Questões sobre David Hume e sua Filosofia

 

1. Segundo David Hume, qual é a diferença fundamental entre impressões e ideias?

A - As impressões correspondem às percepções mais vivas e imediatas, enquanto as ideias são cópias menos intensas dessas experiências na mente.
B - As impressões são conhecimentos racionais universais, enquanto as ideias surgem apenas da tradição filosófica.
C - As impressões pertencem exclusivamente ao campo da moral, enquanto as ideias dizem respeito apenas à matemática.
D - As impressões são produzidas pela alma independentemente da experiência, enquanto as ideias dependem dos sentidos.
E - As impressões e as ideias possuem o mesmo grau de evidência, diferindo apenas quanto ao vocabulário filosófico.



2. A teoria do conhecimento de Hume é geralmente classificada como empirista porque:

A - Defende que a razão humana é capaz de descobrir verdades absolutas sem qualquer contato com a experiência.
B - Sustenta que o conhecimento começa nas percepções sensíveis e que as ideias derivam, em última instância, da experiência.
C - Afirma que os princípios morais são inatos e independem das vivências humanas concretas.
D - Considera que a metafísica é a forma mais segura de conhecimento, acima das ciências experimentais.
E - Explica que a verdade só pode ser alcançada por meio da tradição religiosa e da autoridade dos antigos.



3. Ao criticar a noção de causalidade, Hume procura mostrar que:

A - Toda causa é necessariamente percebida pelos sentidos como uma conexão invisível entre os fenômenos.
B - A ciência deve abandonar completamente a observação dos fatos e retornar ao raciocínio puramente abstrato.
C - A ideia de causa e efeito resulta do hábito de associar घटनas que se repetem, e não da percepção de uma necessidade objetiva.
D - A relação causal só pode ser compreendida por meio da fé, pois a experiência não oferece qualquer base para ela.
E - O conceito de causalidade é inútil para a vida cotidiana e não possui aplicação prática no conhecimento humano.



4. Quando Hume afirma que muitos raciocínios humanos são guiados pelo costume, ele quer dizer que?

A - O ser humano age apenas segundo regras morais herdadas da família e da religião.
B - A mente tende a esperar certos resultados porque se acostumou à repetição de acontecimentos semelhantes.
C - O pensamento filosófico depende exclusivamente da obediência a tradições sociais antigas.
D - O costume impede qualquer forma de conhecimento e torna impossível a vida em sociedade.
E - A razão humana é inteiramente dispensável, pois tudo se reduz à imitação automática do comportamento alheio.



5. Sobre o chamado “problema da indução” em Hume, assinale a alternativa correta:

A - A indução é um método absolutamente seguro, pois permite provar logicamente tudo o que ocorrerá no futuro.
B - A indução é rejeitada por Hume apenas no campo da matemática, mas preservada integralmente nas ciências naturais.
C - O problema da indução desaparece quando se admite que a natureza possui uma finalidade moral estabelecida.
D - O hábito de generalizar a partir de casos observados é psicologicamente inevitável, mas não pode ser justificado com certeza lógica.
E - A indução é aceita por Hume como uma demonstração racional idêntica às verdades geométricas.



6. Em sua análise sobre o “eu” ou identidade pessoal, Hume sustenta que:

A - O eu é uma substância espiritual permanente, claramente percebida pela introspecção.
B - A consciência humana apreende uma essência imutável que permanece a mesma em todas as fases da vida.
C - Aquilo que chamamos de “eu” é um feixe de percepções em constante mudança, e não uma substância fixa.
D - O eu pode ser demonstrado racionalmente como uma verdade universal independente da experiência.
E - A identidade pessoal é uma ilusão produzida exclusivamente pela linguagem, sem relação com a vida mental.



7. Qual alternativa expressa melhor a posição de Hume sobre os milagres?

A - Os milagres devem ser aceitos sempre que forem narrados por autoridades religiosas respeitadas.
B - Os milagres são logicamente impossíveis, razão pela qual nem sequer podem ser pensados.
C - Todo relato extraordinário deve ser imediatamente considerado verdadeiro quando estiver ligado à tradição cultural de um povo.
D - O testemunho a favor de um milagre deve ser avaliado com extremo ceticismo, pois a experiência constante das leis naturais costuma ser mais forte do que o relato.
E - Os milagres são a principal base do conhecimento científico e da comprovação racional da religião.



