Cientologia
O que é e origem da Cientologia
A Cientologia é um movimento religioso surgido nos Estados Unidos durante a década de 1950. Foi desenvolvido pelo escritor norte-americano Lafayette Ronald Hubbard, mais conhecido como L. Ron Hubbard (1911–1986), autor de obras de ficção científica e fantasia. Seus primeiros fundamentos apareceram no livro “Dianética: a ciência moderna da saúde mental”, publicado em 1950. A primeira Igreja da Cientologia foi formalmente organizada em 1954, na cidade de Los Angeles.
A classificação da Cientologia varia conforme o país e a instituição consultada. Nos Estados Unidos, ela possui reconhecimento jurídico e tributário como religião desde 1993. Em outros países, pode ser registrada como associação religiosa, organização filosófica ou entidade comercial. Críticos, ex-integrantes e alguns órgãos públicos a descrevem como seita ou grupo de elevado controle sobre seus membros. A própria organização rejeita essas classificações e se apresenta como uma religião dedicada ao desenvolvimento espiritual.
Dianética e mente reativa
Antes da criação da Cientologia, Hubbard desenvolveu a Dianética, apresentada como um método para identificar e superar experiências dolorosas acumuladas na mente. De acordo com essa doutrina, o ser humano possuiria uma “mente analítica”, relacionada ao raciocínio consciente, e uma “mente reativa”, responsável pelo armazenamento de lembranças traumáticas.
Essas lembranças negativas seriam denominadas “engramas”. Para os cientologistas, os engramas podem provocar medos, comportamentos indesejados, inseguranças e dificuldades emocionais. A eliminação de sua influência permitiria alcançar o estado chamado “Clear”, palavra inglesa que pode ser traduzida como “limpo” ou “esclarecido”.
Entretanto, a Dianética não é reconhecida como método científico pela Psicologia, pela Psiquiatria ou pela Medicina. Suas explicações sobre o funcionamento da mente não foram comprovadas por pesquisas científicas aceitas pela comunidade acadêmica. Por esse motivo, ela é geralmente classificada por especialistas como uma prática pseudocientífica.
O conceito de thetan
Um dos principais conceitos da Cientologia é o “thetan”, entendido como a verdadeira identidade espiritual do indivíduo. Segundo os ensinamentos da organização, o ser humano não teria apenas uma alma, mas seria essencialmente um ser espiritual imortal que utiliza a mente e o corpo durante sua existência material.
Os cientologistas acreditam que o thetan viveu diversas existências anteriores e continuará existindo depois da morte do corpo. As experiências acumuladas ao longo dessas vidas teriam reduzido suas capacidades originais. O propósito da Cientologia seria recuperar progressivamente a liberdade, a consciência e os poderes espirituais desse ser imortal.
Essa concepção apresenta algumas semelhanças com ideias de reencarnação encontradas em religiões orientais. Contudo, a Cientologia possui doutrina própria e não pode ser definida simplesmente como uma combinação entre hinduísmo, budismo e cristianismo. Hubbard utilizou diferentes referências religiosas, filosóficas, psicológicas e culturais para construir um sistema particular de crenças.
Objetivos espirituais
De acordo com seus seguidores, a Cientologia busca proporcionar liberdade espiritual, autoconhecimento e maior capacidade de controle sobre a própria vida. A organização ensina que o ser humano é fundamentalmente bom e possui habilidades muito superiores às que consegue manifestar em sua condição atual.
O avanço espiritual ocorre por meio de cursos, estudos, exercícios e sessões de auditoria. A sequência de etapas percorridas pelo adepto é representada pela chamada “Ponte para a Liberdade Total”. Nela, o participante procura inicialmente alcançar o estado de “Clear” e, depois, avançar pelos níveis denominados “Operating Thetan”, geralmente abreviados como OT.
Auditoria
A principal prática da Cientologia é a auditoria, uma forma de aconselhamento realizada entre um auditor e um participante, chamado de “preclear” enquanto ainda não atingiu o estado de “Clear”. Durante as sessões, o auditor formula perguntas sobre experiências, lembranças, sentimentos e situações consideradas perturbadoras.
O objetivo declarado é ajudar o participante a reconhecer e enfrentar experiências negativas, reduzindo a influência que elas exerceriam sobre sua vida. As informações reveladas nessas sessões podem ser registradas em documentos internos utilizados para acompanhar o progresso do adepto.
Embora apresente algumas características externas semelhantes às de uma entrevista terapêutica, a auditoria não corresponde a uma modalidade reconhecida de psicoterapia. Os auditores da Cientologia não são necessariamente psicólogos, psiquiatras ou profissionais habilitados pelos sistemas oficiais de saúde.
