Revolta da Chibata

 

O que foi

 

A Revolta da Chibata foi um movimento de marinheiros ocorrido no Rio de Janeiro, entre 22 e 27 de novembro de 1910, durante o governo de Hermes da Fonseca. Liderados por João Cândido Felisberto, os revoltosos tomaram o controle de importantes navios de guerra e exigiram o fim dos castigos físicos, especialmente das chibatadas, melhores condições de trabalho e anistia aos participantes. Após a promessa do governo de atender às reivindicações, os marinheiros encerraram a revolta, mas muitos foram posteriormente presos, expulsos da Marinha ou mortos.

 

Contexto histórico

 

No início do século XX, a Marinha do Brasil passava por um processo de modernização, marcado pela compra de navios de guerra, como os encouraçados “Minas Gerais” e “São Paulo”. Apesar dos avanços tecnológicos, as relações de trabalho dentro da instituição permaneciam autoritárias e excludentes. Grande parte dos marinheiros era formada por homens negros, muitos deles pobres e descendentes de escravizados, submetidos a baixos salários, alimentação precária, jornadas exaustivas e disciplina rígida.

Mesmo após a abolição da escravidão, em 1888, a Marinha continuava aplicando castigos físicos, especialmente as chibatadas, como forma de punição. Essa prática evidenciava a permanência de estruturas sociais herdadas do período escravista durante a Primeira República (1889–1930). A insatisfação aumentou diante do contraste entre os modernos navios brasileiros e as condições desumanas enfrentadas pelos marinheiros, criando o ambiente que levou à Revolta da Chibata, iniciada no Rio de Janeiro em 22 de novembro de 1910.



As principais causas da Revolta da Chibata foram:

 

• Neste período, os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas (chicotadas). Esta situação gerou uma intensa revolta entre os marinheiros.

 

• A Marinha brasileira, como muitas outras instituições do país naquela época, era marcada por profundas desigualdades raciais e de classe. Os oficiais eram predominantemente brancos e de classes sociais mais altas, enquanto a maioria dos marinheiros era de negros ou mestiços, oriundos de classes sociais mais baixas. Essa disparidade alimentava um ambiente de tensão e ressentimento.

 

• Além dos castigos físicos, os marinheiros também enfrentavam condições de trabalho extremamente duras, com longas jornadas, alojamentos inadequados e alimentação de baixa qualidade.

 

• Influenciados pelos avanços sociais e condições de trabalho mais humanas observadas em marinhas de países mais desenvolvidos (principalmente países da Europa e EUA), os marinheiros brasileiros começaram a questionar por que não poderiam ter tratamento similar.

 

• O estopim da revolta ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta. 

 

Como foi


O motim começou na noite de 22 de novembro de 1910, a bordo do encouraçado “Minas Gerais”, após a aplicação de 250 chibatadas ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. Durante a revolta, os marinheiros tomaram o controle da embarcação e mataram o comandante João Batista das Neves e outros três oficiais. Em seguida, o movimento se espalhou para outros navios da Marinha, entre eles o encouraçado “São Paulo”, o cruzador “Bahia” e o navio “Deodoro”.

Reunidos na Baía de Guanabara, os revoltosos apontaram os canhões das embarcações para a cidade do Rio de Janeiro e ameaçaram bombardear a então capital federal caso suas exigências não fossem atendidas. Liderados por João Cândido Felisberto, conhecido como Almirante Negro, os marinheiros reivindicavam o fim dos castigos físicos, melhores condições de trabalho e anistia aos participantes do movimento. A presença dos navios armados criou um clima de grande tensão e obrigou o governo a negociar.


Principais reivindicações dos marinheiros



João Cândido Felisberto, conhecido como Almirante Negro, participou da elaboração de uma carta enviada ao governo federal em nome dos marinheiros revoltosos. O documento exigia o fim imediato dos castigos físicos, especialmente das chibatadas, a melhoria da alimentação, condições de trabalho mais dignas e a concessão de anistia a todos os participantes da revolta.

Os marinheiros também denunciaram os maus-tratos, a disciplina excessivamente rígida e o tratamento desigual existente na Marinha. Caso as reivindicações não fossem atendidas, ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, com os canhões dos navios que estavam sob seu controle. A ameaça obrigou o governo do presidente Hermes da Fonseca a negociar com os revoltosos.

 

Marinheiros e um navio tomado durante a Revolta da Chibata

Marinheiros assumiram navios da Marinha durante a Revolta da Chibata.



Segunda revolta

 

Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras.


As principais consequências foram:

 

• A segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram presos em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Neste local, onde as condições de vida eram desumanas, alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.

 

• O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta.

 

• Após o motim, a Marinha Brasileira parou de usar castigos físicos para punir os marinheiros.

 

João Cândido lendo o manifesto ao lado de um marinheiro

João Cândido, líder do movimento (a direita) lendo o manifesto ao lado de um marinheiro.




Conclusão

 

Podemos considerar a Revolta da Chibata como mais uma manifestação de insatisfação ocorrida no início da República. Embora pretendessem implantar um sistema político-econômico moderno no país, os republicanos trataram os problemas sociais como “casos de polícia”. Não havia negociação ou busca de soluções com entendimento. O governo quase sempre usou a força das armas para colocar fim às revoltas, greves e outras manifestações populares.

 




Autor: Professor Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
/Atualizado em 27/07/2026