8. Sobre a moral em David Hume, pode-se afirmar corretamente que:

A - Os juízos morais dependem apenas de cálculos matemáticos e deduções lógicas rigorosas.
B - A distinção entre o bem e o mal nasce unicamente das leis impostas pelo Estado.
C - A moralidade é fundada sobretudo nos sentimentos humanos, e não apenas na razão abstrata.
D - As ações humanas são boas quando se ajustam perfeitamente a princípios metafísicos eternos.
E - O valor moral de uma ação é conhecido exclusivamente por intuição racional, sem participação das paixões.



9. Quando Hume afirma que “a razão é, e deve ser, escrava das paixões”, ele pretende defender a ideia de que:

A - A razão orienta os meios para atingir fins, mas os impulsos e desejos humanos têm papel decisivo na ação.
B - Toda paixão é racional por definição e, por isso, jamais conduz a erros ou excessos.
C - A razão deve ser abandonada em qualquer debate moral, já que ela não possui utilidade alguma.
D - O ser humano age sempre de modo irracional, sem qualquer forma de reflexão ou comparação.
E - As paixões são entidades sobrenaturais que controlam a mente independentemente da experiência.



10. Em relação à religião e à crítica filosófica, Hume adota uma postura que pode ser caracterizada como:

A - Dogmática, pois busca demonstrar racionalmente todas as verdades religiosas tradicionais.
B - Cética, porque questiona os limites da razão humana diante de temas metafísicos e teológicos.
C - Mística, porque substitui a análise filosófica pela contemplação espiritual.
D - Escolástica, porque reafirma sem reservas a autoridade da metafísica medieval.
E - Racionalista, porque considera possível provar com plena certeza todos os atributos divinos.



11. A distinção humeana entre “relações de ideias” e “questões de fato” é importante porque:


A - Mostra que todo conhecimento verdadeiro é obtido apenas por meio da observação empírica.
B - Indica que as proposições matemáticas e lógicas diferem das afirmações sobre o mundo, que dependem da experiência.
C - Prova que as questões morais pertencem ao mesmo tipo de certeza das demonstrações geométricas.
D - Elimina qualquer diferença entre ciência, religião e metafísica, unificando todas as formas de saber.
E - Demonstra que as percepções sensíveis são menos confiáveis do que as especulações abstratas.



12. Ao discutir a liberdade humana, Hume procura conciliar liberdade e necessidade ao afirmar que:

A - A liberdade consiste em agir sem qualquer motivo, causa ou regularidade psicológica.
B - A necessidade existe apenas na natureza física, não tendo qualquer relação com a conduta humana.
C - O comportamento humano é completamente imprevisível, o que torna impossível qualquer reflexão moral.
D - Só há liberdade quando a vontade rompe totalmente com a cadeia de causas e efeitos.
E - A ação humana pode seguir certos padrões causais e, ainda assim, ser considerada livre quando decorre da vontade do agente sem coerção externa.



13. Em uma aula sobre conhecimento científico, a contribuição de Hume pode ser resumida da seguinte maneira:

A - O conhecimento científico deve reconhecer seus limites, pois muitas de suas generalizações dependem da experiência repetida e não de certezas absolutas.
B - A ciência é inválida porque não consegue explicar tudo de maneira imediata e definitiva.
C - A observação experimental é desnecessária quando o pesquisador possui princípios metafísicos bem definidos.
D - O método científico se torna mais confiável quando se apoia em verdades inatas independentes da experiência.
E - A investigação da natureza deve ser substituída pela autoridade dos textos antigos e das tradições culturais.



14. Qual exemplo representa melhor uma interpretação coerente com a filosofia de Hume?

A - Um estudante conclui que o fogo sempre aquece porque existe uma essência invisível da natureza que a razão capta diretamente.
B - Uma pessoa acredita que o sol nascerá amanhã porque tem uma prova lógica absoluta de que o futuro será idêntico ao passado.
C - Um pesquisador afirma que toda verdade científica é inata e já está pronta na mente desde o nascimento.
D - Um observador espera que a água ferva ao ser aquecida porque sua mente associou repetidas experiências semelhantes e formou esse hábito.
E - Um filósofo sustenta que a causalidade pode ser vista diretamente pelos olhos como um vínculo necessário entre dois eventos.



