Ismael Nery

 

Quem foi



Ismael Nery foi um pintor, desenhista, poeta e pensador brasileiro, nascido em Belém, no Pará, em 9 de outubro de 1900, e morto no Rio de Janeiro, em 6 de abril de 1934. É considerado um dos artistas mais originais do Modernismo brasileiro, embora sua obra tenha seguido um caminho diferente daquele adotado por muitos modernistas ligados à valorização de temas nacionais, populares ou regionais. Em vez de concentrar sua arte na construção de uma identidade brasileira, Nery voltou-se para questões universais, espirituais, existenciais e metafísicas, explorando a figura humana, o corpo, a identidade, a dualidade entre masculino e feminino, a religiosidade e o inconsciente.

Sua produção artística foi relativamente breve, pois morreu aos 33 anos, vítima de tuberculose. Mesmo assim, deixou uma obra marcada por grande densidade intelectual e visual. Ismael Nery transitou por influências expressionistas, cubistas e surrealistas, elaborando uma linguagem própria, difícil de enquadrar em uma única corrente estética. Por isso, costuma ser visto como um dos precursores do Surrealismo no Brasil, ainda que sua obra não tenha sido apenas uma reprodução do Surrealismo europeu.



Biografia


Ismael Nery nasceu em uma família de formação católica e mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, em 1909. Essa mudança foi decisiva para sua formação, pois o Rio de Janeiro era um dos principais centros culturais e artísticos do Brasil nas primeiras décadas do século XX. Desde jovem, demonstrou interesse pelas artes visuais, pelo pensamento religioso, pela poesia e pela filosofia, formando um perfil intelectual amplo, marcado pela busca de uma compreensão profunda da existência humana.

Em 1917, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. A instituição ainda era fortemente marcada por padrões acadêmicos, vinculados ao desenho tradicional, à técnica rigorosa e à herança artística europeia. Embora essa formação tenha contribuído para seu domínio técnico, Nery não se limitou ao academicismo. Seu percurso artístico passou a se desenvolver em diálogo com as transformações da arte moderna, sobretudo após seu contato com a produção europeia.

Em 1920, viajou para a Europa e frequentou a Academia Julian, em Paris. Essa experiência ampliou seu contato com as linguagens modernas que circulavam no ambiente artístico europeu, especialmente as experiências ligadas ao Cubismo, ao Expressionismo e às primeiras tendências que posteriormente se aproximariam do Surrealismo. Paris, naquele período, era um dos centros mais importantes da arte moderna, reunindo artistas, escritores e intelectuais de diferentes países. ([Wikipédia][3])

De volta ao Brasil, Ismael Nery trabalhou como desenhista na seção de Arquitetura e Topografia da Diretoria do Patrimônio Nacional, órgão ligado ao Ministério da Fazenda. Nesse ambiente profissional, conheceu o poeta Murilo Mendes, que se tornou um de seus principais amigos e incentivadores. A relação entre Nery e Murilo Mendes foi importante para a circulação de suas ideias e para a preservação de sua memória artística, especialmente porque o reconhecimento público de sua obra só se consolidou de modo mais intenso depois de sua morte. 

Em 1922, casou-se com Adalgisa Nery, escritora e poetisa. O casamento teve grande importância em sua vida pessoal e intelectual, pois Adalgisa também participou do ambiente cultural brasileiro da primeira metade do século XX. A relação entre os dois aparece indiretamente em parte de sua produção, sobretudo nas representações de casais, nas figuras femininas e nas imagens que exploram a união entre masculino e feminino.

Em 1926, Ismael Nery desenvolveu uma concepção filosófica própria, chamada Essencialismo. Essa doutrina tinha base espiritualista, católica e metafísica, procurando compreender o ser humano para além das aparências imediatas, do tempo histórico e das divisões materiais. O Essencialismo defendia a busca por uma essência humana universal, capaz de superar fragmentações individuais, sexuais, temporais e sociais. Essa visão teve forte impacto em sua produção artística, mesmo quando não aparece de modo explícito nas obras.

