Entrudo

 

O que foi o entrudo?


O entrudo foi uma antiga manifestação festiva de origem luso-ibérica praticada nos dias que antecediam a Quaresma cristã, especialmente entre a Idade Moderna e o século XIX. Seu nome está relacionado à ideia de “entrada” no período quaresmal, isto é, na preparação para os quarenta dias de penitência que antecediam a Páscoa. Em vez de assumir a forma organizada dos desfiles e blocos que hoje associamos ao carnaval, o entrudo era marcado por brincadeiras de rua, arremessos de água, farinha, pós e objetos improvisados, criando um ambiente de agitação coletiva, riso, desordem e confronto.

Mais do que uma simples diversão, o entrudo era uma prática social profundamente ligada à cultura popular. Durante alguns dias, as hierarquias do cotidiano pareciam afrouxar, permitindo comportamentos que, em outros momentos, seriam considerados excessivos ou inadequados. Por isso, o entrudo foi, ao mesmo tempo, tolerado como tradição e criticado como ameaça à ordem pública. Essa ambiguidade explica por que ele ocupou um lugar tão importante na formação histórica do carnaval em Portugal e no Brasil.



Origens europeias do entrudo

As raízes do entrudo remontam a antigas celebrações europeias ligadas ao fim do inverno e à expectativa da primavera, embora, com o avanço do cristianismo, essas práticas tenham sido reinterpretadas e incorporadas ao calendário religioso. Em Portugal, o entrudo consolidou-se entre os séculos XV e XVI como uma festa popular associada aos dias imediatamente anteriores à Quaresma. Era, portanto, um momento de permissividade temporária, em que a sociedade aceitava excessos, brincadeiras físicas e inversões simbólicas antes do período de jejum e recolhimento.

Em terras portuguesas, o entrudo assumiu formas variadas conforme a região. Em algumas localidades, predominavam brincadeiras com água e farinha; em outras, máscaras, sátiras e personagens grotescos. Essa diversidade mostra que o entrudo não era apenas um evento religioso, mas também uma expressão comunitária de longa duração, ligada ao calendário agrícola, ao mundo rural e às tradições populares. Com a expansão marítima portuguesa a partir do século XV, esse costume atravessou o Atlântico e foi transplantado para a América portuguesa, onde passaria por profundas transformações.



O entrudo no Brasil colonial (séculos XVI a XVIII)


O entrudo chegou ao Brasil com os portugueses ainda no período colonial, provavelmente entre o século XVI e o início do século XVII. Em pouco tempo, tornou-se uma das principais formas de diversão urbana e popular em diferentes capitanias e centros coloniais. Ao ser incorporado à vida colonial, ele deixou de ser apenas uma prática importada e passou a adquirir feições próprias, relacionadas à estrutura social, à escravidão, ao ambiente urbano e às dinâmicas culturais locais.

Nas cidades coloniais, o entrudo envolvia a participação de diferentes grupos sociais, ainda que de formas distintas. Havia um entrudo praticado pelas elites dentro das casas e sobrados, com brincadeiras consideradas mais “elegantes”, e outro, mais intenso e caótico, vivido nas ruas por setores populares. A sociedade escravista também marcou essa festa: pessoas escravizadas, libertas, trabalhadores pobres e membros das camadas médias urbanas participavam da folia, seja como agentes ativos da brincadeira, seja como alvos das tensões que ela produzia. Por isso, o entrudo colonial não pode ser entendido apenas como lazer, mas também como espaço de contato, conflito e negociação entre grupos sociais desiguais.



Práticas e costumes do entrudo


A característica mais conhecida do entrudo era a brincadeira corporal e material. Os foliões jogavam água uns nos outros, arremessavam farinha, pó, barro, ovos, frutas e pequenos recipientes cheios de líquidos. No Brasil, tornaram-se célebres os chamados “limões de cheiro”, pequenas bolas de cera ou recipientes frágeis preenchidos com água perfumada ou outros líquidos, lançados sobre amigos, desconhecidos e transeuntes. Em teoria, a brincadeira deveria ser divertida; na prática, muitas vezes ultrapassava os limites do consentimento e provocava acidentes, humilhações e conflitos.

O entrudo era, portanto, uma festa de rua baseada no contato físico, no improviso e na suspensão momentânea das convenções sociais. As pessoas saíam às janelas, ocupavam praças e becos, perseguiam conhecidos ou desconhecidos e transformavam a cidade em um palco de desordem ritualizada. Esse aspecto ajuda a compreender por que a festa era tão popular: ela permitia um uso diferente do espaço urbano, tornando a rua um território de irreverência e disputa simbólica.

Ao mesmo tempo, os costumes do entrudo revelavam desigualdades sociais. Nem todos podiam brincar da mesma maneira, e nem todos eram atingidos com o mesmo significado. Em uma sociedade profundamente hierarquizada, como a brasileira dos séculos XVIII e XIX, uma brincadeira podia representar divertimento para uns e humilhação para outros. Assim, os costumes do entrudo devem ser lidos historicamente, não apenas como folclore, mas como práticas que refletiam as relações de poder de sua época.



O entrudo no século XIX: popularidade e expansão urbana


Durante o século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, o entrudo atingiu enorme popularidade. A expansão das cidades, o crescimento populacional e a intensificação da vida pública urbana favoreceram a circulação dessa festa em ruas, largos e bairros centrais. Nesse contexto, o entrudo tornou-se um fenômeno social de grande visibilidade, associado ao cotidiano das camadas populares, mas também observado e, em certos casos, praticado pelas elites.

