17 questões sobre o Cortiço de Aluísio Azevedo

 

Questões de teste sobre o livro "O Cortiço", de Aluísio Azevedo (o gabarito encontra-se no final da página)

 

1. No romance "O Cortiço", João Romão passa por um processo de enriquecimento baseado na exploração econômica e em sua extrema ambição. Qual característica melhor define sua trajetória ao longo da narrativa?

a) Abandona gradualmente a busca pelo enriquecimento para dedicar-se à melhoria das condições de vida dos moradores do cortiço.
b) Enriquece principalmente por meio de uma herança familiar, sem utilizar o trabalho dos demais personagens em benefício próprio.
c) Procura acumular riqueza por diferentes meios, explorando o trabalho de Bertoleza e dos moradores e buscando posteriormente ascensão social.
d) Mantém-se economicamente estagnado porque rejeita qualquer forma de integração com os grupos sociais mais ricos.
e) Concentra seus esforços na carreira política e utiliza o cortiço apenas como espaço para conquistar apoio eleitoral.



2. Bertoleza desempenha papel fundamental na trajetória econômica de João Romão. A relação estabelecida entre os dois evidencia principalmente:

a) Uma parceria igualitária na qual ambos controlam conjuntamente os bens acumulados durante a convivência.
b) Uma relação marcada pela exploração do trabalho de Bertoleza e pela manipulação exercida por João Romão.
c) Um relacionamento baseado exclusivamente em sentimentos amorosos, sem interferência de interesses econômicos.
d) Uma situação na qual Bertoleza utiliza sua posição social para controlar economicamente João Romão.
e) Uma relação passageira que não possui importância para o processo de enriquecimento do comerciante.



3. Uma das características do Naturalismo presente em "O Cortiço" é a influência atribuída ao meio sobre o comportamento humano. Como essa concepção aparece no romance?

a) As personagens permanecem completamente imunes ao ambiente em que vivem e tomam decisões apenas por princípios individuais.
b) O ambiente é descrito apenas como cenário físico, sem interferir nos comportamentos e nas transformações das personagens.
c) O narrador considera somente a origem familiar das personagens, deixando de relacioná-las às condições sociais em que vivem.
d) O meio social, o clima, as condições materiais e as relações coletivas aparecem como fatores capazes de influenciar comportamentos e transformações.
e) O espaço urbano surge como ambiente que necessariamente conduz todas as personagens a uma vida de prosperidade.



4. Jerônimo é apresentado inicialmente como trabalhador disciplinado e ligado a hábitos portugueses. Sua transformação ao longo do romance pode ser interpretada, dentro da perspectiva naturalista, como:

a) Um exemplo da influência atribuída ao ambiente, ao clima e às relações sociais na alteração de hábitos e comportamentos.
b) Uma demonstração de que a educação formal é apresentada pelo narrador como o único fator capaz de transformar uma pessoa.
c) Uma confirmação de que os personagens estrangeiros permanecem culturalmente inalterados independentemente do ambiente brasileiro.
d) Uma consequência exclusiva da ascensão econômica de Jerônimo, que passa a pertencer às camadas mais ricas da sociedade.
e) Uma mudança provocada apenas por sua decisão de abandonar definitivamente qualquer forma de trabalho.



5. Rita Baiana possui grande importância na representação do ambiente do cortiço. No desenvolvimento da narrativa, ela é caracterizada principalmente:

a) Como uma personagem isolada, avessa às festas e às relações de convivência estabelecidas entre os moradores.
b) Como representante da aristocracia urbana que passa a frequentar o cortiço por curiosidade intelectual.
c) Como mulher cuja presença está associada à música, à dança, à sensualidade e à sociabilidade do ambiente coletivo.
d) Como proprietária do cortiço e principal responsável por sua organização econômica.
e) Como personagem que rejeita inteiramente os costumes locais e procura reproduzir os valores da sociedade portuguesa.



6. O cortiço não funciona apenas como cenário dos acontecimentos, mas assume uma presença marcante no desenvolvimento da obra. Qual interpretação melhor explica essa característica?

a) O espaço serve exclusivamente para separar geograficamente os personagens pobres dos personagens ricos.
b) O cortiço aparece como espaço coletivo dinâmico, quase personificado pelo narrador, acompanhando os conflitos e a vida de seus habitantes.
c) A habitação coletiva é apresentada de maneira neutra, sem qualquer relação com as características do Naturalismo.
d) O cortiço é descrito apenas nos primeiros capítulos e perde completamente sua importância durante o desenvolvimento da narrativa.
e) O espaço representa uma comunidade harmoniosa na qual praticamente inexistem disputas e tensões entre os moradores.



