Coivara

 

O que é coivara


A coivara é uma técnica agrícola tradicional que utiliza o corte e a queima da vegetação para preparar o terreno para o cultivo. Depois que árvores menores, arbustos e plantas rasteiras são derrubados, o material vegetal permanece no local durante determinado período para secar. Em seguida, é queimado, e as cinzas resultantes são incorporadas ao solo ou permanecem sobre sua superfície.

Essa prática também recebe o nome de agricultura de corte e queima. Durante algum tempo, as cinzas aumentam a disponibilidade de determinados nutrientes, como potássio, cálcio e fósforo. Esse efeito, porém, costuma ser temporário, pois o fogo não garante a manutenção da fertilidade do terreno por períodos prolongados.



Origem e história da coivara


O uso do fogo para preparar áreas agrícolas é uma prática muito antiga, desenvolvida por diferentes sociedades em regiões tropicais da África, da Ásia, da América e da Oceania. Antes da criação de máquinas agrícolas modernas, o corte da vegetação e sua posterior queima eram formas relativamente rápidas de abrir pequenas áreas destinadas ao plantio.

No território brasileiro, a coivara já era praticada por povos indígenas antes da chegada dos portugueses, em 1500. Posteriormente, a técnica também foi incorporada por colonizadores, caboclos, ribeirinhos, quilombolas e pequenos agricultores. Ao longo do tempo, tornou-se parte dos sistemas de produção de subsistência de diversas comunidades rurais.



Como a coivara é realizada


A primeira etapa da coivara consiste na escolha da área que será cultivada. Geralmente, seleciona-se um terreno com vegetação secundária ou que tenha permanecido em pousio durante alguns anos. Em seguida, realiza-se o corte da vegetação, utilizando instrumentos como machados, facões e foices.

Depois do corte, os galhos, troncos menores e folhas permanecem sobre o terreno para perder umidade. Quando o material está suficientemente seco, ocorre a queima controlada. As cinzas ficam depositadas sobre o solo e podem facilitar o plantio de culturas como mandioca, milho, feijão, arroz e batata-doce.

A área é cultivada por um período limitado. Quando a produtividade começa a diminuir, o terreno pode ser temporariamente abandonado para que a vegetação se recupere. Em sistemas tradicionais, os agricultores passam a utilizar outra área enquanto o antigo cultivo permanece em pousio.



Principais características da coivara


A coivara caracteriza-se pelo uso reduzido de máquinas e pela predominância do trabalho manual. Geralmente, é realizada em pequenas propriedades, aldeias indígenas e comunidades rurais que produzem alimentos para o próprio consumo ou para a comercialização em mercados locais.

Outra característica é a utilização temporária do terreno. Diferentemente da agricultura intensiva, que pode cultivar a mesma área continuamente, a coivara tradicional depende da alternância entre períodos de plantio e de repouso do solo.

A técnica também envolve conhecimentos sobre o clima, a vegetação, os ciclos agrícolas e o comportamento do fogo. Comunidades tradicionais costumam escolher o período da queima considerando fatores como umidade do solo, direção dos ventos e proximidade de áreas florestais.



A coivara e a agricultura itinerante


A coivara está frequentemente associada à agricultura itinerante, sistema em que diferentes áreas são utilizadas sucessivamente. Depois de alguns anos de cultivo, a fertilidade do solo diminui e ocorre o crescimento de plantas invasoras, o que leva os agricultores a transferirem a produção para outro terreno.

O deslocamento não significa necessariamente o abandono definitivo da área. Em muitos sistemas tradicionais, o terreno permanece em repouso durante vários anos e pode voltar a ser utilizado depois que a vegetação se recompõe parcialmente.

Quando a população é pequena, as áreas cultivadas são reduzidas e o período de pousio é longo, a agricultura itinerante pode permitir a recuperação do ambiente. Entretanto, o aumento da pressão sobre a terra pode encurtar os períodos de repouso, dificultando a regeneração da vegetação e do solo.



O pousio e a recuperação do solo


O pousio é o período em que uma área agrícola deixa de ser cultivada para que ocorram processos naturais de recuperação. Durante esse intervalo, espécies vegetais voltam a crescer, folhas e galhos se acumulam sobre o terreno e a matéria orgânica começa a ser recomposta.

As raízes das plantas ajudam a proteger o solo contra a erosão, enquanto os organismos decompositores transformam resíduos vegetais em nutrientes. A regeneração também favorece o retorno de animais, a retenção de água e a formação de uma nova cobertura vegetal.

