Questões sobre o Auto da Barca do Inferno
1. Em "Auto da Barca do Inferno", Gil Vicente utiliza personagens representativos de diferentes grupos sociais. Qual é a principal função dessa estratégia na construção da obra?
a) Apresentar indivíduos com histórias particulares, sem estabelecer relação entre suas condutas e os grupos sociais aos quais pertencem.
b) Representar tipos sociais para criticar comportamentos, vícios e valores presentes na sociedade retratada pela obra.
c) Construir personagens psicologicamente complexos, cuja principal característica é a transformação interior ao longo da narrativa.
d) Demonstrar que as diferenças entre os grupos sociais desaparecem completamente diante das relações econômicas.
e) Defender que determinadas categorias sociais possuem naturalmente maior virtude moral do que as demais.
2. A presença simultânea do Anjo e do Diabo desempenha uma função fundamental na estrutura dramática da obra. Como essa oposição contribui para o desenvolvimento do "Auto da Barca do Inferno"?
a) Representa apenas uma disputa religiosa entre duas personagens que procuram aumentar o número de passageiros de suas embarcações.
b) Introduz um conflito amoroso simbólico que aproxima a peça dos modelos tradicionais das novelas de cavalaria.
c) Organiza o julgamento das personagens, contrapondo a possibilidade de salvação à condenação de acordo com seus atos em vida.
d) Impede que as próprias personagens expliquem suas escolhas e procurem justificar o comportamento que tiveram em vida.
e) Demonstra que a decisão sobre o destino das almas depende principalmente da posição social ocupada por cada indivíduo.
3. Sobre a crítica social presente em "Auto da Barca do Inferno", assinale a alternativa incorreta:
a) A obra critica a hipocrisia de indivíduos que aparentam respeitabilidade, mas apresentam comportamentos moralmente condenáveis.
b) A sátira atinge personagens pertencentes a diferentes grupos sociais, mostrando que a crítica não se limita a uma única camada da sociedade.
c) Determinadas personagens tentam utilizar posição social, objetos ou argumentos pessoais para escapar da condenação.
d) A peça apresenta uma visão segundo a qual riqueza e prestígio social garantem automaticamente a salvação das personagens.
e) O humor contribui para expor contradições existentes entre a aparência social das personagens e suas ações.
4. O Fidalgo chega ao julgamento acompanhado por elementos associados ao seu status social. O que essa caracterização revela sobre a crítica construída por Gil Vicente?
a) O apego do Fidalgo aos sinais de privilégio demonstra sua arrogância e sua crença de que a posição social poderia diferenciá-lo mesmo diante do julgamento moral.
b) A presença dos símbolos de nobreza comprova que o personagem havia exercido corretamente todas as responsabilidades relacionadas ao seu grupo social.
c) Os elementos associados à nobreza possuem apenas função decorativa, sem relação com a caracterização moral da personagem.
d) O comportamento do Fidalgo demonstra que a nobreza é apresentada na peça como o grupo social mais próximo dos princípios cristãos.
e) Os símbolos carregados pelo personagem revelam que sua condenação decorre exclusivamente de possuir bens materiais.
5. Considere as afirmações sobre "Auto da Barca do Inferno":
I. A obra utiliza personagens que funcionam como tipos sociais.
II. O julgamento após a morte permite avaliar criticamente os comportamentos apresentados pelas personagens durante a vida.
III. A sátira vicentina pode atingir membros de diferentes grupos sociais e profissionais.
IV. Todas as personagens condenadas reconhecem imediatamente seus erros e aceitam sem resistência o destino determinado.
Estão corretas:
a) Apenas I e IV.
b) Apenas II e III.
c) Apenas I, II e IV.
d) Apenas II, III e IV.
e) Apenas I, II e III.
6. O Onzeneiro é uma das personagens que aparecem diante das duas barcas. Considerando a crítica moral desenvolvida na peça, qual comportamento é principalmente representado por essa personagem?
a) A busca pelo conhecimento intelectual acompanhada pelo abandono das responsabilidades religiosas.
b) A valorização excessiva do dinheiro e das práticas de empréstimo associadas à exploração econômica de outras pessoas.
c) A defesa dos privilégios hereditários utilizados pela nobreza para controlar politicamente os demais grupos sociais.
d) O uso da autoridade religiosa para ocultar relacionamentos amorosos proibidos pelos costumes sociais.
e) A prática da justiça de maneira parcial, favorecendo aqueles que possuem maior prestígio econômico.
