Patativa do Assaré
Quem foi
Patativa do Assaré (1909–2002), nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva, foi um poeta popular, compositor, cantador, improvisador e agricultor brasileiro. Considerado um dos maiores representantes da poesia oral nordestina do século XX, transformou as experiências do sertão em versos marcados pela musicalidade, pelo humor, pela religiosidade e pela crítica às desigualdades sociais. Embora tivesse frequentado a escola por poucos meses, desenvolveu amplo domínio das formas poéticas populares e também compôs textos próximos da tradição literária erudita.
Biografia
Antônio Gonçalves da Silva nasceu em 5 de março de 1909, no Sítio Serra de Santana, área rural do município de Assaré, no Ceará. Era o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva, pequenos proprietários rurais. Sua infância transcorreu em meio às atividades agrícolas, aos costumes sertanejos, às festas religiosas, às cantorias e às narrativas transmitidas oralmente entre os moradores da região.
Aos quatro anos de idade, perdeu a visão do olho direito em consequência de uma doença. Quando tinha oito anos, seu pai morreu, deixando a família em uma situação econômica difícil. Antônio passou a trabalhar na agricultura para ajudar no sustento doméstico e permaneceu ligado ao cultivo da terra durante grande parte da vida, mesmo depois de alcançar reconhecimento como poeta.
Sua formação escolar foi bastante breve. Por volta dos doze anos, frequentou uma escola local durante poucos meses, período em que aprendeu os fundamentos da leitura e da escrita. A pouca escolarização formal não impediu que desenvolvesse o hábito da leitura. Teve contato com folhetos de cordel, livros religiosos e obras de autores brasileiros e portugueses, ampliando progressivamente seu vocabulário e seus conhecimentos literários.
Aos dezesseis anos, comprou uma viola e começou a participar de festas, reuniões familiares e desafios de improvisação. Nessas ocasiões, apresentava versos próprios, realizava cantorias e respondia poeticamente a outros violeiros. Sua memória, sua capacidade de improvisação e sua facilidade para compor fizeram com que se tornasse conhecido nas comunidades próximas.
Em 1929, viajou para o Pará, onde permaneceu durante alguns meses. Nesse período, foi apresentado ao escritor e jornalista José Carvalho de Brito, que comparou sua voz e sua habilidade poética ao canto da patativa, ave conhecida pela sonoridade melodiosa. O apelido recebeu o complemento “do Assaré” para diferenciá-lo de outro cantador que também utilizava o nome Patativa. A partir de então, passou a apresentar-se como Patativa do Assaré.
Após retornar ao Ceará, continuou trabalhando na agricultura e participando de cantorias. Grande parte de sua produção era criada mentalmente enquanto realizava tarefas no campo. Como tinha pouca familiaridade com a escrita prolongada, memorizava os poemas e posteriormente os ditava para familiares, pesquisadores ou colaboradores. Essa forma de composição manteve sua poesia profundamente ligada à oralidade.
Patativa casou-se em 1936 com Belinha, nome pelo qual era conhecida Maria Pereira dos Santos. O casal teve vários filhos e viveu na região de Assaré. Sua rotina familiar esteve associada ao trabalho agrícola e às apresentações poéticas, sem que o poeta abandonasse definitivamente o ambiente rural que servia de referência para sua produção.
Durante a década de 1950, Patativa passou a declamar seus poemas em programas da Rádio Araripe, localizada no município cearense do Crato. Em uma dessas apresentações, foi ouvido pelo pesquisador e filólogo José Arraes de Alencar, que reconheceu a qualidade de seus versos e o incentivou a publicar um livro. Esse contato contribuiu para que sua poesia, até então preservada principalmente pela memória e pelas apresentações públicas, fosse registrada por escrito.
Em 1956, publicou seu primeiro livro, “Inspiração Nordestina”. A obra ampliou sua projeção no Ceará e foi posteriormente reeditada com novos textos. Mesmo com a publicação, continuou vivendo de maneira simples e trabalhando como agricultor. O reconhecimento nacional ocorreu de forma mais intensa na década de 1960, quando suas composições começaram a ser interpretadas por importantes nomes da música brasileira.
A gravação de “Triste Partida” por Luiz Gonzaga, em 1964, tornou Patativa conhecido em diferentes regiões do país. A canção alcançou grande repercussão ao narrar a migração de uma família sertaneja expulsa de sua terra pela seca e pela pobreza. Outros intérpretes também gravaram textos de sua autoria, aproximando sua poesia da música popular brasileira.
Patativa não exerceu cargos políticos, mas participou ativamente dos debates públicos de seu tempo. Durante a ditadura militar brasileira, iniciada em 1964, seus versos criticaram a repressão, a desigualdade e a falta de participação popular. Na década de 1980, apoiou a campanha pelas eleições diretas para presidente e compôs poemas relacionados à redemocratização do país e aos direitos políticos da população.