O E-meter
Durante muitas sessões de auditoria, utiliza-se um aparelho chamado E-meter, abreviação de “eletropsicômetro”. O participante segura dois cilindros metálicos conectados ao equipamento, que registra alterações na resistência elétrica da pele.
Segundo a Cientologia, as mudanças indicadas pelo aparelho ajudariam o auditor a localizar assuntos relacionados a desconfortos emocionais ou espirituais. O E-meter, porém, não é um detector de mentiras e não possui capacidade científica comprovada para identificar pensamentos, traumas, doenças ou a veracidade das respostas de uma pessoa.
A própria Igreja da Cientologia declara que o equipamento não deve ser utilizado para diagnosticar, tratar ou prevenir doenças. Seu uso é apresentado pela organização como exclusivamente religioso e espiritual.
Cursos e progressão interna
O desenvolvimento dentro da Cientologia ocorre por meio de uma série de cursos e níveis. Os participantes estudam textos de Hubbard, realizam exercícios de comunicação, recebem auditorias e aprendem técnicas utilizadas pela organização.
Muitos desses serviços são pagos. À medida que o integrante avança, pode adquirir novos materiais, cursos e sessões. Os valores exigidos ao longo da progressão são um dos principais pontos criticados por ex-integrantes e pesquisadores, pois a conclusão das etapas mais elevadas pode envolver despesas consideráveis.
Parte dos ensinamentos avançados não é apresentada imediatamente aos novos adeptos. Determinados conteúdos são disponibilizados apenas depois que o participante conclui os níveis anteriores. A organização afirma que essa progressão é necessária para que a pessoa esteja espiritualmente preparada para compreender as doutrinas mais complexas.
Posição sobre a Psiquiatria
A Cientologia mantém forte oposição à Psiquiatria e a determinados tratamentos psiquiátricos. Hubbard considerava que medicamentos e práticas psiquiátricas poderiam prejudicar o desenvolvimento espiritual dos indivíduos.
A organização criou instituições e campanhas destinadas a denunciar o que considera abusos cometidos pela Psiquiatria. Profissionais da saúde, por outro lado, criticam essa postura, especialmente quando ela incentiva pessoas a rejeitar diagnósticos, medicamentos ou tratamentos indicados por especialistas.
A Cientologia não deve substituir o acompanhamento médico ou psicológico. Problemas de saúde física ou mental precisam ser avaliados por profissionais devidamente qualificados.
Organização e liderança
L. Ron Hubbard permaneceu como principal referência da Cientologia até sua morte, ocorrida em 24 de janeiro de 1986. Depois desse período, David Miscavige consolidou-se como o dirigente mais influente da organização, exercendo a liderança institucional por meio do Religious Technology Center.
A Igreja da Cientologia possui uma estrutura hierarquizada, formada por igrejas, missões, centros de treinamento e organizações relacionadas. Sua sede espiritual internacional está localizada em Clearwater, no estado norte-americano da Flórida, enquanto importantes centros administrativos e culturais funcionam na Califórnia.
Outro setor é a Sea Organization, conhecida como Sea Org. Trata-se de uma ordem composta por membros que assumem compromissos intensos de trabalho e dedicação à Cientologia. Seus integrantes simbólica e formalmente assinam contratos de duração extremamente longa, apresentados como demonstração da crença em sucessivas existências.
Livros fundamentais
O livro mais conhecido de Hubbard é “Dianética: a ciência moderna da saúde mental”, publicado em 1950. A obra apresenta os conceitos de mente analítica, mente reativa e engramas, além de descrever métodos que posteriormente foram incorporados à Cientologia.
Outros títulos importantes são “Dianética: a evolução de uma ciência”, “Ciência da sobrevivência”, “Cientologia: os fundamentos do pensamento”, “Uma história do homem” e “O caminho para a felicidade”. Hubbard produziu grande quantidade de livros, palestras gravadas, manuais e cursos considerados fundamentais pelos adeptos.
Cientologia e celebridades
A Cientologia tornou-se conhecida internacionalmente por sua presença no meio artístico, principalmente em Hollywood. Desde os primeiros anos do movimento, Hubbard demonstrou interesse em atrair pessoas famosas, pois acreditava que elas poderiam ampliar a visibilidade da organização.
Entre as personalidades publicamente associadas à Cientologia estão os atores Tom Cruise, John Travolta e Elisabeth Moss. A relação de cada pessoa com a organização pode mudar com o tempo, razão pela qual listas de integrantes devem ser consideradas provisórias.