7. Leia o seguinte trecho de "Auto da Barca do Inferno", no qual o Fidalgo pergunta sobre o destino da embarcação:
"FIDALGO
Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO
Vai pera a ilha perdida,
e há de partir logo ess'ora."
Considerando o contexto da obra, qual efeito é produzido pelo diálogo?
a) Apresenta o Diabo como uma personagem incapaz de compreender a posição social do Fidalgo.
b) Demonstra que o Fidalgo já conhece seu destino e procura apenas confirmar uma decisão que havia aceitado anteriormente.
c) Estabelece de maneira irônica o início da descoberta, pelo Fidalgo, de que sua posição social não poderá livrá-lo da condenação.
d) Revela que a viagem possui caráter geográfico e que as personagens procuram alcançar uma ilha desconhecida.
e) Mostra que o Fidalgo foi escolhido para auxiliar o Diabo na condução dos demais passageiros.
8. Por que o recurso da sátira é tão importante para a crítica realizada por Gil Vicente em "Auto da Barca do Inferno"?
a) Porque permite expor vícios e contradições sociais por meio do humor, da ironia e do exagero, tornando a crítica mais incisiva.
b) Porque transforma todas as personagens condenadas em figuras heroicas, valorizando as escolhas realizadas por elas durante a vida.
c) Porque elimina o conteúdo moral da peça e concentra a atenção exclusivamente no entretenimento proporcionado ao público.
d) Porque apresenta apenas situações fantásticas que não mantêm qualquer relação com comportamentos existentes na sociedade.
e) Porque substitui completamente a crítica social pela descrição objetiva dos costumes das diferentes categorias profissionais.
9. O Sapateiro procura justificar-se diante do julgamento e apresenta argumentos relacionados à sua vida religiosa. Qual crítica pode ser percebida nessa situação:
a) A obra condena qualquer tipo de trabalho artesanal porque o associa necessariamente ao enriquecimento ilícito.
b) A personagem demonstra que participar de práticas religiosas era considerado suficiente para eliminar qualquer responsabilidade individual.
c) Gil Vicente critica exclusivamente as corporações profissionais e deixa de atribuir importância às atitudes individuais.
d) A cena evidencia a contradição entre práticas religiosas externas e comportamentos desonestos realizados nas relações cotidianas.
e) O episódio mostra que o julgamento das personagens depende da quantidade de atividades religiosas que realizaram.
10. A personagem do Frade possui especial importância para a dimensão anticlerical da sátira vicentina. De que maneira sua caracterização contribui para essa crítica?
a) O Frade é apresentado como modelo de disciplina religiosa e serve para contrastar com as demais personagens condenadas.
b) Sua presença demonstra que membros do clero eram automaticamente conduzidos à barca do Anjo independentemente de suas ações.
c) O personagem representa apenas um conflito entre diferentes ordens religiosas, sem apresentar implicações morais mais amplas.
d) Sua condenação ocorre exclusivamente porque ele demonstra interesse por atividades culturais e pela prática da esgrima.
e) A incoerência entre sua condição religiosa e seus comportamentos permite criticar membros do clero que não seguiam os princípios que deveriam representar.
11. Ao longo da peça, diversas personagens tentam justificar suas ações ou apresentar razões pelas quais não deveriam ser condenadas. O que esse comportamento permite interpretar?
a) As personagens compreendem plenamente seus erros e utilizam suas justificativas apenas como demonstração de arrependimento verdadeiro.
b) Muitas personagens revelam dificuldade de reconhecer as próprias responsabilidades, expondo a distância entre a imagem que possuem de si mesmas e seus atos.
c) As justificativas demonstram que o Anjo desconhece os acontecimentos da vida dos indivíduos que chegam ao julgamento.
d) Os argumentos comprovam que todas as condenações são arbitrárias e independem dos comportamentos apresentados anteriormente.
e) As tentativas de defesa indicam que o julgamento pretende determinar apenas a importância profissional de cada personagem.