A partir da década de 1970, sua produção recebeu maior atenção de jornalistas, pesquisadores e universidades. Novas coletâneas foram publicadas, seus poemas passaram a ser estudados academicamente e o escritor recebeu homenagens em diferentes estados brasileiros. Também realizou apresentações em escolas, universidades, centros culturais, programas de rádio e televisão.
Ao longo da vida, Patativa recebeu títulos de doutor honoris causa concedidos por universidades, homenagens governamentais e reconhecimentos de instituições culturais. Mesmo consagrado nacionalmente, permaneceu morando em Assaré e preservou sua identidade de agricultor e poeta sertanejo. A ligação com sua cidade natal tornou-se parte fundamental de sua imagem pública.
Nos últimos anos de vida, enfrentou dificuldades de visão e audição, reduzindo suas apresentações. Patativa do Assaré morreu em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, em sua residência na cidade de Assaré.
Principais obras de Patativa do Assaré
“Inspiração Nordestina” (1956): foi o primeiro livro publicado pelo poeta e reuniu composições anteriormente preservadas pela memória e pela declamação. Os textos apresentam cenas da vida sertaneja, costumes regionais, reflexões religiosas, humor e críticas às injustiças sociais. A publicação foi decisiva para que sua produção ultrapassasse os limites das apresentações orais.
“Cantos de Patativa” (1966): a obra ampliou a divulgação dos poemas do autor e contribuiu para consolidar sua presença na literatura popular brasileira. Seus versos abordam o cotidiano dos trabalhadores rurais, as dificuldades provocadas pela seca, os contrastes sociais e a dignidade das populações pobres do Nordeste.
“Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino” (1978): considerada uma das coletâneas mais importantes de Patativa, reúne poemas sobre o sertão, a natureza, o trabalho agrícola, a religiosidade e as diferenças sociais. O título expressa a defesa do direito do sertanejo de falar sobre sua própria realidade, em oposição aos autores que descreviam o Nordeste sem conhecer diretamente a região.
“Ispinho e fulô” (1988): o título combina as ideias de sofrimento e beleza, representadas pelo espinho e pela flor. A coletânea apresenta as dificuldades da vida sertaneja, mas também valoriza a esperança, a solidariedade, a fé, o amor e a resistência dos trabalhadores rurais. A linguagem alterna formas populares e construções próximas da poesia erudita.
“Balceiro: Patativa e outros poetas de Assaré” (1991): organizada em colaboração com Geraldo Gonçalves de Alencar, a coletânea reúne poemas de Patativa e de outros autores populares ligados ao município de Assaré. O livro registra uma tradição poética coletiva e demonstra que a produção do escritor fazia parte de um ambiente cultural mais amplo, formado por cantadores, improvisadores e cordelistas.
“Cordéis” (1993): a publicação reúne textos associados à tradição da literatura de cordel, com narrativas rimadas, linguagem acessível e forte presença da oralidade. Os poemas tratam de acontecimentos políticos, tipos humanos, costumes sertanejos, episódios religiosos e problemas sociais, mantendo o tom crítico e bem-humorado característico do autor.
“Aqui tem coisa” (1994): nessa coletânea, Patativa apresenta poemas de caráter social, político, religioso e autobiográfico. O título sugere que os acontecimentos cotidianos possuem significados que precisam ser observados com atenção. A obra confirma sua capacidade de transformar situações aparentemente simples em reflexões sobre a sociedade brasileira.
“Biblioteca de cordel: Patativa do Assaré” (2000): a publicação reúne parte de seus folhetos e poemas populares, contribuindo para preservar textos que circularam oralmente ou em edições de pequena tiragem. O volume aproxima novos leitores da produção do autor e reafirma sua importância para a literatura de cordel e para a cultura nordestina.
“Balceiro 2: Patativa e outros poetas de Assaré” (2001): continuação do projeto publicado em 1991, apresenta novos textos de Patativa e de poetas populares de sua região. A coletânea amplia o registro da poesia produzida em Assaré e valoriza a criação coletiva existente nas comunidades rurais do Ceará.
“Ao pé da mesa” (2001): publicada no final da vida do poeta, a obra reúne conversas, lembranças e versos relacionados à sua trajetória. O livro preserva aspectos de sua expressão oral e aproxima o leitor do modo como Patativa narrava experiências, comentava acontecimentos e apresentava suas composições.
“Triste Partida”: um de seus poemas mais conhecidos, ganhou projeção nacional após ser gravado por Luiz Gonzaga em 1964. A composição narra a trajetória de uma família que abandona o sertão devido à seca e à falta de condições de sobrevivência. O texto denuncia a pobreza, a migração forçada e o sofrimento dos retirantes, sem retirar deles a dignidade.
