Carybé

 

Quem foi


Carybé foi o nome artístico de Hector Julio Páride Bernabó, pintor, desenhista, gravador, ilustrador, escultor, ceramista, entalhador, mosaicista e muralista nascido em Lanús, na Argentina, em 7 de fevereiro de 1911. Naturalizado brasileiro, tornou-se um dos artistas mais ligados à representação da Bahia, especialmente de Salvador, de seu cotidiano popular e das tradições religiosas afro-brasileiras.

Sua produção foi marcada pela diversidade de técnicas e pela observação cuidadosa dos movimentos do corpo humano. Pescadores, capoeiristas, trabalhadores dos mercados, festas populares, cenas de rua e cerimônias do candomblé aparecem com frequência em suas obras. Embora tenha nascido na Argentina, sua identificação com a cultura baiana foi tão intensa que passou a ser reconhecido como um dos principais intérpretes artísticos da Bahia no século XX.




Biografia


Hector Julio Páride Bernabó passou parte da infância na Itália e, posteriormente, viveu no Rio de Janeiro. Durante a juventude, participou do movimento escoteiro, período em que recebeu o apelido Carybé, nome de um peixe da região amazônica. O apelido foi mantido pelo artista e acabou se transformando em sua assinatura profissional.

Na década de 1930, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e trabalhou como desenhista, jornalista e ilustrador. Também realizou viagens por diferentes países da América do Sul, registrando paisagens, costumes e personagens populares. Durante esse período, desenvolveu um desenho ágil e expressivo, capaz de representar gestos e movimentos com poucas linhas.

Seu contato mais profundo com a Bahia ocorreu a partir das décadas de 1940 e 1950. Em 1950, estabeleceu-se definitivamente em Salvador, cidade que se tornou o centro de sua vida pessoal e artística. A convivência com escritores, músicos, fotógrafos e pesquisadores, como Jorge Amado, Pierre Verger, Dorival Caymmi e Mestre Didi, contribuiu para ampliar seu conhecimento sobre a sociedade e as tradições culturais baianas.

Carybé aproximou-se dos terreiros de candomblé e frequentou o Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador. Não tratou a religião apenas como tema externo ou elemento pitoresco. Participou da vida da comunidade religiosa, estudou seus símbolos, rituais e divindades e recebeu o título de Obá de Xangô. Essa experiência permitiu que suas representações dos orixás fossem construídas a partir da convivência direta com seus praticantes.

Ao longo da carreira, realizou exposições no Brasil e no exterior, produziu murais para edifícios públicos e privados e ilustrou livros de autores como Jorge Amado, Gabriel García Márquez e Pierre Verger. Em 1957, tornou-se cidadão brasileiro e, em 1963, recebeu o título de cidadão honorário de Salvador. Faleceu em 2 de outubro de 1997, na capital baiana, aos 86 anos.



Principais obras:



“Painel dos Orixás”

Produzido entre 1967 e 1968 para o antigo Banco da Bahia, o conjunto é formado por 27 painéis de madeira de cedro, dos quais 19 representam orixás do candomblé. Carybé utilizou entalhes e aplicações de materiais como ouro, prata, cobre, latão, ferro, búzios e vidros. Cada elemento foi escolhido de acordo com os símbolos, as cores e os objetos associados às divindades representadas.

A obra reúne figuras como Exu, Ogum, Oxóssi, Xangô, Oxum, Iemanjá, Iansã, Nanã e Oxalá. As formas alongadas e dinâmicas destacam os movimentos das danças rituais e a relação entre os orixás, as forças naturais e os objetos sagrados. Atualmente, os painéis integram o acervo do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, em Salvador.


“Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia”

Publicada em 1980, essa obra reúne aquarelas e textos dedicados aos orixás e aos rituais do candomblé baiano. O trabalho foi resultado de aproximadamente três décadas de observações, pesquisas e convivência do artista com comunidades religiosas afro-brasileiras.

As imagens apresentam vestimentas, instrumentos, animais, plantas, gestos e objetos associados às divindades. A publicação possui importância artística e documental, pois registra aspectos de uma tradição religiosa que durante muito tempo sofreu perseguições e preconceitos. Carybé procurou representar cada orixá respeitando suas características simbólicas e litúrgicas.


“Bahia”

Realizada em 1951, a pintura representa o universo social e cultural que se tornaria central na produção de Carybé. Figuras humanas, atividades populares e elementos da paisagem baiana aparecem organizados por linhas simplificadas e formas que valorizam o movimento.

A obra revela o interesse do artista pelas pessoas comuns e pelas cenas cotidianas. Em vez de produzir uma representação idealizada da Bahia, Carybé registrou trabalhadores, comerciantes, pescadores e moradores da cidade, transformando o cotidiano popular em tema relevante da arte moderna brasileira.