12. Entre as personagens da obra encontram-se os Quatro Cavaleiros, cujo destino se diferencia do reservado à maioria das figuras que chegam ao cais. O tratamento dado a essas personagens indica:
a) A condenação da atividade militar como incompatível com qualquer princípio religioso existente na sociedade representada.
b) A valorização exclusiva da origem aristocrática dos cavaleiros, pois sua posição social é apresentada como suficiente para garantir a salvação.
c) A existência de critérios morais no julgamento, uma vez que o destino das personagens está relacionado à forma como suas ações são avaliadas.
d) A intenção de demonstrar que somente indivíduos pertencentes ao clero poderiam alcançar a barca conduzida pelo Anjo.
e) A ausência de qualquer relação entre as atitudes praticadas em vida e o destino recebido depois da morte.
13. Considere a situação geral da peça: após a morte, diferentes personagens chegam a um cais e precisam enfrentar uma avaliação de seus comportamentos. Algumas carregam objetos ou símbolos associados à vida que tiveram. A partir dessa estrutura, pode-se interpretar que:
a) O cais funciona simbolicamente como espaço de julgamento no qual títulos, riquezas e aparências são confrontados com as ações praticadas pelas personagens.
b) O cenário tem função exclusivamente realista, reproduzindo as atividades comerciais desenvolvidas nos portos europeus.
c) As embarcações representam diferentes territórios políticos disputados pelos grupos sociais apresentados na peça.
d) Os objetos trazidos pelas personagens servem apenas para indicar suas profissões, sem adquirir significado moral ou satírico.
e) A viagem simboliza principalmente a ascensão econômica dos indivíduos que conseguiram acumular riquezas durante a vida.
14. A presença de personagens como o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Frade e o Corregedor permite compreender uma característica importante da construção literária da obra. Qual é essa característica?
a) A concentração da crítica apenas nos grupos populares, considerados responsáveis pelos problemas sociais apresentados na peça.
b) A defesa sistemática dos representantes das instituições religiosas e jurídicas contra as críticas realizadas pelo Diabo.
c) A utilização de personagens individualizadas cuja trajetória psicológica é mais importante do que sua função social.
d) A representação de vários setores da sociedade, permitindo que a sátira examine vícios relacionados à nobreza, à economia, à religião, aos ofícios e à justiça.
e) A intenção de reconstruir biografias reais de pessoas conhecidas pelo público, preservando detalhadamente suas experiências pessoais.
15. Considerando o conjunto de "Auto da Barca do Inferno", qual interpretação melhor explica a relação entre moralidade, aparência social e julgamento das personagens:
a) A obra sugere que a aparência respeitável de uma pessoa constitui o principal critério para determinar o valor moral de suas ações.
b) Gil Vicente demonstra que apenas os indivíduos pertencentes às camadas economicamente privilegiadas podem ser responsabilizados por seus comportamentos.
c) O julgamento das personagens depende principalmente da profissão que exerceram, independentemente das atitudes adotadas durante a vida.
d) A peça apresenta os valores religiosos apenas como recurso cômico, sem relacioná-los à avaliação das condutas humanas.
e) A obra contrapõe prestígio social e justificativas pessoais às ações efetivamente praticadas, mostrando que a aparência não elimina a responsabilidade moral.
Gabarito explicativo
1. b
As personagens de "Auto da Barca do Inferno" são construídas, em grande parte, como tipos sociais. O Fidalgo representa comportamentos associados à aristocracia; o Onzeneiro, à exploração econômica; o Sapateiro, às práticas desonestas de determinados ofícios; o Frade, à incoerência moral dentro do clero. Por meio desses tipos, Gil Vicente amplia a crítica para além das atitudes individuais, atingindo práticas presentes em diferentes setores da sociedade.
2. c
As duas barcas constituem o eixo simbólico da peça. A barca conduzida pelo Diabo representa a condenação, enquanto a associada ao Anjo corresponde à possibilidade de salvação. A passagem das personagens pelo cais funciona, portanto, como um julgamento moral. A oposição entre Anjo e Diabo estrutura dramaticamente a avaliação dos comportamentos praticados em vida.
3. d
A alternativa é incorreta porque a peça não afirma que riqueza ou prestígio garantam a salvação. O caso do Fidalgo demonstra justamente o contrário. Sua posição aristocrática e os símbolos de seu status não possuem valor diante do julgamento. Gil Vicente emprega essa situação para questionar a pretensão de que hierarquia social e superioridade moral fossem equivalentes.