“A terra é naturá”: o poema defende que a terra e seus recursos deveriam beneficiar aqueles que nela trabalham. Patativa critica a concentração fundiária e a desigualdade entre proprietários e agricultores, utilizando uma linguagem popular para discutir o direito à terra e a exploração do trabalhador rural.
“O poeta da roça”: nessa composição, o autor apresenta-se como um poeta ligado ao campo, distante dos ambientes acadêmicos e dos círculos literários urbanos. O texto valoriza o conhecimento adquirido pela experiência, pela observação da natureza e pelo contato direto com a vida sertaneja.
“Caboclo roceiro”: o poema dirige-se ao trabalhador rural pobre e denuncia sua situação de exploração. Embora seja responsável pela produção agrícola, o roceiro permanece sem acesso adequado à terra, à educação e aos direitos sociais. A composição associa solidariedade social e crítica às estruturas que mantêm a pobreza no campo.
“Brasi de cima e Brasi de baxo”: o texto representa o Brasil como uma sociedade dividida entre grupos privilegiados e populações submetidas à pobreza. O contraste entre os dois “Brasis” evidencia as diferenças de moradia, alimentação, trabalho e acesso ao poder, transformando a linguagem regional em instrumento de crítica social.
“Vaca Estrela e Boi Fubá”: a composição conta a história de um sertanejo que perde seus animais durante uma grande seca e precisa deixar sua terra. A lembrança da vaca Estrela e do boi Fubá simboliza a destruição de seu modo de vida. Posteriormente musicado e gravado por diferentes intérpretes, o poema tornou-se uma das expressões mais conhecidas da relação entre seca, perda e migração.
“Senhor doutor”: construído como uma fala dirigida a uma pessoa socialmente privilegiada, o poema expõe as dificuldades enfrentadas pelos pobres e trabalhadores. Patativa emprega a linguagem cotidiana para questionar as desigualdades e demonstrar que o saber popular também possui valor e capacidade de interpretar a realidade.
“Inleição direta 1984”: composto no contexto da campanha das Diretas Já, o poema defende o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República. A obra demonstra o envolvimento de Patativa com a redemocratização brasileira e sua capacidade de transformar acontecimentos políticos em versos acessíveis ao público popular.
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| Patativa do Assaré (estátua em Fortaleza, Ceará). |
Principais características de suas obras:
• Linguagem regional e popular: ficou conhecido por sua habilidade em capturar a essência da linguagem oral do sertão nordestino. Ele utilizava o dialeto regional em suas poesias, o que lhes dava autenticidade e uma conexão profunda com o povo daquela região. Essa característica fazia com que suas obras fossem facilmente reconhecíveis e muito apreciadas pelo público em geral, especialmente pela população do Nordeste brasileiro.
• Temática social e política: muitos dos poemas de Patativa do Assaré tratavam de temas sociais e políticos, especialmente a dura realidade do sertanejo nordestino. Ele abordava questões como a seca, a pobreza, a desigualdade social e a luta pela terra, sempre com um olhar crítico e, ao mesmo tempo, humanizado. Sua obra é um reflexo da realidade vivida por muitos nordestinos, e ele usava sua poesia como uma forma de denúncia e expressão política.
• Riqueza rítmica e melódica: ele tinha um talento especial para criar versos com uma rica musicalidade. Seus poemas muitas vezes eram feitos para serem recitados ou cantados, contendo uma cadência rítmica muito característica. Essa musicalidade é uma marca da tradição oral do sertão, e Patativa do Assaré a elevou a um nível de arte, tornando suas obras memoráveis e agradáveis ao ouvido.
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| Capa antiga de uma obra (cordel) de Patativa do Assaré |
Importância cultural
Patativa do Assaré valorizou a linguagem, os costumes, as experiências e os problemas sociais do sertão nordestino. Sua poesia demonstrou que a cultura popular, transmitida pela oralidade, pela cantoria e pelo cordel, possui elevado valor literário e histórico. Ao escrever sobre seca, migração, trabalho rural, religiosidade, pobreza e desigualdade, deu visibilidade às populações sertanejas e transformou suas vivências em parte relevante da cultura brasileira.
Sua trajetória também contribuiu para aproximar a tradição oral da literatura escrita e da música popular. Muitos de seus poemas foram publicados, declamados, estudados em escolas e universidades e interpretados por artistas como Luiz Gonzaga e Fagner. Dessa forma, Patativa ajudou a preservar a memória cultural do Nordeste e tornou-se símbolo da resistência, da criatividade e da dignidade do povo sertanejo.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 03/08/2026
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Bibliografia e vídeos indicados:
Fontes:
https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/patativa-do-assare/
Patativa do Assaré: agente do sagrado
CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré - um poeta cidadão. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
Vídeo indicado no YouTube:
A HISTÓRIA DE PATATIVA DO ASSARÉ - Canal do Almeida Junior Locutor


