Egon Schiele

 

Quem foi


Egon Schiele foi um pintor e desenhista austríaco, considerado um dos principais representantes do Expressionismo europeu no início do século XX. Nascido em 12 de junho de 1890, destacou-se por retratar o corpo humano de maneira intensa, deformada e emocional, afastando-se dos padrões tradicionais de beleza. Sua produção inclui numerosos autorretratos, nus, retratos e paisagens marcados por linhas angulosas, cores contrastantes e temas relacionados à identidade, à sexualidade, à solidão, ao sofrimento e à morte. Apesar de ter vivido apenas 28 anos, exerceu forte influência sobre a arte moderna.



Biografia


Egon Leo Adolf Ludwig Schiele nasceu em Tulln an der Donau, na Áustria, em uma família ligada ao transporte ferroviário. Seu pai, Adolf Schiele, trabalhava como chefe de estação, enquanto sua mãe, Marie Soukup, era de origem boêmia. Desde a infância, Egon demonstrou interesse pelo desenho, especialmente pela representação de trens e paisagens próximas às ferrovias. A morte de seu pai, em 1905, provocada por uma doença, teve forte impacto emocional sobre o jovem artista.

Em 1906, aos 16 anos, Schiele ingressou na Academia de Belas-Artes de Viena. A instituição mantinha um ensino acadêmico baseado na reprodução de modelos clássicos, perspectiva que desagradava ao estudante. Seu temperamento independente e sua busca por novas formas de expressão fizeram com que entrasse em conflito com os professores. Em 1909, abandonou a Academia e participou da fundação do Neukunstgruppe, ou Grupo da Nova Arte, formado por jovens artistas que defendiam maior liberdade criativa.

Nesse período, Schiele aproximou-se de Gustav Klimt, um dos principais nomes da Secessão de Viena. Klimt reconheceu seu talento, adquiriu alguns de seus desenhos e o apresentou a colecionadores, críticos e outros artistas. Embora tenha recebido influência inicial do estilo decorativo de Klimt, Schiele desenvolveu uma linguagem própria, caracterizada por figuras magras, contorcidas e frequentemente colocadas diante de fundos vazios.

A partir de 1910, sua produção tornou-se mais pessoal e intensa. O artista realizou numerosos autorretratos nos quais aparece com expressões tensas, mãos deformadas e posições corporais incomuns. Também produziu nus femininos e masculinos que provocaram controvérsia por apresentarem a sexualidade de forma direta. Suas figuras não eram idealizadas, mas representadas com ossos aparentes, músculos tensos, pele manchada e gestos que sugeriam fragilidade ou desconforto.

Em 1911, Schiele iniciou uma relação com Walburga Neuzil, conhecida como Wally, que se tornou sua companheira e modelo. Os dois viveram durante algum tempo na pequena cidade de Český Krumlov, na atual República Tcheca, local de nascimento de sua mãe. A presença do casal e os hábitos pouco convencionais do artista causaram desconforto entre os habitantes, levando-os a deixar a cidade e se estabelecer em Neulengbach.

No ano seguinte, Schiele foi preso sob acusações relacionadas à presença de jovens em seu ateliê e à exposição de desenhos considerados obscenos. Permaneceu detido por 24 dias. Embora algumas acusações mais graves tenham sido retiradas, foi condenado por permitir que uma imagem erótica ficasse acessível a menores. Durante o julgamento, uma de suas obras foi queimada pelo juiz. A experiência do encarceramento intensificou temas como isolamento, angústia e incompreensão social em seus trabalhos.

Em 1915, Egon Schiele casou-se com Edith Harms, jovem pertencente a uma família de classe média que morava próxima ao seu ateliê. Pouco depois, foi convocado para o serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918. Em razão de suas habilidades artísticas e de contatos profissionais, recebeu funções administrativas que lhe permitiram continuar desenhando e pintando durante parte do conflito.

O reconhecimento público aumentou nos últimos anos de sua vida. Em 1918, participou com destaque da 49ª Exposição da Secessão de Viena, apresentando dezenas de trabalhos. A mostra alcançou sucesso comercial e consolidou sua posição no cenário artístico austríaco. Após a morte de Gustav Klimt, em fevereiro daquele ano, Schiele passou a ser visto como uma das principais figuras da arte moderna em Viena.

Sua carreira foi interrompida pela pandemia de gripe de 1918. Edith Schiele, que estava grávida, morreu em 28 de outubro. Egon contraiu a mesma doença e faleceu três dias depois, em 31 de outubro de 1918, em Viena. 

 

Foto de rosto em preto e branco de um homem branco de meia idade com cabelos negros

Egon Schiele (foto de 1914)



Características de seu estilo artístico (pintura):

 

• Obras de arte, principalmente seus autorretratos, marcadas pelo sentimento de angústia.

 

• Paisagens marcadas pela presença de ritmos e tensões.

 

• Pintou elementos da natureza, principalmente árvores, expressando energia e aspectos psicológicos.

 

• Fez pinturas representando nus femininos, gerando assim muitas críticas.

