Cativeiro de Avignon
O que foi
O Cativeiro de Avignon, também conhecido como Papado de Avignon, foi o período entre 1309 e 1377 em que os papas da Igreja Católica estabeleceram sua residência em Avignon, cidade situada no sul da atual França, em vez de permanecerem em Roma. Durante esses 68 anos, sete papas sucessivos residiram em Avignon, todos de origem francesa. A expressão “cativeiro” não significa que os pontífices estivessem literalmente presos. Ela foi empregada posteriormente de maneira crítica para destacar a forte influência exercida pela monarquia francesa sobre o papado naquele período.
Contexto histórico
No início do século XIV, a Europa Ocidental passava por importantes transformações políticas. As monarquias, especialmente a francesa, ampliavam sua capacidade administrativa, militar e tributária. Ao mesmo tempo, a autoridade política do papado, que havia alcançado grande influência durante parte da Idade Média, enfrentava crescente resistência dos reis.
Um dos episódios que evidenciaram essa disputa envolveu o papa Bonifácio VIII, cujo pontificado ocorreu entre 1294 e 1303, e o rei Filipe IV da França, conhecido como Filipe, o Belo. O monarca francês procurava ampliar a arrecadação de seu reino e pretendia cobrar tributos do clero. Bonifácio VIII defendia a autoridade papal diante das interferências dos governantes seculares e entrou em forte conflito com o rei francês.
A disputa atingiu seu ponto mais grave em 1303, quando agentes ligados a Filipe IV participaram do chamado Atentado de Anagni. Bonifácio VIII foi capturado e agredido, embora tenha sido libertado pouco depois. O papa morreu ainda naquele ano. O episódio demonstrou que o poder político das monarquias estava se fortalecendo e que o papado encontrava dificuldades para impor sua autoridade aos reis europeus.
Após o breve pontificado de Bento XI (1303–1304), foi eleito em 1305 o francês Clemente V. Em meio às tensões existentes em Roma e à influência francesa, o novo papa não estabeleceu sua residência na cidade italiana. Em 1309, instalou a corte pontifícia em Avignon, iniciando o período conhecido como Cativeiro de Avignon.
Causas
• Conflito entre papado e monarquia francesa: as disputas entre Bonifácio VIII e Filipe IV enfraqueceram politicamente o papado e favoreceram o crescimento da influência francesa sobre a Igreja.
• Fortalecimento das monarquias: reis europeus procuravam exercer maior controle sobre seus territórios, suas receitas e o próprio clero estabelecido em seus reinos.
• Instabilidade política em Roma: conflitos entre famílias aristocráticas e grupos políticos tornavam a cidade insegura e dificultavam o funcionamento regular da administração pontifícia.
• Eleição de Clemente V: a escolha de um papa francês em 1305 aproximou ainda mais o centro de decisões da Igreja dos interesses políticos existentes na França.
• Necessidade de maior segurança: Avignon oferecia condições políticas e geográficas consideradas mais favoráveis para o funcionamento da corte pontifícia naquele momento.
O que ocorreu durante o processo
A instalação dos papas em Avignon não significou uma interrupção das atividades da Igreja. Pelo contrário, durante esse período ocorreu uma importante reorganização administrativa da Cúria Romana. A administração pontifícia tornou-se mais centralizada e foram aperfeiçoados mecanismos destinados à arrecadação de recursos e ao controle das nomeações eclesiásticas.
Entre 1309 e 1377, sete papas governaram a Igreja a partir de Avignon: Clemente V (1305–1314), João XXII (1316–1334), Bento XII (1334–1342), Clemente VI (1342–1352), Inocêncio VI (1352–1362), Urbano V (1362–1370) e Gregório XI (1370–1378). Embora Clemente V tenha iniciado o período, a construção do monumental Palácio dos Papas ocorreu principalmente durante os pontificados de Bento XII e Clemente VI.
A proximidade geográfica com a França e o fato de os sete papas do período serem franceses contribuíram para a percepção de que o papado estava excessivamente subordinado aos interesses da monarquia francesa. Essa situação provocou críticas em diferentes partes da Europa e prejudicou a imagem universal que a Igreja procurava atribuir à autoridade pontifícia.
Outro acontecimento importante esteve relacionado à Ordem dos Templários. Filipe IV, interessado também nas riquezas e propriedades da ordem, promoveu a perseguição de seus integrantes. Sob forte pressão política, Clemente V suprimiu oficialmente a Ordem dos Templários em 1312. O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos da influência política exercida pela monarquia francesa sobre as decisões do papado naquele contexto.
Apesar das críticas, Avignon transformou-se em importante centro político, administrativo, religioso e cultural. A presença da corte pontifícia atraiu clérigos, diplomatas, comerciantes, artistas e intelectuais, provocando crescimento urbano e econômico.
Os papas do período do Cativeiro de Avignon
Durante o Cativeiro de Avignon, entre 1309 e 1377, sete papas governaram a Igreja Católica a partir de Avignon. Todos eram de origem francesa, o que reforçou, entre seus críticos, a percepção de que o papado estava excessivamente próximo dos interesses da monarquia francesa.
Clemente V (1305–1314)
Clemente V, nascido Bertrand de Got, foi o papa que deu início ao período do Papado de Avignon. Eleito em 1305, não chegou a estabelecer sua corte em Roma e, em 1309, instalou a sede pontifícia em Avignon. Seu pontificado foi marcado pela forte influência do rei francês Filipe IV. Sob pressão da monarquia francesa, Clemente V suprimiu a Ordem dos Templários em 1312, durante o Concílio de Vienne. Sua decisão de permanecer fora de Roma criou as condições para que os papas seguintes continuassem governando a partir de Avignon.