15. Considerando o conjunto da filosofia de Hume, é correto afirmar que seu pensamento:

A - Reafirma a confiança plena da metafísica tradicional na descoberta de essências e substâncias permanentes.
B - Defende que a razão pode ultrapassar livremente a experiência e atingir verdades universais sobre qualquer tema.
C - Propõe uma investigação crítica da mente humana, examinando como conhecemos, julgamos e acreditamos a partir da experiência.
D - Substitui a observação da natureza por um sistema puramente religioso de interpretação do mundo.
E - Rejeita toda forma de ciência e considera impossível qualquer conhecimento confiável.





GABARITO EXPLICATIVO:


1. A - Hume distingue dois níveis fundamentais da vida mental. As impressões são as percepções mais fortes, vívidas e imediatas, como sensações, emoções e experiências diretas. Já as ideias são representações enfraquecidas dessas impressões, isto é, recordações, imaginações ou elaborações mentais derivadas daquilo que já foi vivido. Essa distinção é central em seu empirismo porque mostra que a mente não produz conteúdos do nada: ela reorganiza aquilo que recebeu pela experiência.

2. B - O empirismo humeano parte do princípio de que o conhecimento humano não nasce de ideias inatas nem de verdades prontas na consciência. Tudo o que pensamos tem, em algum nível, relação com a experiência sensível. Isso significa que a percepção do mundo externo, as sensações e as vivências concretas fornecem a matéria-prima do pensamento. Em sala de aula, esse ponto é essencial para compreender por que Hume se opõe ao racionalismo excessivo e insiste em examinar como a mente realmente funciona.

3. C - Hume não nega que usemos a noção de causa e efeito na vida cotidiana e na ciência. O que ele questiona é a pretensão de que percebemos uma “necessidade” objetiva ligando dois acontecimentos. Quando vemos um evento seguir-se repetidamente a outro, passamos a esperar essa repetição. Assim, a causalidade, para Hume, não é conhecida como uma verdade metafísica, mas como uma expectativa psicológica fundada no hábito. Trata-se de uma crítica decisiva à certeza absoluta no conhecimento.

4. B - O costume, em Hume, não significa mera tradição social, mas um mecanismo mental pelo qual a repetição de experiências semelhantes cria expectativas estáveis. Se uma pessoa observa muitas vezes que determinado acontecimento costuma ser seguido por outro, ela passa a esperar essa sequência automaticamente. Esse processo não decorre de uma prova lógica, mas de uma regularidade experimentada. É justamente por isso que Hume entende o costume como um princípio fundamental da vida prática e do pensamento comum.

5. D - O problema da indução é uma das contribuições mais influentes de Hume para a Filosofia moderna. Sempre que generalizamos a partir de casos observados (por exemplo, ao supor que um fenômeno continuará a ocorrer no futuro), estamos realizando um raciocínio indutivo. Hume mostra que isso é inevitável na vida humana e indispensável para a ciência, mas não pode ser demonstrado com certeza lógica. Em outras palavras, confiamos na regularidade da natureza porque estamos habituados a ela, não porque possuímos uma prova racional definitiva.

6. C - Ao investigar a identidade pessoal, Hume conclui que não encontra em si mesmo uma substância permanente chamada “eu”. O que ele percebe é um fluxo contínuo de sensações, memórias, desejos, emoções e pensamentos. Por isso, a noção de identidade pessoal não é, para ele, uma essência fixa, mas uma construção da mente baseada na continuidade aparente dessas percepções. Essa tese é importante porque rompe com a ideia tradicional de alma como núcleo estável e imutável da pessoa.

7. D - A análise humeana dos milagres é um exemplo claro de seu ceticismo filosófico. Ele argumenta que, quando um relato extraordinário entra em conflito com a experiência uniforme das leis naturais, é mais racional examinar criticamente o testemunho do que aceitar de imediato o acontecimento como verdadeiro. Não se trata de afirmar dogmaticamente que o milagre é impossível, mas de aplicar um critério rigoroso de evidência. Essa posição revela sua preocupação com os limites do conhecimento humano e com a confiabilidade dos relatos.

