as regras tradicionais do romance romântico.
15. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" é considerada uma obra fundamental do Realismo brasileiro. Qual característica do romance ajuda a explicar essa classificação?
A) A idealização dos protagonistas e a valorização de relações amorosas perfeitas.
B) A construção de heróis moralmente exemplares que vencem todos os obstáculos por meio da virtude.
C) A análise crítica das relações sociais, a ironia, a investigação psicológica das personagens e o questionamento de valores e convenções.
D) A valorização predominante da natureza brasileira e da figura indígena como símbolos nacionais.
E) A apresentação do destino das personagens como resultado exclusivo de forças sobrenaturais.
Questões discursivas (16 a 20)
16. Explique por que a condição de Brás Cubas como "defunto autor" é importante para a construção da narrativa e para o tom crítico de "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
17. Analise a relação entre Brás Cubas e Virgília, explicando de que maneira ela permite a Machado de Assis abordar temas como casamento, interesse social, desejo e aparência pública.
18. Explique como o episódio envolvendo Prudêncio contribui para a crítica de Machado de Assis à sociedade escravista brasileira e às relações de poder existentes no século XIX.
19. Analise a função da ironia em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e explique como esse recurso é utilizado para questionar o comportamento de Brás Cubas e os valores da sociedade em que ele vive.
20. No final do romance, Brás Cubas realiza uma espécie de balanço de sua existência e conclui mencionando que não teve filhos e, portanto, não transmitiu a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria". Explique o sentido dessa reflexão e relacione-a à visão crítica e pessimista que atravessa a obra.
Gabarito explicativo:
1. C
Brás Cubas é um "defunto autor", isto é, alguém que começa a escrever suas memórias depois da própria morte. Essa situação fantástica concede ao narrador uma liberdade incomum para avaliar sua existência, reconhecer fracassos, expor vaidades e fazer comentários irônicos sobre si mesmo e sobre a sociedade. A morte funciona, portanto, como um ponto de observação privilegiado, embora o relato continue marcado pela subjetividade do protagonista.
2. A
A dedicatória ao verme que primeiro roeu suas carnes rompe com as convenções tradicionais e antecipa o tom irônico e provocador do romance. Em vez de dedicar o livro a familiares, amigos ou pessoas ilustres, Brás Cubas dirige-se a um verme. Machado de Assis utiliza esse recurso para introduzir temas como morte, vaidade humana e transitoriedade da existência.
3. C
A estrutura do romance é marcada por capítulos geralmente curtos, digressões, interrupções, comentários do narrador e diálogos constantes com o leitor. Machado de Assis rompe deliberadamente com a narrativa linear e com a organização tradicional do romance. Essa fragmentação contribui para criar um texto dinâmico e evidencia que Brás Cubas seleciona, reorganiza e comenta suas próprias lembranças.
4. B
Marcela representa uma das primeiras experiências amorosas importantes de Brás Cubas. O jovem envolve-se intensamente com ela, chegando a gastar grandes quantias de dinheiro durante o relacionamento. Ao recordar essa experiência, o narrador adulto apresenta o romance de maneira irônica, destacando a mistura entre sentimentos, interesses materiais e ilusões próprias da juventude.
5. C
A frase que associa os quinze meses do relacionamento aos onze contos de réis transforma uma lembrança amorosa em cálculo financeiro. O efeito é deliberadamente irônico. Machado de Assis questiona a idealização romântica do amor e sugere que sentimentos e interesses econômicos podem aparecer profundamente misturados nas relações humanas.
6. D
Brás Cubas inicialmente considera a possibilidade de casar-se com Virgília, mas ela escolhe Lobo Neves, cuja carreira política apresenta melhores perspectivas. Posteriormente, Brás Cubas e Virgília tornam-se amantes. A relação extraconjugal ocupa parte importante do romance e permite ao autor explorar desejo, adultério, convenções sociais e preocupação com as aparências.
7. A
A relação entre Brás Cubas e Virgília revela uma sociedade na qual casamento, posição social, interesse político, desejo e reputação estão frequentemente relacionados. As personagens procuram conciliar seus interesses particulares com aquilo que a sociedade espera delas. Machado de Assis utiliza essas contradições para criticar a distância entre comportamento privado e aparência pública.
8. C
Lobo Neves é um homem ligado à vida política e preocupado com sua ascensão social. Sua trajetória evidencia a importância do prestígio, das relações de poder e da imagem pública entre os grupos socialmente privilegiados do período. Por meio da personagem, Machado de Assis também ironiza ambições políticas e comportamentos orientados pela busca de reconhecimento social.
9. B
Eugênia é uma jovem bonita, mas possui uma deficiência física e uma posição social menos vantajosa para os interesses de Brás Cubas. Embora se sinta atraído por ela, o protagonista não leva o relacionamento adiante. O episódio revela sua superficialidade e evidencia preconceitos relacionados à aparência física, à condição econômica e à posição social.
10. C
Prudêncio sofreu violência quando era uma pessoa escravizada da família de Brás Cubas. Depois de alforriado, é encontrado pelo protagonista agredindo outra pessoa escravizada. O episódio possui forte sentido crítico porque mostra como práticas de violência e dominação produzidas pela sociedade escravista podem ser reproduzidas por aqueles que anteriormente também sofreram seus efeitos. Isso não elimina a responsabilidade individual, mas evidencia a profundidade das relações sociais construídas pela escravidão.
11. B
O Humanitismo é apresentado de maneira satírica. Criado por Quincas Borba, procura oferecer uma explicação ampla sobre a sociedade e sobre as disputas entre os indivíduos. Machado de Assis utiliza essa filosofia fictícia para ironizar sistemas de pensamento que pretendem explicar a realidade por meio de fórmulas universais e, ao mesmo tempo, para questionar justificativas dadas à competição e à desigualdade.