Em 1927, realizou nova viagem à Europa. Nesse período, entrou em contato com artistas e intelectuais ligados às vanguardas, entre eles Marc Chagall, André Breton e Marcel Noll. Também recebeu influência da pintura metafísica de Giorgio de Chirico e do Cubismo de Pablo Picasso. Esses contatos contribuíram para a intensificação de sua linguagem surrealista, marcada por atmosferas oníricas, figuras suspensas, corpos fragmentados, símbolos religiosos e composições de forte teor psicológico.

A partir de 1929, sua saúde foi profundamente afetada pela tuberculose. Ele chegou a se internar em um sanatório em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cerca de dois anos. Embora tenha apresentado melhora temporária, a doença retornou de forma grave em 1933. Nos últimos anos de vida, sua produção tornou-se mais intensa e dramática, com imagens de corpos feridos, figuras dilaceradas e composições que sugerem sofrimento físico, espiritualidade e reflexão sobre a morte.

Ismael Nery morreu em 6 de abril de 1934, no Rio de Janeiro. Sua morte precoce interrompeu uma trajetória artística em pleno desenvolvimento. Durante sua vida, sua obra não alcançou amplo reconhecimento público. Sua valorização cresceu posteriormente, sobretudo a partir de exposições retrospectivas e da incorporação de seu nome à história do Modernismo brasileiro e das experiências surrealistas no país.



Características de suas obras, temas e estilo artístico:



Figura humana: a figura humana é o centro da obra de Ismael Nery. O artista representou corpos, rostos, casais, autorretratos, nus e figuras híbridas, muitas vezes afastadas do realismo tradicional. A anatomia aparece modificada, alongada, simplificada ou fragmentada, revelando não apenas a aparência física, mas também conflitos interiores, espiritualidade e tensões psicológicas.

Autorretrato e identidade: os autorretratos ocupam lugar importante em sua produção. Neles, o artista não apenas registra sua imagem, mas constrói reflexões sobre a própria identidade. O rosto e o corpo tornam-se meios para discutir memória, dualidade, deslocamento, subjetividade e relação entre vida interior e mundo exterior.

Androginia: a androginia é uma das marcas mais fortes de sua obra. Muitas figuras apresentam traços ambíguos entre masculino e feminino, sugerindo a busca por uma unidade essencial do ser humano. Esse tema está relacionado ao seu pensamento filosófico, especialmente à ideia de superação das divisões corporais e espirituais.

Casais e fusão de corpos: Nery representou casais de modo recorrente, muitas vezes com corpos aproximados, unidos ou quase fundidos. Essa representação não deve ser vista apenas como cena amorosa, mas como imagem simbólica da integração entre opostos. O casal pode representar desejo, espiritualidade, complementaridade e busca de unidade.

Religiosidade e espiritualidade: sua formação católica e seu interesse por questões metafísicas aparecem em imagens que sugerem transcendência, sofrimento, ascensão, sacrifício e mistério. Em várias obras, a espiritualidade não aparece como ilustração religiosa direta, mas como atmosfera simbólica e existencial.

Influência expressionista: em sua fase inicial, especialmente no começo da década de 1920, Nery aproximou-se do Expressionismo. Essa influência pode ser percebida na intensidade emocional das figuras, no tratamento dramático dos rostos e corpos, na deformação expressiva e na tentativa de revelar estados interiores.

Influência cubista: entre meados da década de 1920 e 1927, sua pintura incorporou elementos cubistas. As figuras passaram a apresentar maior geometrização, com formas simplificadas, planos definidos e estruturação mais racional da composição. Essa influência não eliminou o teor emocional de sua obra, mas deu maior organização formal às imagens.

Influência surrealista: a partir de 1927, sua produção aproximou-se com mais força do Surrealismo. Essa fase apresenta imagens oníricas, associações inesperadas, figuras suspensas, espaços ambíguos e atmosferas de sonho. O Surrealismo permitiu que Nery articulasse corpo, inconsciente, erotismo, religião e metafísica em composições de grande originalidade.

Atmosfera metafísica: algumas obras apresentam espaços silenciosos, figuras isoladas e sensação de suspensão temporal. Essa característica aproxima Nery de certos aspectos da pintura metafísica europeia, especialmente pela construção de cenas que parecem existir fora do cotidiano comum.