7. Miranda vive ao lado do cortiço de João Romão e representa uma posição social diferente daquela ocupada inicialmente pelo comerciante. A rivalidade entre os dois permite observar:


a) A disputa entre dois trabalhadores pobres que procuram conquistar condições mínimas de sobrevivência no ambiente urbano.
b) A oposição entre dois personagens indiferentes ao prestígio social e preocupados exclusivamente com relações familiares.
c) O conflito entre diferentes projetos políticos relacionados à administração da cidade do Rio de Janeiro.
d) Uma rivalidade religiosa entre famílias que pertencem a tradições culturais distintas.
e) O desejo de João Romão de superar economicamente e socialmente Miranda, aproximando-se dos padrões de prestígio da elite.



8. Pombinha apresenta uma trajetória marcada por profundas transformações pessoais e sociais. Dentro da estética naturalista, sua história pode ser compreendida como:

a) Um exemplo de personagem idealizada que permanece moralmente inalterada durante toda a narrativa.
b) Uma defesa da ideia de que a origem familiar determina de maneira positiva e inevitável o destino das personagens.
c) Uma narrativa desvinculada das condições sociais e das experiências vividas no ambiente coletivo.
d) Uma transformação relacionada às experiências pessoais e ao contexto social, utilizada pelo narrador para desenvolver concepções naturalistas sobre comportamento.
e) Uma trajetória de enriquecimento empresarial semelhante àquela desenvolvida por João Romão.



9. Ao representar os moradores do cortiço de maneira coletiva, Aluísio Azevedo constrói várias cenas em que a multidão parece agir como um organismo. Essa técnica narrativa contribui para:

a) Transformar a coletividade em elemento central da narrativa, enfatizando movimentos, impulsos e comportamentos compartilhados.
b) Demonstrar que apenas os indivíduos mais ricos possuem importância na organização do romance.
c) Eliminar as descrições do espaço físico para concentrar o romance exclusivamente nos diálogos entre personagens.
d) Defender a ideia de que todos os moradores possuem personalidades, interesses e comportamentos exatamente iguais.
e) Apresentar o cortiço como espaço social sem conflitos internos ou diferenças entre seus habitantes.



10. A oposição entre João Romão e Bertoleza permite compreender importantes desigualdades sociais presentes no romance. Essa relação evidencia:

a) A existência de oportunidades econômicas equivalentes para todos os indivíduos da sociedade representada.
b) A mobilidade social de Bertoleza, que passa a controlar os negócios e o patrimônio acumulado por João Romão.
c) A exploração relacionada a diferenças de condição social, gênero e situação jurídica, das quais João Romão procura tirar proveito.
d) A preocupação de João Romão em garantir autonomia financeira e proteção jurídica à companheira.
e) A ausência de relações de poder entre os dois, pois ambos participam das decisões econômicas em igualdade de condições.



11. Em "O Cortiço", Aluísio Azevedo apresenta diferentes formas de desigualdade e exploração no espaço urbano. Qual aspecto da obra está diretamente relacionado a essa crítica social?

a) A idealização das relações de trabalho como meios seguros de ascensão para todas as personagens.
b) A valorização do enriquecimento individual independentemente dos meios utilizados para alcançá-lo.
c) A representação de uma sociedade em que pobreza e riqueza não provocam diferenças importantes nas relações entre os indivíduos.
d) A defesa das hierarquias sociais como elementos necessários para manter a estabilidade entre as personagens.
e) A exposição das condições precárias de vida, das relações de exploração e das desigualdades existentes entre grupos sociais.



12. A sexualidade aparece com frequência no desenvolvimento das personagens e das relações humanas em "O Cortiço". No contexto naturalista da obra, ela é tratada principalmente:

a) Como assunto evitado pelo narrador, que procura preservar os padrões morais da literatura romântica.
b) Como componente dos impulsos humanos que o Naturalismo procura observar e representar de maneira direta.
c) Como elemento restrito às personagens pertencentes às camadas mais ricas da sociedade.
d) Como tema apresentado exclusivamente por meio de relações idealizadas e sentimentalmente perfeitas.
e) Como aspecto sem relação com a concepção naturalista de comportamento humano presente no romance.



13. A linguagem e as descrições empregadas por Aluísio Azevedo frequentemente aproximam comportamentos humanos de processos biológicos e instintivos. Essa característica relaciona-se:

a) À influência de concepções científicas do século XIX sobre o Naturalismo, que procurava observar o ser humano também por seus condicionamentos físicos e sociais.
b) À permanência integral da visão romântica, que valorizava exclusivamente sentimentos nobres e comportamentos idealizados.
c) À intenção de transformar o romance em um estudo exclusivamente médico, sem preocupação literária ou social.
d) À defesa da superioridade moral das personagens que vivem no cortiço em relação aos demais grupos sociais.
e) À tentativa de afastar completamente a literatura das discussões científicas e sociais daquele período.



