O Nacionalismo no Século XIX

 

O que foi o Nacionalismo no século XIX?


O nacionalismo no século XIX foi uma das ideologias mais influentes no cenário político e cultural da Europa e do mundo. Originado a partir dos ideais iluministas e fortalecido após as Guerras Napoleônicas, o nacionalismo se consolidou como uma força que inspirou unificações territoriais, revoltas populares, movimentos de independência e transformações profundas nos Estados-nação. O século XIX assistiu à ascensão do sentimento nacional como um elemento de identidade coletiva, muitas vezes associado à língua, à história comum, à cultura e à soberania de um povo.



Contexto histórico do Nacionalismo no século XIX


O nacionalismo se desenvolveu em um contexto de grandes transformações sociais e políticas. Após a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, a Europa foi reorganizada pelo Congresso de Viena (1815), que visava restaurar as antigas monarquias e conter os ideais revolucionários. Contudo, o espírito nacionalista não desapareceu. Pelo contrário, espalhou-se ainda mais, influenciado pelo romantismo, que valorizava as tradições populares, e pela emergência da burguesia como força política. Além disso, a Revolução Industrial intensificou os interesses econômicos e estratégicos dos Estados, que passaram a buscar a unificação e o fortalecimento interno para competir no cenário internacional.



Características do Nacionalismo no século XIX:


Ênfase na identidade cultural: o nacionalismo valorizava os elementos distintivos de um povo, como a língua, a religião, os costumes e os mitos fundadores.


Sentimento de pertencimento: a nação era vista como uma comunidade emocional e política, à qual os indivíduos deviam lealdade.


Aspiração à soberania: os nacionalistas defendiam que cada povo deveria ter o direito de formar seu próprio Estado independente, livre de dominação estrangeira.


Luta contra impérios plurinacionais: o nacionalismo gerou tensões dentro de impérios como o Austro-Húngaro e o Otomano, cujas populações eram compostas por diversos grupos étnicos com aspirações distintas.


Fomento à unificação: movimentos nacionalistas impulsionaram a criação de Estados nacionais centralizados, como no caso da Alemanha e da Itália.



As unificações da Itália e da Alemanha



Dois dos eventos mais marcantes do nacionalismo no século XIX foram as unificações da Itália e da Alemanha. Ambos os processos representaram a vitória do ideal nacionalista sobre a fragmentação política herdada de séculos anteriores.


Na Itália, o movimento de unificação, também chamado de "Risorgimento", foi liderado por figuras como Giuseppe Mazzini, Giuseppe Garibaldi e o estadista Camillo di Cavour. A unificação foi concluída em 1870 com a incorporação dos Estados Pontifícios ao Reino da Itália.


Na Alemanha, o processo foi conduzido pelo chanceler Otto von Bismarck, que usou uma combinação de diplomacia e guerras estratégicas contra Dinamarca, Áustria e França para unificar os diversos estados germânicos sob a liderança da Prússia. O Império Alemão foi proclamado em 1871 no Palácio de Versalhes.



Nacionalismo e movimentos de independência


Fora da Europa, o nacionalismo também inspirou movimentos de libertação nacional nas colônias. Na América Latina, os ideais nacionalistas se misturaram aos de emancipação política, resultando nas lutas pela independência frente ao domínio espanhol e português. Líderes como Simón Bolívar, José de San Martín e Dom Pedro I utilizaram elementos do nacionalismo para legitimar os novos Estados formados.


Na Grécia, o nacionalismo foi central na luta contra o Império Otomano, resultando na independência grega em 1830. Na Hungria, Polônia e nos Bálcãs, os movimentos nacionalistas questionavam a dominação dos impérios multinacionais e buscavam o reconhecimento de suas culturas e territórios.



Nacionalismo e conservadorismo


Embora o nacionalismo tenha inicialmente se associado a ideais liberais, como autodeterminação e soberania popular, com o tempo passou a dialogar com tendências conservadoras. Muitos monarcas e elites políticas europeias perceberam que o nacionalismo poderia ser usado como ferramenta de fortalecimento do poder central e de unificação social. Assim, o nacionalismo do século XIX assumiu múltiplas formas, tanto progressistas quanto autoritárias.



O papel do Romantismo na difusão do nacionalismo


O Romantismo, movimento artístico e cultural do século XIX, teve papel fundamental na consolidação do nacionalismo. Os românticos exaltavam o passado medieval, os heróis nacionais, os costumes populares e a natureza local. Essa valorização dos elementos históricos e culturais específicos de cada povo forneceu uma base simbólica importante para a formação das identidades nacionais.

 

Pintura Liberdade Guiando o Povo

A obra "Liberdade Guiando o Povo", pintada por Eugène Delacroix em 1830, é uma expressão emblemática da convergência entre o romantismo e o nacionalismo no século XIX. Inserida no contexto da Revolução de Julho na França, a pintura representa de forma alegórica a luta popular pela liberdade, tendo como figura central uma mulher que simboliza a Nação francesa, empunhando a bandeira tricolor e conduzindo o povo à revolta. O romantismo se manifesta na dramaticidade da cena, na exaltação do heroísmo e na valorização das emoções coletivas, enquanto o nacionalismo aparece no ideal de unidade e autodeterminação popular representado pelos diversos personagens que acompanham a figura central, oriundos de diferentes classes sociais. Assim, Delacroix não apenas retrata um evento político, mas celebra o sentimento nacional e a construção da identidade francesa sob os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.





Consequências do nacionalismo no século XIX:


Redesenho do mapa europeu: a formação de novos Estados e a dissolução de estruturas imperiais alteraram profundamente as fronteiras do continente.


Estímulo ao imperialismo: a exaltação da nação, combinada à busca por prestígio internacional, impulsionou a corrida imperialista na África e na Ásia.


Conflitos e guerras: o nacionalismo alimentou rivalidades entre potências e contribuiu para a instabilidade política, sendo uma das causas indiretas da Primeira Guerra Mundial.


Consolidação dos Estados-nação: o nacionalismo foi essencial para a construção de instituições nacionais, como escolas, exércitos e sistemas jurídicos unificados.



Nacionalismo e exclusão


Apesar de sua força mobilizadora, o nacionalismo também gerou práticas excludentes. Muitas vezes, os Estados nacionais promoveram políticas de assimilação forçada ou repressão contra minorias étnicas, religiosas e linguísticas, visando à homogeneização cultural. Essa face excludente do nacionalismo gerou conflitos internos e preconceitos que perduraram ao longo do século XX.





 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 27/07/2025