8. C - Hume atribui papel decisivo aos sentimentos na formação dos juízos morais. Para ele, o ser humano não distingue o bem e o mal apenas por raciocínio lógico, como se a moral fosse uma equação. A aprovação ou desaprovação moral está profundamente ligada às paixões, à simpatia e às disposições afetivas que orientam a convivência social. Essa concepção foi extremamente importante para a ética moderna porque deslocou a moral do plano exclusivamente racional para uma análise mais concreta da natureza humana.

9. A - Quando Hume afirma que a razão é “escrava das paixões”, ele não está defendendo irracionalismo absoluto, mas estabelecendo uma hierarquia funcional. A razão pode calcular, comparar, organizar meios e avaliar consequências, porém não cria por si só os fins da ação. Quem move o indivíduo a agir são seus desejos, inclinações, interesses e sentimentos. Essa ideia é central para compreender sua filosofia moral e política, pois indica que o comportamento humano não pode ser explicado apenas por princípios abstratos.

10. B - A postura de Hume diante da religião é marcada pelo ceticismo filosófico. Ele não aceita com facilidade as pretensões de uma razão capaz de demonstrar com certeza total questões metafísicas e teológicas. Em vez disso, investiga criticamente até onde o entendimento humano realmente pode chegar. Esse procedimento não equivale a mera negação automática da religião, mas a uma recusa em transformar crenças em certezas filosóficas sem base empírica suficiente. Trata-se de uma atitude intelectual típica do Iluminismo crítico.

11. B - A distinção entre “relações de ideias” e “questões de fato” organiza toda a teoria do conhecimento de Hume. As relações de ideias incluem proposições lógicas e matemáticas, cuja verdade depende da coerência interna entre conceitos. Já as questões de fato dizem respeito ao mundo real e só podem ser conhecidas pela experiência. Essa separação é decisiva porque impede confundir certeza lógica com conhecimento empírico. Em contexto escolar, ela ajuda a perceber por que a ciência opera com evidências e probabilidades, e não com a mesma necessidade da matemática.

12. E - Hume procura mostrar que liberdade e causalidade não são necessariamente incompatíveis. Para ele, a ação humana pode ser entendida dentro de padrões regulares de comportamento e, ainda assim, ser considerada livre se expressar a vontade do próprio agente, sem imposição externa. Essa posição, conhecida como compatibilismo, é muito relevante na Filosofia porque permite pensar responsabilidade moral sem exigir uma liberdade absoluta, desligada de toda motivação, caráter ou contexto causal.

13. A - A contribuição de Hume para a reflexão sobre a ciência não consiste em destruí-la, mas em torná-la intelectualmente mais rigorosa e consciente de seus limites. Ele mostra que muitas conclusões científicas se apoiam em observações repetidas e inferências sobre o futuro, e não em demonstrações absolutas. Isso não invalida a ciência, mas revela seu caráter experimental, provisório e fundamentado em graus de confiança. Essa leitura é especialmente útil no Ensino Médio, pois ajuda a compreender a ciência como investigação crítica, e não como conjunto de dogmas.

14. D - O exemplo da água fervendo representa corretamente o funcionamento do pensamento segundo Hume. A expectativa de que determinado efeito ocorrerá não nasce de uma percepção direta de necessidade, mas da repetição de experiências semelhantes que consolidam um hábito mental. A mente associa eventos recorrentes e passa a esperar sua continuidade. Essa explicação é muito importante porque traduz em linguagem concreta a crítica humeana à causalidade e mostra como ela se aplica à vida cotidiana e à prática científica.

15. C - O núcleo da filosofia de Hume está na investigação crítica das operações da mente humana. Em vez de construir sistemas metafísicos grandiosos sobre substâncias, essências ou verdades finais, ele examina como percebemos, pensamos, acreditamos, julgamos e agimos. Seu projeto filosófico é, portanto, profundamente analítico e experimental, voltado para a experiência humana concreta. Essa característica faz de Hume um autor fundamental para o estudo da teoria do conhecimento, da ética, da ciência e da crítica filosófica moderna.

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 01/04/2026