João XXII (1316–1334)
Após um período de aproximadamente dois anos sem papa, João XXII foi eleito em 1316. Durante seu longo pontificado, fortaleceu a administração da Igreja e ampliou os mecanismos de arrecadação financeira do papado. Também entrou em conflitos políticos com governantes europeus, principalmente com Luís IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Sua atuação contribuiu para transformar Avignon em um importante centro administrativo e diplomático da Igreja.
Bento XII (1334–1342)
Bento XII procurou promover reformas internas, especialmente entre ordens religiosas e membros do clero. Também tentou reduzir alguns abusos administrativos existentes na Igreja. Durante seu pontificado teve início, em 1335, a construção do Palácio dos Papas de Avignon, que se tornou a principal residência dos pontífices na cidade. Embora tenha considerado a possibilidade de retornar a Roma, as condições políticas italianas contribuíram para sua permanência em Avignon.
Clemente VI (1342–1352)
Clemente VI manteve uma corte pontifícia luxuosa e transformou Avignon em um importante centro cultural e artístico. Seu pontificado coincidiu com a Peste Negra, que atingiu a Europa entre 1347 e 1351. Durante a epidemia, o papa tomou medidas de assistência aos doentes e condenou perseguições realizadas contra comunidades judaicas, frequentemente acusadas de provocar a doença. Em 1348, adquiriu oficialmente Avignon da rainha Joana I de Nápoles, consolidando o domínio papal sobre a cidade.
Inocêncio VI (1352–1362)
Inocêncio VI procurou reduzir os elevados gastos da corte pontifícia e promover maior disciplina administrativa. Também trabalhou para recuperar o controle dos Estados Pontifícios na Península Itálica, onde a autoridade do papa havia enfraquecido durante sua ausência. Para isso, enviou representantes e forças políticas à região. Essas iniciativas ajudaram a preparar as condições para um possível retorno do papado a Roma.
Urbano V (1362–1370)
Urbano V tentou efetivamente restabelecer a sede pontifícia em Roma. Em 1367, deixou Avignon e instalou-se na cidade italiana. Entretanto, conflitos políticos na Península Itálica e dificuldades para manter sua autoridade fizeram com que retornasse a Avignon em 1370. Morreu poucos meses depois. Apesar do fracasso, sua tentativa demonstrou que a permanência dos papas na França começava a ser considerada cada vez menos adequada.
Gregório XI (1370–1378)
Gregório XI foi o último papa do período de Avignon. Pressionado por problemas políticos na Itália e por defensores do retorno do papado a Roma, entre eles Catarina de Siena, decidiu abandonar Avignon. Em 1376 iniciou a viagem para a Itália e chegou a Roma em janeiro de 1377. Com isso, encerrou-se oficialmente o Cativeiro de Avignon. Gregório XI morreu em março de 1378, e a disputa pela sua sucessão contribuiu diretamente para o início do Grande Cisma do Ocidente, que durou de 1378 a 1417.
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| Gregório XI: último papa do período do Cativeiro de Avignon. |
Fim do Cativeiro de Avignon
Durante o século XIV, aumentaram as pressões para que o papa retornasse a Roma. Parte dos membros da Igreja considerava que a ausência prolongada enfraquecia a autoridade pontifícia na Península Itálica e prejudicava o prestígio do papado.
Personalidades religiosas também defenderam o retorno. Entre elas destacou-se Catarina de Siena (1347–1380), que manteve contato com o papa Gregório XI e defendeu a restauração da sede pontifícia em Roma. Entretanto, a decisão do papa também esteve relacionada a questões políticas e à necessidade de recuperar o controle sobre os territórios pontifícios italianos.
Em 1376, Gregório XI deixou Avignon e chegou a Roma em janeiro de 1377. Dessa forma, terminou o período do Papado de Avignon. O retorno, porém, não solucionou os conflitos internos da Igreja. Gregório XI morreu em março de 1378, pouco mais de um ano depois de chegar a Roma.
Principais consequências:
1. Diminuição do Prestígio do Papado: o Papado de Avignon levou a uma queda no prestígio e na autoridade moral do papado. A percepção de que os papas estavam sob influência da coroa francesa comprometeu sua posição como líderes espirituais independentes. Esse período é frequentemente visto como uma época em que o papado estava mais preocupado com questões burocráticas e políticas do que com a liderança espiritual.
2. O Grande Cisma: o retorno do papado a Roma acabou levando ao Grande Cisma da Igreja Ocidental (1378-1417), uma divisão dentro da Igreja Católica onde diferentes facções apoiavam diferentes pretendentes ao papado. O cisma foi uma consequência direta do Papado de Avignon e da confusão e conflito subsequentes sobre a sucessão legítima do Papa, prejudicando severamente a unidade e autoridade da Igreja.
3. Ascensão do Nacionalismo e Desafios à Autoridade Papal: o Papado de Avignon coincidiu com e contribuiu para o surgimento da consciência nacional e o poder dos estados-nação na Europa, particularmente na França. Este período marcou uma mudança no equilíbrio de poder entre a Igreja e os governantes seculares. A diminuição do papel da Cúria Romana permitiu o crescimento de igrejas nacionais e a crescente afirmação do poder real sobre questões eclesiásticas dentro dos territórios individuais, estabelecendo as bases para conflitos posteriores entre igreja e estado.
Revisado por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/08/2026