“Fundação da Cidade de Salvador”

Criado em 1978, esse mural de grandes dimensões apresenta uma interpretação visual da fundação de Salvador, ocorrida em 1549. A composição reúne referências aos povos indígenas, aos colonizadores portugueses, aos africanos escravizados e ao processo de formação histórica da sociedade baiana.

O artista não construiu uma narrativa baseada apenas em autoridades e acontecimentos políticos. Personagens populares, trabalhadores e diferentes grupos formadores da população também ocupam espaço na composição. Dessa maneira, o mural relaciona a história oficial da cidade à diversidade cultural de seus habitantes.


Murais do Memorial da América Latina

Em 1988, Carybé participou da decoração artística do Memorial da América Latina, em São Paulo. Para o conjunto, criou os painéis “Os Povos Africanos”, “Os Ibéricos” e “Os Libertadores”. As obras fazem parte de uma narrativa dedicada à formação histórica e cultural das sociedades latino-americanas.

No painel “Os Povos Africanos”, o artista ressaltou a presença das culturas africanas na constituição da América Latina. “Os Ibéricos” aborda a influência das sociedades portuguesa e espanhola, enquanto “Os Libertadores” apresenta personagens e movimentos relacionados às independências latino-americanas. As composições demonstram a capacidade de Carybé de integrar arte, memória e interpretação histórica em espaços públicos.


“Visitações da Bahia”


Publicado em 1974, o álbum reúne xilogravuras inspiradas em cenas, personagens e tradições da Bahia. O artista representou manifestações religiosas, atividades de trabalho, festas populares e situações do cotidiano.

A técnica da xilogravura favoreceu o uso de contrastes, contornos fortes e formas simplificadas. Nessas imagens, Carybé demonstrou sua habilidade para sintetizar movimentos e expressões com poucos elementos gráficos, mantendo a vitalidade das cenas representadas.


“Sete Lendas Africanas da Bahia”


Lançado em 1979, o conjunto apresenta xilogravuras inspiradas em narrativas de origem africana preservadas na cultura baiana. As imagens representam divindades, seres míticos e acontecimentos relacionados ao universo religioso afro-brasileiro.

Ao transformar essas narrativas em imagens, o artista colaborou para registrar e divulgar tradições transmitidas principalmente pela oralidade. A obra também evidencia a relação entre sua produção artística e o trabalho de pesquisadores, escritores e integrantes das comunidades de candomblé.

 

Mural de Caribé em Buenos Aires

Mural de Carybé em Buenos Aires



 

Principais características do seu estilo artístico:

 

Apaixonado pela Bahia, Carybé tornou-se conhecido com suas obras que valorizavam a cultura baiana, os rituais afro-brasileiros, a capoeira, as belezas naturais e arquitetônicas da Bahia.

 

Apresentou, em suas obras, grande capacidade de capturar o movimento e o ritmo, elementos que são considerados centrais em sua arte.

 

Produziu ilustrações que enriqueceram publicações de renomados escritores, como Jorge Amado e Gabriel García Márquez,

 

Carybé usou cores que evocam a energia, a espiritualidade e a diversidade do povo e da paisagem local. Priorizou as cores vivas e saturadas, que contribuem para a expressividade e a dinâmica de suas composições.



Bahia, pintura de Carybé

Bahia (1939): obra de Carybé.



Legado


Carybé deixou uma contribuição decisiva para a arte brasileira ao transformar a cultura popular, a presença africana e a religiosidade afro-brasileira em temas centrais de sua produção. Suas obras ajudaram a ampliar a visibilidade do candomblé e de seus símbolos em uma época na qual as religiões de matriz africana ainda enfrentavam intensa perseguição e marginalização social.

Seu trabalho possui valor artístico, histórico e documental. As cenas de mercados, portos, terreiros, rodas de capoeira, festas e atividades de trabalho preservam aspectos da vida baiana do século XX. Ao mesmo tempo, sua linguagem visual não se limitou à simples reprodução da realidade, pois empregou linhas rápidas, figuras alongadas e composições rítmicas para transmitir movimento e expressividade.

A influência de Carybé também pode ser observada na ilustração editorial e na arte pública. Seus desenhos contribuíram para a identidade visual de obras literárias de Jorge Amado, Gabriel García Márquez e outros escritores. Já seus murais e painéis integraram a arte à arquitetura de bancos, aeroportos, edifícios públicos e instituições culturais.

Seu legado permanece associado à valorização das matrizes africanas na cultura brasileira e ao reconhecimento da Bahia como espaço de diversidade histórica e religiosa. Carybé não foi apenas um observador da cultura baiana, mas um participante de seu cotidiano, estabelecendo vínculos duradouros com as pessoas, os espaços e as comunidades que representou.

 

 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 13/07/2026