Mikhail Bakhtin

 

Quem foi Mikhail Bakhtin

Mikhail Bakhtin (1895–1975) foi um filósofo e teórico russo da linguagem que estudou como as pessoas constroem sentidos na relação com os outros. Nos estudos literários, examinou a convivência entre vozes nos romances e a relação dos escritores com a cultura popular. Professores e pesquisadores também utilizam seus conceitos para analisar a comunicação cotidiana e o ensino da língua.

Nascido em Oriol, no Império Russo, Bakhtin viveu a Revolução de 1917 e passou parte da vida sob o regime soviético. Participou de encontros intelectuais em Nevel e Vitebsk, nos quais discutiu filosofia e criação artística. Estudiosos passaram a chamar essas redes de convivência de Círculo de Bakhtin, embora os participantes tivessem pesquisas próprias.

As autoridades soviéticas o prenderam em 1928. Após a condenação, cumpriu exílio interno no Cazaquistão. Trabalhou como professor e desenvolveu parte da carreira em Saransk, distante dos centros editoriais de Moscou e Leningrado. Na década de 1960, pesquisadores mais jovens contribuíram para a republicação de seus estudos e para a circulação de manuscritos que permaneciam inéditos.



Principais ideias: dialogismo e enunciado

Bakhtin examinou a linguagem a partir dos enunciados: falas ou textos produzidos por alguém em uma situação de comunicação. Ao enunciar, uma pessoa retoma palavras que outros já usaram e considera as respostas de seus interlocutores. Para interpretar uma fala, o pesquisador precisa observar a posição de quem fala e a relação que mantém com seu destinatário.

O dialogismo designa essa relação com a palavra alheia. Mesmo ao escrever sozinho, um autor responde a posições anteriores e antecipa objeções. Um estudante que redige uma resenha, por exemplo, conversa com o livro lido e com as expectativas do professor. Pode concordar com uma interpretação ou contestá-la, ajustando sua maneira de argumentar.

As relações dialógicas também envolvem conflito. Pessoas que empregam a mesma palavra podem atribuir a ela avaliações opostas. Em uma discussão sobre disciplina escolar, professores e alunos podem disputar o sentido de respeito. O analista acompanha quem emprega o termo e a quais comportamentos cada participante o associa.



Polifonia e heterodiscurso

Ao interpretar os romances de Fiódor Dostoiévski, Bakhtin formulou o conceito de polifonia. O escritor organiza o encontro de personagens cujas consciências conservam uma voz própria, sem reduzi-las a ilustrações de uma tese do narrador. Suas posições permanecem em confronto durante a narrativa, e o leitor acompanha argumentos que o autor evita encerrar em uma única explicação.

Bakhtin atribuiu essa construção artística a Dostoiévski. Ter muitos personagens ou alternar narradores, por si só, é insuficiente para caracterizar um romance como polifônico. O pesquisador deve examinar a relação do autor com a consciência de cada personagem.

Heterodiscurso, também traduzido como plurilinguismo ou heteroglossia, refere-se à diversidade social dos modos de falar dentro de uma língua. Um romancista pode colocar em contato o vocabulário jurídico e a fala cotidiana de um acusado, cada qual carregado de avaliações. A polifonia concerne à organização das consciências no romance; o heterodiscurso, às linguagens sociais que os falantes mobilizam.



Gêneros do discurso

Os falantes aprendem a participar de situações recorrentes por meio de gêneros do discurso, que Bakhtin definiu como tipos relativamente estáveis de enunciados. Ao escrever uma carta de reclamação, alguém seleciona o assunto e organiza os argumentos conforme a relação com o destinatário. As convenções orientam a escrita, mas os participantes podem modificá-las.

Bakhtin distinguiu gêneros primários, formados na comunicação cotidiana, e secundários, elaborados em atividades culturais mais complexas. Uma conversa familiar pode integrar o primeiro grupo; um romance pertence ao segundo. Ao inserir uma conversa em sua narrativa, o romancista a reelabora dentro de um projeto artístico. Essa distinção envolve as condições de produção, e sua aplicação exige mais cuidado do que separar textos curtos de textos longos.