Pouco interesse pelo nacionalismo modernista: ao contrário de artistas modernistas brasileiros que exploraram temas indígenas, afro-brasileiros, populares ou regionais, Ismael Nery concentrou-se em temas universais e existenciais. Essa escolha o diferenciou de parte da geração modernista de 1922, aproximando-o de uma investigação mais espiritual, subjetiva e internacional.

Desenho e síntese formal: Nery foi também desenhista, e isso se reflete na importância da linha em sua obra. Seus contornos frequentemente organizam a figura com clareza e tensão. Mesmo quando a composição é simbólica ou surrealista, há uma estrutura visual precisa, resultado de seu domínio do desenho.

Corpo fragmentado e sofrimento: em sua fase final, marcada pelo agravamento da tuberculose, aparecem imagens mais dramáticas, com corpos mutilados, feridos ou deformados. Essas figuras sugerem sofrimento físico, fragilidade da existência e reflexão sobre a morte, sem abandonar a dimensão espiritual de sua arte.



Movimentos artísticos dos quais fez parte:



Modernismo brasileiro: Ismael Nery pertence ao contexto do Modernismo brasileiro, movimento que ganhou destaque a partir da Semana de Arte Moderna de 1922. No entanto, sua posição dentro do Modernismo é particular. Ele não se dedicou à construção de uma arte nacionalista, como fizeram outros modernistas, mas buscou uma linguagem voltada para questões universais, metafísicas e psicológicas. Por isso, sua obra representa uma vertente menos regionalista e mais espiritualizada da arte moderna no Brasil.


Expressionismo: o Expressionismo influenciou sua produção inicial. Essa relação aparece na deformação das figuras, no forte conteúdo emocional e na tentativa de representar sentimentos profundos. Em Nery, o Expressionismo não se limita ao drama visual, pois está associado à busca por uma verdade interior do ser humano.


Cubismo: o Cubismo aparece em sua obra por meio da geometrização das formas, da simplificação dos volumes e da organização dos corpos em planos. Essa influência foi importante para que Nery superasse o naturalismo acadêmico e construísse uma linguagem mais moderna. Entretanto, ele não adotou o Cubismo de modo rígido, usando-o como recurso formal para estruturar figuras de conteúdo simbólico.


Surrealismo: o Surrealismo é o movimento mais associado a Ismael Nery. Sua obra dialoga com o universo dos sonhos, do inconsciente, das imagens inesperadas e das associações simbólicas. Mesmo assim, seu Surrealismo tem características próprias, pois é atravessado pelo catolicismo, pelo Essencialismo e por uma reflexão metafísica sobre o corpo e a alma.


Pintura metafísica: embora não tenha pertencido formalmente à pintura metafísica italiana, Nery recebeu influência de Giorgio de Chirico. Essa aproximação aparece em cenas de atmosfera enigmática, sensação de suspensão e uso de espaços simbólicos. A pintura metafísica contribuiu para a dimensão silenciosa e misteriosa de parte de sua produção.


Escola de Paris: suas viagens à Europa aproximaram-no do ambiente artístico parisiense das décadas de 1920 e 1930. A chamada Escola de Paris reunia artistas de diferentes nacionalidades, muitos deles ligados às vanguardas modernas. Nesse meio, Nery entrou em contato com experiências estéticas que ampliaram sua linguagem e reforçaram sua distância em relação ao academicismo brasileiro.



Principais obras:



"Autorretrato Rio/Paris" ou "Autorretrato" (1927): é uma de suas obras mais conhecidas. Nela, Ismael Nery se representa entre dois espaços simbólicos: o Rio de Janeiro e Paris. A composição sugere a divisão entre sua experiência brasileira e sua formação artística europeia. A obra também expressa dualidades centrais em sua trajetória, como antigo e moderno, masculino e feminino, identidade pessoal e cosmopolitismo artístico.


"Namorados"
(c. 1927): esta obra apresenta um casal em composição marcada pela proximidade corporal e pela ambiguidade afetiva. O tema dos namorados é recorrente em Nery porque permite explorar a relação entre desejo, união, complementaridade e fusão espiritual. A obra também evidencia sua tendência a representar o masculino e o feminino como forças que se aproximam e se confundem.