14. O processo de ascensão social de João Romão provoca mudanças em seus hábitos, interesses e relações pessoais. Qual aspecto dessa trajetória é particularmente criticado pelo romance?

a) Sua incapacidade de abandonar voluntariamente a riqueza depois de conquistar uma posição econômica confortável.
b) Sua decisão de repartir igualmente o patrimônio acumulado com todos os trabalhadores que contribuíram para seu enriquecimento.
c) Sua recusa em aproximar-se das camadas socialmente prestigiadas, mesmo depois de enriquecer.
d) O uso das pessoas e das relações como instrumentos para acumular riqueza e conquistar reconhecimento social.
e) Seu afastamento completo de qualquer atividade comercial depois de atingir uma posição econômica superior.



15. O desfecho de Bertoleza constitui um dos momentos mais contundentes de "O Cortiço". Considerando a crítica social desenvolvida pelo romance, esse episódio revela principalmente:

a) Que Bertoleza consegue romper de maneira definitiva com todas as formas de exploração e iniciar uma vida independente.
b) Que João Romão abandona suas ambições sociais para permanecer ao lado de Bertoleza e reparar as injustiças cometidas.
c) A violência das relações sociais e raciais, agravada pela exploração de uma mulher negra que é descartada quando se torna obstáculo à ascensão de João Romão.
d) Que os interesses econômicos deixam de exercer influência sobre as decisões de João Romão no final da narrativa.
e) Que a posição jurídica de Bertoleza garante proteção suficiente para impedir qualquer tentativa de violência ou dominação.



16. Considerando o conjunto de "O Cortiço", uma diferença importante entre o Naturalismo e o Romantismo pode ser identificada na maneira como Aluísio Azevedo constrói suas personagens e conflitos:

a) O romance naturalista elimina completamente os conflitos sociais para concentrar-se na contemplação da natureza.
b) A narrativa naturalista procura observar comportamentos humanos em relação ao meio, às condições sociais, aos impulsos e aos interesses materiais, evitando a idealização típica de parte do Romantismo.
c) O Naturalismo representa suas personagens exclusivamente como heróis moralmente superiores e capazes de dominar qualquer circunstância.
d) A narrativa de Aluísio Azevedo abandona a sociedade urbana e concentra-se exclusivamente em personagens históricos.
e) O romance naturalista apresenta o amor idealizado como principal força capaz de solucionar todos os problemas sociais.

 

17. "O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferiu um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova paulada cantou-lhe nos ombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, outra mais violenta quebrou-lhe a clavícula, enquanto outra logo lhe rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais rápidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se converteram numa carga continua de porretadas, a que o infeliz não resistiu, rolando no chão, a gotejar sangue de todo o corpo". (trecho da obra "O Cortiço" de Aluisio de Azevedo).

No trecho de "O Cortiço", a descrição da agressão sofrida pelo capoeira é construída por meio de uma sequência detalhada de golpes e ferimentos. Considerando as características do Naturalismo presentes na obra, qual efeito essa forma de descrição produz?


a) Idealiza a violência como demonstração de heroísmo e coragem individual.

b) Suaviza a cena para evitar a exposição direta da brutalidade entre as personagens.

c) Apresenta a violência de maneira objetiva, física e intensa, destacando o corpo e a brutalidade das ações humanas.

d) Transforma o conflito em uma situação cômica, reduzindo sua importância para o desenvolvimento da narrativa.

e) Utiliza a agressão apenas como recurso para valorizar sentimentos amorosos e atitudes sentimentais.





Gabarito explicativo



1. c

João Romão é construído como um personagem movido pela ambição e pelo desejo de acumulação. Trabalha intensamente, mas também explora sistematicamente o trabalho de outras pessoas, especialmente Bertoleza. Depois de enriquecer, sua preocupação deixa de ser apenas econômica e passa a envolver prestígio e reconhecimento social.



2. b

Bertoleza trabalha ao lado de João Romão e contribui diretamente para o crescimento de seu patrimônio. Entretanto, não participa de maneira equivalente dos benefícios econômicos produzidos por esse trabalho. João Romão manipula sua situação e utiliza a relação afetiva como parte do processo de exploração, aspecto fundamental da crítica social desenvolvida pelo romance.



3. d

O Naturalismo atribuía grande importância aos condicionamentos ambientais, sociais e biológicos. Em "O Cortiço", o clima, o espaço urbano, as condições de habitação e as relações estabelecidas entre os moradores aparecem frequentemente relacionados às mudanças comportamentais das personagens.