Carnavalização e cronotopo

Nos estudos sobre François Rabelais, Bakhtin analisou festas em que os participantes parodiavam autoridades e invertiam hierarquias. Chamou de carnavalização a reelaboração literária dessa experiência festiva. Examinou também o realismo grotesco, com sua ênfase no corpo aberto ao mundo: comer e dar à luz, por exemplo, aproximam a existência corporal de processos coletivos de renovação.

Para estudar a narrativa, empregou ainda o conceito de cronotopo, referente à articulação entre tempo e espaço na literatura. No cronotopo da estrada, os personagens viajam e encontram pessoas que dificilmente conheceriam em sua vida habitual. Ao escolher esse espaço e organizar a duração do percurso, o escritor estabelece condições para encontros que alteram a história.



Alteridade e responsabilidade

Bakhtin tratou a alteridade como parte da experiência humana: cada pessoa ocupa uma posição que os outros não podem ocupar em seu lugar, mas depende deles para conhecer aspectos de si. Na relação entre autor e personagem, discutiu o excedente de visão: de fora, o autor enxerga aspectos da existência da personagem que ela própria não alcança.

Em seus escritos filosóficos iniciais, sustentou que cada indivíduo responde pelos atos que pratica em situações concretas. Quem toma uma decisão não pode transferir toda a responsabilidade para uma regra abstrata. Essa reflexão sobre o ato responsável antecedeu seus estudos mais conhecidos sobre o romance.



Obras principais: o estudo sobre Dostoiévski

Em "Problemas da obra de Dostoiévski", publicado em 1929, Bakhtin apresentou sua interpretação do romance polifônico. Ao examinar como o escritor compunha os confrontos entre personagens, discutiu a autonomia de suas vozes diante do autor.

Reviu e ampliou esse livro, que reapareceu em 1963 como "Problemas da poética de Dostoiévski". Acrescentou uma discussão mais extensa sobre tradições de gênero e carnavalização. Na leitura da edição revista, o pesquisador encontra tanto o debate sobre a polifonia quanto o estudo das formas literárias que Dostoiévski reelaborou.



O livro sobre Rabelais

Publicado em russo em 1965, "A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais" resultou de uma pesquisa desenvolvida décadas antes. Bakhtin interpretou "Gargântua e Pantagruel" em relação ao riso festivo e às práticas da praça pública. Leu os exageros corporais e as paródias de Rabelais como parte de uma cultura que colocava autoridades sob o olhar crítico dos participantes da festa.



Ensaios sobre o romance e a criação verbal

"Questões de literatura e de estética: a teoria do romance", coletânea publicada em russo em 1975, reúne estudos escritos em momentos anteriores. Bakhtin examina a diversidade das linguagens sociais e a construção narrativa do tempo e do espaço. Os ensaios permitem acompanhar suas análises do heterodiscurso e do cronotopo em tradições do romance.

"Estética da criação verbal", organizada postumamente e publicada em russo em 1979, reúne textos de épocas distintas. O leitor encontra reflexões sobre a relação entre autor e personagem e o ensaio sobre os gêneros do discurso. Por ser uma coletânea, o volume exige atenção às datas de redação: seus textos pertencem a etapas diferentes da pesquisa de Bakhtin.

"Para uma filosofia do ato responsável" preserva um manuscrito incompleto do início da década de 1920, publicado em russo em 1986. Nele, Bakhtin investiga a singularidade da ação humana e a responsabilidade de quem age. A data de publicação tardia não deve levar o leitor a situá-lo entre os escritos finais do autor.

 

Foto de Mikhail Bakhtin
 Mikhail Bakhtin: filósofo e teórico russo da linguagem, conhecido por seus estudos sobre dialogismo, polifonia e relações entre linguagem e sociedade.



Quem influenciou seu pensamento?

Bakhtin dialogou com a filosofia de Immanuel Kant, sobretudo ao discutir o sujeito e a responsabilidade moral. Conheceu também o neokantismo de Hermann Cohen. Em vez de limitar a reflexão ética a princípios gerais, dedicou-se à participação singular de quem age em um acontecimento concreto.