4. a
O Fidalgo permanece ligado aos símbolos de sua condição privilegiada e demonstra dificuldade para compreender que seu status não modifica o julgamento. A cena adquire forte caráter satírico porque aquilo que lhe garantia distinção no mundo social torna-se inútil diante da avaliação moral. A personagem representa, assim, a crítica à arrogância e ao abuso de privilégios.
5. e
As afirmações I, II e III estão corretas. Gil Vicente utiliza tipos sociais, transforma o espaço posterior à morte em ocasião para avaliação das condutas e direciona sua sátira a diferentes setores da sociedade. A afirmação IV está errada porque muitas personagens não reconhecem seus erros. Pelo contrário, procuram justificar-se, minimizar suas faltas ou recorrer à posição social e às práticas religiosas para escapar da condenação.
6. b
O Onzeneiro representa o apego excessivo ao dinheiro e a exploração relacionada à prática da usura. Sua relação com a riqueza não aparece simplesmente como posse de bens, mas como resultado de uma atividade condenada moralmente no contexto da obra. O personagem permite a Gil Vicente satirizar a avareza e a transformação do dinheiro em valor central da existência.
7. c
O diálogo possui evidente sentido irônico. O Fidalgo ainda se comporta de acordo com a segurança proporcionada por sua posição social, mas começa a perceber que o destino reservado a ele é diferente daquele que imaginava merecer. O contraste entre sua arrogância e a naturalidade com que o Diabo lhe anuncia o destino reforça o efeito satírico da cena.
8. a
A sátira permite que Gil Vicente transforme a crítica moral e social em ação teatral. O humor, a ironia, o exagero e determinadas situações ridículas revelam incoerências das personagens. O público pode rir de suas tentativas de justificar os próprios erros, mas esse riso está associado à crítica dos comportamentos que elas representam.
9. d
O Sapateiro procura recorrer a práticas religiosas para defender sua salvação, embora seus comportamentos sejam apresentados como incompatíveis com os valores que afirma respeitar. A crítica dirige-se à religiosidade meramente exterior. A realização de cerimônias ou práticas religiosas não substitui, na lógica moral da peça, uma conduta considerada justa.
10. e
O Frade é uma das figuras centrais da crítica ao comportamento de determinados membros do clero. A comicidade surge da contradição entre o papel religioso que deveria desempenhar e sua conduta. Gil Vicente não condena a religião em si, mas satiriza aqueles que ocupam funções religiosas enquanto agem de maneira incompatível com os princípios que publicamente representam.
11. b
Uma característica recorrente das personagens condenadas é sua incapacidade de reconhecer plenamente as próprias faltas. Muitas apresentam desculpas, justificativas ou tentam destacar aspectos que consideram positivos. Esse procedimento reforça a sátira porque revela o contraste entre a visão que possuem de si mesmas e a avaliação de suas ações.
12. c
Os Quatro Cavaleiros recebem tratamento diferente porque suas ações são avaliadas de maneira distinta dentro da lógica moral da peça. Esse contraste é importante para demonstrar que o destino das personagens não deriva simplesmente do grupo social a que pertencem. A estrutura do julgamento procura estabelecer relação entre comportamento, valores religiosos e destino final.
13. a
O cais possui forte significado simbólico. Nele, as posições sociais existentes no mundo terreno deixam de funcionar como garantia de privilégio. Objetos, títulos e símbolos carregados pelas personagens ajudam a revelar quem elas foram e quais valores orientaram suas vidas. O julgamento confronta essas aparências com as condutas efetivamente praticadas.
14. d
Gil Vicente distribui sua sátira por vários setores sociais. A nobreza aparece por meio do Fidalgo; atividades econômicas são representadas pelo Onzeneiro; os ofícios, pelo Sapateiro; o clero, pelo Frade; e o sistema jurídico, por personagens ligadas à justiça. Essa variedade amplia o alcance crítico da peça e impede que a sátira seja dirigida exclusivamente a um único grupo.
15. e
Um dos eixos centrais da obra é a oposição entre aparência social e responsabilidade moral. Diversas personagens chegam ao julgamento levando consigo títulos, símbolos, argumentos e justificativas que haviam sido importantes durante a vida. Contudo, esses elementos não conseguem apagar suas ações. A peça sugere, portanto, que prestígio, riqueza ou imagem pública não substituem a avaliação da conduta.
Por Elaine Barbosa de Souza - Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).
Publicado em 21/09/2026