4. a

Jerônimo chega à narrativa com hábitos portugueses, disciplina de trabalho e comportamento relativamente reservado. Sua convivência com o ambiente brasileiro e, sobretudo, sua aproximação de Rita Baiana são apresentadas pelo narrador como fatores importantes de transformação. Essa construção reflete o determinismo associado à estética naturalista.



5. c

Rita Baiana é uma das figuras mais associadas à vitalidade coletiva do cortiço. Música, dança, festas e sensualidade fazem parte de sua caracterização. Sua presença também desempenha papel decisivo na transformação de Jerônimo e nos conflitos que se desenvolvem posteriormente.



6. b

O cortiço possui função muito mais ampla do que a de simples cenário. Aluísio Azevedo descreve a habitação coletiva por meio de imagens que muitas vezes lhe atribuem características de um organismo vivo. Seus habitantes formam uma coletividade em constante movimento, marcada por trabalho, conflitos, festas, desejos e disputas.



7. e

Miranda possui posição social mais prestigiada e se torna referência para as ambições de João Romão. À medida que acumula riqueza, João passa a desejar não apenas dinheiro, mas também reconhecimento e inserção entre os grupos socialmente privilegiados. A rivalidade entre os dois evidencia a importância das hierarquias sociais na obra.



8. d

Pombinha sofre profundas transformações ao longo do romance. Sua trajetória é construída de acordo com pressupostos naturalistas que relacionam comportamento, experiências pessoais e contexto social. O narrador procura apresentar essas mudanças como resultado de diferentes condicionamentos, e não como simples expressão de uma essência moral imutável.



9. a

Uma característica marcante de "O Cortiço" é a presença da coletividade como agente narrativo. Em várias passagens, os moradores são descritos de forma conjunta, como se constituíssem um organismo. Essa técnica reforça a importância do meio coletivo e diferencia o romance de narrativas centradas exclusivamente em um protagonista individual.



10. c

A relação entre João Romão e Bertoleza envolve diferentes formas de desigualdade. Bertoleza é mulher, negra, trabalhadora e submetida a uma condição jurídica vulnerável em uma sociedade marcada pela escravidão. João Romão utiliza essas condições em benefício próprio, mostrando como relações pessoais podem ser atravessadas por interesses econômicos e estruturas de poder.



11. e

O romance apresenta de forma crítica as condições materiais e sociais vividas por diferentes grupos urbanos. A precariedade das moradias, a exploração do trabalho, a desigualdade econômica e as relações de dominação fazem parte do universo narrativo e contribuem para o caráter de crítica social da obra.



12. b

O Naturalismo procurava representar dimensões do comportamento humano que a literatura anterior frequentemente tratava com maior idealização. A sexualidade aparece em "O Cortiço" relacionada aos impulsos, aos desejos e às relações sociais das personagens, integrando a concepção naturalista do ser humano.



13. a

O Naturalismo foi influenciado por correntes científicas e filosóficas do século XIX, especialmente por ideias relacionadas ao determinismo, à hereditariedade e à influência do meio. Aluísio Azevedo emprega frequentemente imagens biológicas e referências a instintos para construir determinadas personagens e comportamentos.



14. d

A trajetória de João Romão evidencia uma concepção instrumental das relações humanas. Bertoleza, os trabalhadores e até determinados relacionamentos sociais são tratados conforme sua utilidade para seus projetos econômicos e sociais. O desejo de ascensão modifica suas relações e expõe a crítica do romance ao oportunismo social.



15. c

O destino de Bertoleza evidencia de maneira particularmente dura a violência das estruturas sociais retratadas na obra. Ela contribui durante anos para o enriquecimento de João Romão, mas passa a ser considerada um obstáculo quando ele procura aproximar-se das camadas mais prestigiosas. O episódio articula exploração econômica, racismo, condição feminina e permanências da sociedade escravista.



16. b

Enquanto grande parte da literatura romântica recorria à idealização dos sentimentos, das personagens e das relações amorosas, o Naturalismo procurava representar comportamentos a partir das condições materiais e sociais. Em "O Cortiço", o meio, os interesses econômicos, os impulsos, a sexualidade e as desigualdades exercem papel decisivo na construção dos conflitos.

 

17. c

A descrição detalhada dos golpes, dos ferimentos e do sangue aproxima a cena de uma observação direta e material do corpo humano. Essa forma de representação é compatível com o Naturalismo, que frequentemente explora comportamentos violentos, impulsos físicos e situações extremas sem idealização. A sucessão rápida das agressões também intensifica a sensação de brutalidade e reforça a dimensão corporal da cena.

 


 

Por Elaine Barbosa de Souza - Graduada em Letras (Português e Inglês) pela FMU (2002).

Publicado em 17/09/2026