"Duas Figuras em Azul" (1926): a obra pertence ao momento em que Nery se aproximou de soluções formais mais ligadas ao Cubismo e a uma paleta de maior sobriedade. As figuras são tratadas com simplificação visual e certo distanciamento emocional, mas continuam carregadas de tensão psicológica. O uso do azul reforça uma atmosfera introspectiva, melancólica e espiritualizada.


"Figura" (c. 1927-1928): essa obra representa o interesse de Nery pela figura humana como forma simbólica. Mais do que retratar um indivíduo específico, a imagem sugere uma condição existencial. O corpo aparece como espaço de investigação espiritual, psicológica e formal, aproximando-se das experiências surrealistas e metafísicas do artista.


"Composição Surrealista I (Um Dirigível e um Epitáfio com a Palavra LEX)"
: a obra integra o conjunto de experiências surrealistas de Nery, com associação de elementos inesperados e atmosfera enigmática. O título já indica a presença de símbolos de difícil interpretação direta, como o dirigível, o epitáfio e a palavra "LEX". A composição sugere uma reflexão sobre lei, morte, deslocamento e imaginação, características próximas do universo surrealista.


"Três mulheres com auscultador"
: a obra evidencia o interesse de Nery pelo corpo feminino, pela escuta, pela interioridade e pela construção de imagens simbólicas. O auscultador, instrumento associado à medicina e ao exame do corpo, pode ser interpretado como sinal da investigação do interior humano. A imagem aproxima ciência, corpo e mistério, característica comum em sua poética visual. 



Legado artístico


O legado de Ismael Nery está ligado à originalidade de sua posição dentro da arte moderna brasileira. Enquanto muitos artistas modernistas buscaram representar o Brasil por meio de temas nacionais, populares ou regionais, Nery construiu uma obra voltada para a interioridade, a espiritualidade, a metafísica e a condição humana. Essa escolha fez dele uma figura singular, menos integrada ao projeto nacionalista do Modernismo e mais próxima de uma arte de caráter universal.

Sua contribuição também foi decisiva para a introdução de elementos surrealistas na arte brasileira. Antes que o Surrealismo se tornasse uma referência mais difundida no país, Nery já explorava imagens oníricas, associações simbólicas, corpos ambíguos e composições marcadas pelo inconsciente. Seu Surrealismo, contudo, não era puramente europeu, pois estava ligado a sua religiosidade, ao Essencialismo e à reflexão sobre a unidade do ser humano.

O reconhecimento de sua obra foi tardio. Durante sua vida, sua produção circulou de maneira limitada, e sua morte precoce impediu a consolidação de uma carreira pública mais ampla. A valorização posterior ocorreu por meio de exposições, estudos críticos e incorporação de suas obras a acervos importantes. Retrospectivas e mostras dedicadas à arte moderna brasileira contribuíram para reposicionar Ismael Nery como um dos nomes fundamentais do Modernismo no país. ([Wikipédia][3])

Seu legado também se manifesta na maneira como tratou a identidade e o corpo. Ao representar figuras andróginas, casais fundidos, autorretratos simbólicos e corpos fragmentados, Nery antecipou discussões que se tornariam importantes na arte posterior, como a instabilidade da identidade, a relação entre corpo e subjetividade e a tensão entre gênero, espiritualidade e desejo. Sua obra permanece relevante justamente por não se limitar a uma leitura histórica fechada.

Ismael Nery deixou uma produção curta, mas de grande intensidade. Seu valor artístico não está apenas na adesão a movimentos como Expressionismo, Cubismo ou Surrealismo, mas na capacidade de combinar essas influências em uma linguagem própria. Sua arte propõe uma investigação da essência humana, marcada por sonho, fé, sofrimento, erotismo, pensamento filosófico e experimentação formal. Por isso, ocupa lugar especial na história da arte brasileira do século XX.

 

Pintura Autorretrato de Ismael Nery

Autorretrato (1930): uma das pinturas mais conhecidas de Ismael Nery.

 

 

Duas Mulheres, pintura de Ismael Nery

Duas Mulheres (1926), obra de Ismael Nery.

 

 

 


 

Artigo publicado em 31/10/2019 e atualizado em 02/06/2026

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).