A duração do pousio influencia diretamente a sustentabilidade da coivara. Períodos longos podem permitir uma recuperação mais significativa, enquanto intervalos muito curtos favorecem o empobrecimento do solo, a erosão e a substituição da vegetação original por espécies mais resistentes e menos diversificadas.



Culturas agrícolas produzidas na coivara


A mandioca é uma das culturas mais comuns nos sistemas de coivara no Brasil. Adaptada a diferentes condições de solo e clima, essa planta pode ser utilizada na produção de farinha, tapioca, polvilho e outros alimentos consumidos por diversas comunidades.

Também são cultivados milho, feijão, arroz, banana, cará, inhame, abóbora, amendoim e batata-doce. Em muitos casos, várias espécies são plantadas na mesma área, formando sistemas de policultura.

A diversidade de plantas contribui para a segurança alimentar das famílias e reduz a dependência de um único produto. As culturas escolhidas variam conforme o clima, as características do solo, os hábitos alimentares e os conhecimentos agrícolas de cada comunidade.



Uso da coivara pelos povos indígenas


Diversos povos indígenas brasileiros utilizam sistemas agrícolas baseados na abertura de pequenas clareiras, no plantio diversificado e na alternância das áreas cultivadas. Essas práticas são acompanhadas por conhecimentos acumulados sobre as espécies vegetais, a fertilidade do solo, os ciclos das chuvas e o manejo do fogo.

Nas roças indígenas, é comum o cultivo conjunto de mandioca, milho, feijão, batata-doce, pimenta, amendoim, banana e outras plantas. Esse sistema não se limita à produção de alimentos, pois também está relacionado à organização comunitária, às práticas culturais e à transmissão de conhecimentos entre gerações.

Quando realizada em pequenas áreas, com controle do fogo e longos períodos de pousio, a coivara indígena pode apresentar impactos menores do que as queimadas extensas destinadas à exploração comercial. Por esse motivo, é importante diferenciar o manejo tradicional da destruição de grandes áreas florestais.



Vantagens da coivara


Uma das principais vantagens da coivara é o baixo custo inicial. A técnica exige poucos equipamentos e pode ser realizada por famílias e comunidades que não possuem acesso a tratores, fertilizantes industriais ou outros recursos tecnológicos.

O fogo também facilita a limpeza do terreno, reduz temporariamente a quantidade de plantas invasoras e elimina parte dos resíduos vegetais. As cinzas liberam nutrientes que podem favorecer o desenvolvimento das culturas nos primeiros anos de plantio.

Outro benefício é a possibilidade de cultivar diferentes espécies em uma mesma área. Nos sistemas tradicionais, essa diversidade agrícola contribui para a alimentação das famílias e para a conservação de variedades locais de plantas.

Essas vantagens, entretanto, são principalmente temporárias. Sem períodos adequados de pousio e sem controle do fogo, a produtividade diminui e os danos ambientais podem superar os benefícios iniciais.



Impactos ambientais da coivara


A coivara pode provocar desmatamento quando a vegetação é retirada de áreas extensas ou quando o período de recuperação é insuficiente. A repetição frequente das queimadas impede o crescimento das árvores e reduz a diversidade de espécies vegetais.

A queima também libera fumaça, partículas e gases na atmosfera. Entre eles está o dióxido de carbono, um dos gases relacionados à intensificação do efeito estufa. Dependendo da intensidade e da extensão da queimada, a qualidade do ar pode ser prejudicada em comunidades próximas.

A fauna sofre impactos diretos e indiretos. Pequenos animais podem morrer durante o incêndio, enquanto outros perdem abrigo, alimento e locais de reprodução. A destruição da cobertura vegetal também facilita a erosão e altera a circulação da água no ambiente.

A intensidade desses impactos depende do tamanho da área, da frequência das queimadas, do tipo de vegetação, das condições climáticas e do tempo de pousio. Uma pequena roça tradicional não produz necessariamente os mesmos efeitos de uma queimada realizada em milhares de hectares.



Consequências para o solo


Logo após a queima, as cinzas podem elevar temporariamente a quantidade de alguns nutrientes disponíveis no solo. Esse efeito favorece o crescimento das primeiras plantações, especialmente em terrenos originalmente pobres em nutrientes.

Por outro lado, o fogo destrói parte da matéria orgânica e pode eliminar fungos, bactérias, insetos e outros organismos importantes para a fertilidade. Temperaturas elevadas também alteram as propriedades físicas e químicas do terreno.

Sem a proteção da vegetação, o solo fica exposto ao impacto das chuvas. A água pode carregar partículas minerais e nutrientes, provocando erosão e assoreamento de rios e córregos. Em áreas inclinadas, esses processos tendem a ser mais intensos.