12. E
A expressão "ao vencedor, as batatas" resume ironicamente a lógica competitiva presente no Humanitismo. Na explicação de Quincas Borba, o vencedor de uma disputa garante para si os recursos disponíveis. Machado de Assis transforma essa ideia em sátira, permitindo uma reflexão sobre competição social, interesse individual e teorias utilizadas para justificar a superioridade daqueles que obtêm vantagens.
13. C
O emplasto Brás Cubas deveria, em princípio, combater a melancolia humana. Entretanto, o próprio narrador admite que também desejava obter fama e reconhecimento por meio da invenção. O episódio revela uma característica constante de Brás Cubas: mesmo quando apresenta projetos aparentemente grandiosos, suas motivações estão frequentemente relacionadas à vaidade pessoal.
14. A
Ao conversar diretamente com o leitor, Brás Cubas rompe a distância tradicional entre narrador e público. Ele provoca, questiona, antecipa críticas e comenta sua maneira de contar a história. Esse procedimento cria uma espécie de diálogo com quem lê e mostra que a narrativa não é uma reprodução neutra da realidade, mas uma construção realizada pelo próprio narrador.
15. C
O romance apresenta diversas características associadas ao Realismo machadiano, como análise psicológica, ironia, observação crítica dos comportamentos sociais e questionamento das convenções. Em vez de idealizar personagens e sentimentos, Machado de Assis expõe interesses, contradições, vaidades, preconceitos e conflitos presentes tanto no indivíduo quanto na sociedade.
16
A condição de Brás Cubas como "defunto autor" permite que ele narre sua vida a partir de uma posição impossível no mundo real: depois da morte. Por não precisar mais preservar uma reputação social ou construir um futuro, ele afirma possuir maior liberdade para recordar seus erros, desejos, fracassos e vaidades. Essa condição favorece a ironia, pois o narrador observa retrospectivamente comportamentos que muitas vezes revelam egoísmo, superficialidade e ambição.
Ao mesmo tempo, sua condição de morto não transforma o relato em uma narrativa completamente objetiva. Brás Cubas continua selecionando lembranças, interpretando acontecimentos e conduzindo o leitor segundo sua própria perspectiva. Machado de Assis utiliza essa contradição para construir uma narrativa simultaneamente confessional, irônica e crítica.
17
A relação entre Brás Cubas e Virgília revela o conflito existente entre desejo pessoal e convenções sociais. Virgília inicialmente não se casa com Brás Cubas e prefere Lobo Neves, cuja trajetória oferece melhores perspectivas políticas e sociais. Mais tarde, ela e Brás Cubas tornam-se amantes, mantendo uma relação que precisa permanecer escondida para preservar a posição pública das personagens envolvidas.
Machado de Assis utiliza esse relacionamento para mostrar que casamento e amor nem sempre aparecem associados no universo social representado pela obra. Prestígio, carreira política, posição econômica, desejo e aparência pública influenciam as escolhas das personagens. O adultério, portanto, não funciona apenas como elemento amoroso da narrativa, mas como instrumento de análise das contradições sociais.
18
O episódio de Prudêncio evidencia a violência estrutural da sociedade escravista brasileira. Durante a infância de Brás Cubas, Prudêncio é submetido a humilhações e agressões, chegando a ser utilizado pelo menino como se fosse um animal de montaria. A cena revela como a violência da escravidão estava integrada até mesmo às brincadeiras e relações cotidianas das famílias escravistas.
Mais tarde, já alforriado, Prudêncio é visto agredindo uma pessoa escravizada que passou a possuir. Machado de Assis mostra, de maneira perturbadora, como determinadas relações de poder podem ser reproduzidas dentro de uma sociedade marcada pela escravidão. A passagem também expõe a naturalização da violência por Brás Cubas, que relata seus atos da infância sem apresentar uma profunda autocrítica moral.
19
A ironia é um dos principais recursos literários utilizados por Machado de Assis em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Por meio dela, afirmações aparentemente simples ou elogiosas podem assumir sentido crítico quando confrontadas com as ações e motivações das personagens. Muitas vezes, o próprio Brás Cubas revela suas limitações sem perceber completamente o alcance moral de suas palavras.
Esse recurso também impede que o leitor aceite passivamente tudo aquilo que o narrador afirma. É necessário interpretar as contradições entre aquilo que Brás Cubas diz sobre si mesmo e aquilo que seus comportamentos revelam. Assim, a ironia serve para criticar tanto o protagonista quanto valores sociais relacionados à riqueza, ao prestígio, à política, às relações amorosas e às hierarquias existentes na sociedade brasileira do século XIX.
20
No capítulo final, Brás Cubas realiza o que chama de balanço das negativas de sua vida. Ele recorda que não alcançou vários objetivos importantes e encerra sua reflexão afirmando que possui uma espécie de saldo favorável: não teve filhos e, portanto, não transmitiu a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria".
A passagem sintetiza a visão desencantada que percorre o romance. Brás Cubas observa a existência humana como marcada por frustrações, vaidades, interesses, ambições e sofrimentos. Sua conclusão não apresenta uma celebração da vida, mas uma avaliação pessimista da experiência humana.
Ao mesmo tempo, a frase mantém o caráter irônico da obra. Até o que Brás Cubas apresenta como uma vantagem é uma ausência: não ter deixado descendentes. O encerramento reforça, assim, o tom crítico do romance e sua recusa em oferecer uma conclusão moralizadora ou uma visão idealizada da existência.
Por Elaine Barbosa de Souza - Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Publicado em 16/09/2026