 

• Uso de efeitos distorcidos nas pinturas, característica muito presente nas obras expressionistas.

 

• Fez pinturas de cenas urbanas com aspectos claustrofóbicos.



Principais obras de Egon Schiele:

 

“Autorretrato com planta-lanterna-chinesa” (1912)

Neste autorretrato, Schiele aparece diante de um fundo claro, acompanhado por ramos de uma planta conhecida como lanterna-chinesa. O rosto sério, os olhos intensos e a postura rígida transmitem introspecção e tensão emocional. A obra evidencia o interesse do artista pela própria identidade e pelo estudo psicológico, enquanto a planta funciona como elemento decorativo e simbólico.



“Retrato de Wally” (1912)

A pintura representa Walburga Neuzil, companheira e modelo do artista durante alguns anos. O rosto expressivo, os cabelos avermelhados e os olhos claros criam uma imagem marcada pela proximidade emocional. Diferentemente de muitos retratos tradicionais, Schiele não procurou idealizar a modelo, mas registrar sua personalidade por meio de uma composição simples e de cores concentradas na figura.



“Os eremitas” (1912)

A obra apresenta duas figuras masculinas vestidas com roupas escuras, identificadas geralmente como Schiele e Gustav Klimt. Os corpos parecem unidos, formando uma estrutura compacta diante de um fundo vazio. A composição pode ser interpretada como uma homenagem ao vínculo entre mestre e discípulo, embora também revele temas como isolamento, dependência e solidão.



“Cardeal e freira” (1912)

Também conhecida como “A carícia”, a pintura mostra um homem vestido como cardeal abraçando uma mulher com roupas semelhantes às de uma religiosa. A cena retoma a composição de “O beijo”, de Gustav Klimt, porém substitui o clima harmonioso por uma atmosfera tensa e ambígua. A obra questiona valores religiosos e morais ao aproximar desejo, culpa e transgressão.



“Morte e donzela” (1915)

Criada durante o período em que Schiele encerrou sua relação com Wally e se preparava para casar com Edith Harms, a pintura mostra um casal abraçado sobre um tecido branco. A figura masculina possui aparência sombria, enquanto a mulher se agarra a ele com expressão melancólica. A composição é frequentemente interpretada como uma representação da separação, da perda e da proximidade da morte.



“A família” (1918)

Inicialmente concebida como um retrato de um casal, a obra foi modificada para incluir uma criança entre as figuras. Schiele representou a si mesmo sentado, acompanhado de uma mulher e de um menino, formando uma família idealizada. A pintura adquiriu um sentido trágico após a morte do artista e de sua esposa grávida, ambos vítimas da gripe de 1918.



“Quatro árvores” (1917)

Nesta paisagem, quatro árvores aparecem alinhadas diante de colinas e de um céu iluminado pelo entardecer. Uma delas possui menos folhas do que as outras, criando um contraste que pode simbolizar isolamento ou decadência. A composição demonstra que Schiele aplicava às paisagens a mesma intensidade emocional presente em seus retratos e autorretratos.



“Cidade morta III” (1911)

Inspirada na cidade de Český Krumlov, a pintura apresenta casas compactas, ruas estreitas e cores escuras. O espaço urbano parece silencioso e desabitado, produzindo uma sensação de abandono. Em vez de descrever a cidade de maneira realista, Schiele transformou-a em uma paisagem psicológica associada à memória, à solidão e à morte.



“Casas com roupas coloridas” (1914)

A obra retrata um conjunto de casas próximas a um curso de água, com roupas coloridas estendidas entre as construções. As formas são organizadas de maneira quase geométrica e vistas de um ponto elevado. O contraste entre as fachadas escuras e os tecidos coloridos cria dinamismo e revela o interesse do artista pela arquitetura e pela vida cotidiana das pequenas cidades.



“Mulher sentada com joelho dobrado” (1917)

O desenho representa uma mulher sentada em uma posição informal, com uma das pernas dobrada e o corpo parcialmente coberto. As linhas firmes definem a postura e direcionam a atenção para o gesto corporal. A figura transmite simultaneamente sensualidade, independência e naturalidade, demonstrando o domínio técnico de Schiele no desenho da anatomia humana.



“Nu feminino reclinado” (1917)

Nesta obra, o corpo feminino é apresentado em uma posição pouco convencional, com membros alongados e contornos angulosos. O fundo praticamente vazio concentra a atenção na modelo, enquanto as áreas de cor ressaltam partes específicas do corpo. Schiele rompeu com o nu acadêmico ao mostrar uma figura vulnerável, expressiva e distante da idealização clássica.



“Abraço” (1917)

A pintura apresenta um casal nu envolvido em um abraço intenso sobre um tecido branco. Os corpos ocupam quase toda a composição e parecem formar uma única estrutura. Embora a cena revele intimidade, as linhas tensas e as posições corporais transmitem também insegurança e fragilidade, características frequentes nas representações amorosas do artista.

 

Retrato de Wally de Egon Schiele

Retrato de Wally (1912) de Egon Schiele.

 

 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).

Atualizado em 05/08/2026