Várias figuras conhecidas também abandonaram o movimento e passaram a criticá-lo. Entre elas estão a atriz Leah Remini, o cineasta Paul Haggis e a atriz Laura Prepon. Alguns ex-integrantes relataram experiências de pressão, vigilância, punições internas e rompimento de relações com familiares ou amigos que se opunham à organização. A Igreja da Cientologia contesta muitas dessas acusações.
Controvérsias e críticas
Desde sua formação, a Cientologia está envolvida em controvérsias religiosas, jurídicas e sociais. Entre as principais críticas encontram-se os altos custos de cursos e auditorias, o tratamento dispensado a dissidentes, o sigilo de ensinamentos avançados e as ações judiciais movidas contra antigos integrantes, jornalistas e organizações críticas.
Também existem denúncias relacionadas à chamada política de “desconexão”, pela qual integrantes poderiam ser incentivados a romper contato com pessoas classificadas como hostis à Cientologia. A organização afirma que ninguém é obrigado a abandonar familiares e que seus membros possuem liberdade para tomar decisões pessoais.
Ex-integrantes e investigações jornalísticas apresentaram acusações de abuso psicológico, exploração do trabalho, vigilância e intimidação. A Igreja da Cientologia nega a existência de abusos sistemáticos e declara que muitas denúncias são falsas, distorcidas ou motivadas por preconceito religioso.
Presença internacional
A Cientologia expandiu-se para diversos países por meio de igrejas, missões, centros de treinamento e organizações associadas. Sua presença é particularmente visível nos Estados Unidos, especialmente nas cidades de Los Angeles e Clearwater.
Não existem números independentes e universalmente aceitos sobre a quantidade de cientologistas no mundo. As estimativas variam bastante, pois a organização divulga números superiores aos apresentados por censos, pesquisas religiosas e estudos acadêmicos.
O reconhecimento jurídico também não é uniforme. Alguns países tratam a Cientologia como religião, enquanto outros a consideram associação privada, organização comercial ou movimento controverso. Essas diferenças resultam das legislações nacionais e das diversas interpretações sobre suas práticas, estrutura e finalidades.
Principais características da Cientologia
Entre as principais características da Cientologia estão a crença no thetan como ser espiritual imortal, a aceitação de existências anteriores, a busca pelo estado de “Clear”, a progressão pelos níveis de “Operating Thetan” e a prática da auditoria.
O movimento também se caracteriza pelo uso religioso do E-meter, pela valorização dos escritos de L. Ron Hubbard, pela oferta de cursos pagos, pela estrutura interna hierarquizada e pela oposição à Psiquiatria. Sua classificação jurídica varia entre os países, assim como as avaliações feitas por pesquisadores, governos, adeptos e antigos integrantes.
Para seus seguidores, a Cientologia representa um caminho de aperfeiçoamento e liberdade espiritual. Para seus críticos, trata-se de uma organização fechada, comercializada e fortemente controladora. A compreensão do movimento exige, portanto, a distinção entre suas doutrinas oficiais, as experiências relatadas por seus membros e as denúncias apresentadas por antigos participantes e pesquisadores.
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Igreja da Cientologia em Los Angeles (Califórnia, EUA). |
Outras práticas, crenças e rituais da cientologia:
• Culto de domingo: a Cientologia não possui um culto semanal tradicional. Em vez disso, algumas igrejas oferecem serviços dominicais que incluem leituras das escrituras da Cientologia e discussões sobre a aplicação de seus princípios à vida. Esses serviços são mais educativos do que devocionais.
• Batismos: não pratica o batismo no sentido tradicional. Em vez disso, cerimônias como serviços de nomeação dão boas-vindas às crianças na comunidade, focando no reconhecimento ao invés da purificação espiritual.
• Casamentos: oferece cerimônias de casamento que incorporam suas crenças e tradições. Essas cerimônias enfatizam o entendimento mútuo e o compromisso entre o casal, frequentemente destacando a dinâmica da comunicação e da responsabilidade.
• Cerimônias religiosas: cerimônias da Cientologia, como serviços de nomeação e funerais, refletem seus ensinamentos únicos. Elas têm como objetivo reconhecer eventos importantes da vida, frequentemente enfatizando o crescimento espiritual e a continuidade da vida.
• Ações de caridade: a Cientologia apoia esforços de caridade principalmente por meio de seus programas de melhoramento social, como iniciativas educacionais, reabilitação de dependentes químicos e defesa dos direitos humanos. Essas ações são extensões da crença em melhorar indivíduos e a sociedade.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 18/07/2026
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Bibliografia e vídeos indicados:
Fontes:
https://www.encyclopedia.com/religion/legal-and-political-magazines/scientology-church