Matvei Kagan, que estudara filosofia na Alemanha, foi um interlocutor de suas discussões filosóficas. Pesquisadores também identificam aproximações entre os estudos de Bakhtin sobre cultura e as formas simbólicas de Ernst Cassirer. O grau dessas relações varia conforme o texto analisado; semelhanças conceituais precisam ser distinguidas de empréstimos documentados.

Na literatura, Dostoiévski forneceu o ponto de partida para a formulação da polifonia, enquanto Rabelais orientou sua pesquisa sobre o riso popular. Bakhtin também debateu com o formalismo russo, cujos estudiosos analisavam os procedimentos da criação literária. Ao discutir suas propostas, insistiu nas relações entre a obra e a vida social.

Valentin Volóchinov e Pável Medviédev participaram de seu ambiente intelectual e desenvolveram estudos sobre linguagem e literatura. A convivência favoreceu trocas de ideias, mas cada autor publicou trabalhos sob seu próprio nome. Atribuir toda a produção desse grupo a Bakhtin apaga diferenças entre suas pesquisas.



Quem foi influenciado por Bakhtin?

 

Mikhail Bakhtin influenciou importantes estudiosos da linguagem e da literatura, como Julia Kristeva, que desenvolveu o conceito de intertextualidade, e Tzvetan Todorov, responsável por divulgar suas ideias sobre dialogismo e as relações entre diferentes vozes nos discursos.

Na filosofia e na crítica literária, Michael Holquist aprofundou os estudos sobre o dialogismo, enquanto Gary Saul Morson explorou conceitos bakhtinianos relacionados ao romance, ao tempo e à polifonia, especialmente nas obras de Dostoiévski.

Na educação e na análise do discurso, James Wertsch utilizou as ideias de Bakhtin para investigar as relações entre linguagem e pensamento. No Brasil, Beth Brait destacou-se nos estudos sobre o dialogismo e a influência dos contextos históricos e sociais na produção dos discursos.



Críticas recebidas

Historiadores questionaram o alcance das generalizações de Bakhtin sobre o carnaval medieval e renascentista. Natalie Zemon Davis e Emmanuel Le Roy Ladurie estudaram festas que podiam abrigar conflitos e perseguições. Esses trabalhos exigem distinguir a inversão ritual de hierarquias das condições de vida depois da festa: os participantes podiam ridicularizar uma autoridade e continuar submetidos a ela.

A crítica feminista examinou quem tinha acesso à liberdade festiva descrita por Bakhtin. Mary Russo e Kate Chedgzoy discutiram as diferenças entre as experiências de homens e mulheres e os sentidos atribuídos ao corpo feminino. Sob essa perspectiva, tratar o povo como um conjunto homogêneo dificulta reconhecer desigualdades entre os próprios participantes.

Na interpretação de Dostoiévski, críticos discutem até onde as personagens preservam autonomia diante do projeto do escritor. Leituras que destacam a orientação cristã de seus romances questionam o peso atribuído ao carnaval e à abertura entre vozes. O debate envolve os critérios usados para reconhecer uma voz independente e o alcance das escolhas do autor na composição.

Outra controvérsia envolve a autoria de livros associados ao Círculo. Jean-Paul Bronckart e Cristian Bota contestaram as atribuições a Bakhtin de textos publicados por seus interlocutores; outros estudiosos criticaram o tom e parte das conclusões dessa contestação. "Marxismo e filosofia da linguagem", assinado por Volóchinov, e "O método formal nos estudos literários", assinado por Medviédev, devem ser apresentados com essas autorias, sem afirmar como fato estabelecido que Bakhtin os escreveu.



Você Sabia?

• Bakhtin defendeu seu trabalho sobre Rabelais em 1946. Após anos de tramitação, recebeu em 1952 o grau soviético de candidato em ciências filológicas, em vez do grau superior de doutor que parte dos avaliadores havia proposto.


• Em 1967, as autoridades soviéticas reabilitaram Bakhtin, décadas depois da condenação que o levara ao exílio interno.

 

 


 

 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP).

Publicado em 15/10/2026