A presença da corte portuguesa no Brasil a partir de 1808 e a posterior formação do Império intensificaram as tensões em torno da festa. As cidades brasileiras, especialmente a capital imperial, passaram a ser alvo de projetos de “civilização” inspirados em padrões europeus. Nesse cenário, práticas consideradas espontâneas, ruidosas e corporais demais começaram a ser vistas como sinais de atraso. O entrudo, justamente por ocupar as ruas e envolver contato físico descontrolado, passou a ser apontado como símbolo de uma cultura popular que as elites urbanas desejavam reformar.

Ainda assim, sua permanência ao longo do século XIX mostra sua força cultural. Mesmo diante de críticas constantes, o entrudo continuou a ser praticado por décadas, o que indica que não se tratava de um simples costume passageiro, mas de uma tradição enraizada no calendário festivo da população.



Conflitos sociais e repressão ao entrudo


Um dos aspectos mais importantes para compreender historicamente o entrudo é o fato de ele ter sido alvo frequente de repressão. Desde o período colonial e, com mais intensidade, ao longo do século XIX, autoridades municipais, policiais, médicos higienistas, jornalistas e membros da elite letrada passaram a denunciar a festa como sinônimo de desordem, sujeira, violência e incivilidade. Em várias ocasiões, foram publicadas normas, alvarás, portarias e proibições destinadas a limitar ou extinguir a prática.

Essas críticas não eram apenas morais. Elas faziam parte de um projeto mais amplo de controle urbano e disciplinamento social. À medida que as cidades brasileiras buscavam se apresentar como modernas, ordeiras e “civilizadas”, festas populares como o entrudo passaram a ser vistas como incompatíveis com a nova imagem urbana desejada. A rua, que para o povo era espaço de convivência e celebração, passou a ser tratada pelas autoridades como espaço que precisava ser regulado, vigiado e higienizado.

Vale ressaltar também que a repressão ao entrudo tinha forte dimensão de classe. Muitas vezes, o alvo principal não era a brincadeira em si, mas a ocupação popular das ruas e a autonomia cultural das camadas subalternas. Assim, a condenação do entrudo revela não apenas uma mudança no gosto festivo, mas também uma disputa sobre quem tinha o direito de definir o uso legítimo da cidade e da festa.



A transição do entrudo para o carnaval moderno


A partir da segunda metade do século XIX, o entrudo começou a perder espaço para novas formas de celebração carnavalesca. Bailes de máscaras, sociedades carnavalescas, corsos, clubes e desfiles organizados passaram a ganhar prestígio entre as elites urbanas e, gradualmente, foram sendo incorporados ao calendário festivo das cidades. Esse processo não ocorreu de forma abrupta, mas como uma substituição lenta e desigual entre práticas populares antigas e modelos festivos considerados mais “civilizados”.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o carnaval começou a ser reformulado com forte influência de padrões europeus, sobretudo franceses. A ideia de festa passou a privilegiar fantasias, cortejos, música organizada e exibição pública controlada, em contraste com a espontaneidade física e agressiva do entrudo. Isso não significa que o povo tenha simplesmente abandonado suas formas de brincar, mas sim que o poder público, a imprensa e as elites passaram a valorizar e promover um novo tipo de carnaval.

Esse processo foi decisivo para a formação do carnaval brasileiro moderno. O entrudo não desapareceu sem deixar marcas. Ao contrário, ele foi uma das bases sobre as quais se construiu a cultura carnavalesca posterior. O que mudou foi a forma de organização da festa, sua aceitação social e os grupos que passaram a controlá-la simbolicamente. 



Entrudo, cultura popular e controle da cidade


O estudo do entrudo permite compreender um tema histórico muito importante: a relação entre cultura popular e poder. Ao longo da história, muitas festas populares foram toleradas enquanto serviam como válvula de escape social, mas reprimidas quando pareciam ameaçar a ordem urbana ou escapar ao controle das autoridades. O entrudo se encaixa perfeitamente nesse padrão histórico.

Durante sua existência, ele foi um espaço de riso, provocação e liberdade temporária. Contudo, também foi alvo de tentativas constantes de disciplinamento. Por isso, o entrudo não deve ser interpretado apenas como “bagunça” ou “brincadeira antiga”, mas como uma prática histórica que revela disputas sobre moralidade, civilidade, uso do corpo, ocupação do espaço público e definição do que seria uma festa legítima.

Sob essa perspectiva, o entrudo ajuda a compreender como o Brasil urbano do século XIX foi sendo reorganizado. O combate a certas festas populares fazia parte do mesmo movimento que buscava reformar ruas, comportamentos e hábitos cotidianos. Em outras palavras, a história do entrudo também é a história da tentativa de transformar a cidade e de controlar seus habitantes.



Legado cultural do entrudo


Embora tenha perdido espaço como prática dominante entre o final do século XIX e o início do século XX, o entrudo deixou marcas duradouras na cultura brasileira. Seu legado pode ser percebido no espírito de irreverência, na valorização da rua como espaço de festa, na suspensão temporária de normas e no gosto pela brincadeira coletiva que ainda caracterizam muitas manifestações carnavalescas. Em alguns casos, certos elementos materiais da antiga festa, como os líquidos perfumados e os pós, foram transformados e ressignificados ao longo do tempo.

Mais importante do que identificar sobrevivências exatas é compreender que o entrudo foi um dos alicerces históricos do carnaval brasileiro. Antes das escolas de samba, dos trios elétricos, dos blocos contemporâneos e dos grandes desfiles, havia uma tradição festiva marcada pelo improviso, pela ocupação popular da cidade e pela inversão temporária da rotina. Nesse sentido, o entrudo representa uma etapa fundamental da história das festas no Brasil.


Pintura mostrando o entrudo no Brasil do século XIX

Pintura de Debret mostrando uma cena do Entrudo no século XIX.

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 04/04/2026