A repetição das queimadas reduz progressivamente a capacidade produtiva da terra. Com o passar do tempo, o terreno pode tornar-se mais compacto, seco e pobre em nutrientes, dificultando o desenvolvimento das plantas.



Riscos das queimadas


Um dos principais riscos da coivara é a perda de controle do fogo. Ventos fortes, baixa umidade do ar e grande quantidade de material seco podem fazer com que as chamas ultrapassem os limites da roça e atinjam florestas, pastagens, casas e propriedades vizinhas.

A fumaça produzida pelas queimadas contém partículas que podem provocar irritação nos olhos, tosse e dificuldades respiratórias. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias são particularmente vulneráveis à redução da qualidade do ar.

Outro perigo envolve a morte de animais e a destruição de ninhos, tocas e áreas de alimentação. Quando o incêndio alcança grandes extensões, o equilíbrio dos ecossistemas pode ser comprometido por vários anos.

Por esses motivos, o uso do fogo exige planejamento, acompanhamento e medidas preventivas, como a abertura de aceiros. Os aceiros são faixas de terreno sem vegetação, criadas para dificultar a propagação das chamas.



Coivara no Brasil


No Brasil, a coivara está presente em diferentes regiões, principalmente em áreas ocupadas por povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos, caboclos e pequenos agricultores. Sua ocorrência é mais conhecida na Amazônia, mas também pode ser encontrada em áreas do Cerrado, da Mata Atlântica e do interior de outras regiões.

Na Amazônia, muitas comunidades utilizam pequenas roças para produzir mandioca, milho, banana e outros alimentos. O sistema costuma combinar agricultura, pesca, coleta de frutos e extrativismo vegetal.

Em determinadas áreas, a diminuição dos territórios disponíveis encurta o tempo de pousio e aumenta a pressão sobre o solo. Esse problema pode ocorrer quando comunidades tradicionais perdem acesso às terras ou ficam limitadas a espaços insuficientes para manter a alternância das áreas cultivadas.

A análise da coivara no Brasil deve considerar as diferenças de escala e finalidade. O manejo de pequenas roças de subsistência não deve ser confundido com as grandes queimadas associadas à apropriação de terras e à expansão comercial da agropecuária.



Coivara, desmatamento e expansão agropecuária


A coivara tradicional é geralmente realizada em pequenas áreas e tem como objetivo principal a produção de alimentos para famílias ou comunidades. A expansão agropecuária comercial, por sua vez, pode envolver a retirada de grandes extensões de vegetação para a formação de pastagens ou lavouras mecanizadas.

Em muitos casos, o fogo é utilizado para eliminar rapidamente a vegetação após o desmatamento. Essas queimadas podem atingir dimensões muito maiores do que as roças tradicionais e causar perda significativa de biodiversidade, emissão de gases e degradação do solo.

Também existem diferenças na duração do uso da terra. Enquanto a coivara pode incluir o pousio e a regeneração da vegetação, as áreas abertas para grandes empreendimentos agropecuários costumam permanecer continuamente ocupadas por pastagens ou monoculturas.

Por isso, o estudo geográfico da coivara precisa considerar o tamanho das áreas, os grupos sociais envolvidos, os objetivos econômicos, as técnicas utilizadas e a capacidade de recuperação dos ecossistemas.



Importância cultural e econômica da coivara


Para diversas comunidades, a coivara não é apenas uma forma de preparar o solo. A prática integra conhecimentos tradicionais relacionados às estações do ano, às plantas cultivadas, ao trabalho coletivo e ao uso dos recursos naturais.

A abertura e o cultivo das roças podem envolver a participação de diferentes membros da comunidade. Em alguns locais, as atividades são realizadas por meio de ajuda mútua, fortalecendo vínculos sociais e formas comunitárias de organização.

A produção obtida nas roças garante parte da alimentação e pode gerar renda por meio da venda de excedentes. Produtos como farinha de mandioca, milho, feijão, frutas e tubérculos são comercializados em feiras e mercados regionais.

A substituição da coivara por outras técnicas deve considerar as condições econômicas e culturais das populações envolvidas. A proibição isolada, sem assistência técnica e sem alternativas acessíveis, pode prejudicar comunidades que dependem desse sistema para sobreviver.

 

Infográfico sobre a coivara

Infográfico sobre a coivara e suas características

 

 


 

Por Marcia Rodrigues - Professora de Geografia - Graduada pela Universidade de Guarulhos (2005)

Publicado em 29/04/2020 e atualizado em 29/07/2026