Mencheviques

 

Que eram e significado

 

Os mencheviques eram um grupo político que fazia parte do POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo) no começo do século XX. Tiveram papel fundamental na queda do czarismo em 1917, durante a Revolução Russa, sendo liderados por Yuly Martov e Georgy Plekanov.

 

A palavra é de origem russa, menchinstvo, que significa minoria.

 

Origem

 

Os mencheviques surgiram em 1903, durante o Segundo Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, organização marxista fundada em 1898 para combater o regime czarista. Nesse congresso, o partido dividiu-se em duas correntes por causa de divergências sobre sua organização e sobre os caminhos da revolução. O grupo liderado por Julius Martov defendia um partido mais amplo, com maior participação de trabalhadores e simpatizantes, além de uma transformação gradual, que passaria inicialmente por uma revolução burguesa e democrática. Essa corrente recebeu o nome de menchevique, palavra russa que significa “minoria”. Seus adversários, liderados por Vladimir Lênin, ficaram conhecidos como bolcheviques, ou “maioria”, e defendiam um partido menor, centralizado e formado por revolucionários profissionais.



Principais objetivos e atuação dos mencheviques na Revolução Russa

 

Os mencheviques defendiam a queda do czarismo na Rússia e a implantação do socialismo no país. Porém, os mencheviques acreditavam que esta transição deveria ocorrer gradualmente, através de reformas políticas e econômicas. Por outro lado, os bolcheviques, comandados por Lênin, defendiam a queda do czarismo e a implantação imediata de um governo socialista, que representasse os operários e camponeses.

 

Em Fevereiro de 1917 (Revolução de Fevereiro), ocorreu a queda do czarismo com a abdicação do Czar Nicolau II. Com o apoio da burguesia, os mencheviques assumiram o poder e implantaram um governo de caráter liberal, a República da Duma, sob o comando do príncipe Georgy Lvov. Porém, os problemas enfrentados com a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, levaram a substituição do governo pelo político e advogado Alexander Kerensky, também da facção menchevique.

 

Porém, os bolcheviques estavam extremamente descontentes com o governo menchevique, que, segundo eles, não representava as mudanças necessárias para a implantação definitiva do socialismo e a chegada das massas operárias e camponesas russas ao poder. Lenin, ao retornar do exílio na Finlândia, organizou e comandou os sovietes rumo à tomada do poder. Neste contexto, ocorreu a Revolução Russa de Outubro de 1917, de caráter popular, que derrubou a República da Duma e colocou no poder o Conselho dos Comissários do Povo, liderado por Lênin.

Alexander Martinov, líder menchevique

Alexander Martinov: um dos ideólogos e líderes dos mencheviques.



Síntese das principais ideias defendidas pelos mencheviques:


• Organização partidária ampla: os mencheviques defendiam um partido político aberto à participação de trabalhadores, intelectuais e simpatizantes do socialismo. Essa posição se opunha ao modelo bolchevique de um partido mais centralizado, disciplinado e formado principalmente por revolucionários profissionais.



• Transformações graduais: acreditavam que a Rússia ainda não possuía as condições econômicas e sociais necessárias para uma revolução socialista imediata. Por isso, defendiam reformas políticas e sociais realizadas de maneira gradual.



• Revolução em etapas: segundo os mencheviques, a Rússia deveria passar inicialmente por uma revolução burguesa e democrática, responsável por derrubar o czarismo, desenvolver o capitalismo e estabelecer instituições representativas. Somente em uma etapa posterior seria possível avançar para o socialismo.



• Aliança com a burguesia liberal: consideravam necessária a cooperação entre trabalhadores, socialistas moderados e setores liberais da burguesia para combater o regime absolutista e construir uma democracia parlamentar.



• Democracia política: defendiam a criação de um governo constitucional, com eleições, liberdade de imprensa, liberdade de associação, formação de partidos políticos e participação popular nas decisões públicas.



• Crítica ao centralismo bolchevique: os mencheviques criticavam o modelo de organização defendido por Vladimir Lênin, pois consideravam que a concentração de decisões na direção partidária poderia produzir autoritarismo e limitar a participação dos militantes.



• Atuação legal e parlamentar: valorizavam a participação em sindicatos, conselhos operários, eleições e instituições políticas. Para eles, esses espaços poderiam ser utilizados para ampliar os direitos dos trabalhadores e fortalecer o movimento socialista.



• Internacionalismo socialista: mantinham compromisso com a cooperação entre trabalhadores de diferentes países. Acreditavam que o socialismo na Rússia dependeria do avanço dos movimentos revolucionários nas nações capitalistas mais industrializadas.



• Apoio condicionado ao Governo Provisório: após a queda do czar Nicolau II, em fevereiro de 1917, muitos mencheviques apoiaram o Governo Provisório, por considerarem que ele representava uma etapa democrática necessária antes da implantação do socialismo.



• Rejeição à tomada imediata do poder: os mencheviques se opuseram à Revolução de Outubro de 1917, liderada pelos bolcheviques, pois consideravam prematura a transferência do poder para um partido socialista em uma Rússia ainda pouco industrializada.

 

 

O que aconteceu com os mencheviques na Rússia nas décadas seguintes a Revolução de 1917?

 

Após a Revolução de Outubro de 1917, os mencheviques perderam espaço político para os bolcheviques, que assumiram o controle do governo russo. Eles condenaram a tomada do poder liderada por Vladimir Lênin e defenderam a criação de um governo socialista mais amplo, formado por diferentes partidos. Também criticaram a dissolução da Assembleia Constituinte, ocorrida em janeiro de 1918, e o crescimento do autoritarismo bolchevique.

Durante a Guerra Civil Russa, entre 1918 e 1921, os mencheviques adotaram posições variadas. Embora combatessem politicamente os bolcheviques, muitos deles não apoiaram os chamados Exércitos Brancos, compostos por monarquistas, conservadores e outros adversários do novo governo. Diante da ameaça de restauração do czarismo, alguns mencheviques chegaram a colaborar temporariamente com o Exército Vermelho. Mesmo assim, o governo soviético passou a considerar o partido uma ameaça política.

A repressão intensificou-se a partir de 1921. Reuniões foram proibidas, jornais foram fechados e dirigentes e militantes mencheviques foram presos, expulsos do país ou obrigados a viver na clandestinidade. Em 1922, ocorreu em Moscou um julgamento político contra membros do Partido Socialista Revolucionário, inserido no mesmo processo de eliminação dos grupos socialistas rivais. Nesse período, a atividade organizada dos mencheviques praticamente deixou de existir na Rússia Soviética.

Muitos de seus principais dirigentes seguiram para o exílio. Julius Martov deixou a Rússia em 1920 e passou a atuar na Alemanha, onde morreu em 1923. Outros exilados mantiveram publicações e organizações políticas em cidades europeias, como Berlim e Paris, denunciando a falta de democracia no regime soviético. Com a ascensão de Josef Stalin, a partir da década de 1920, antigos mencheviques que permaneceram na União Soviética foram perseguidos, presos ou executados, especialmente durante os expurgos da década de 1930.

Nas décadas seguintes, os mencheviques deixaram de representar uma força política organizada dentro da União Soviética. O termo “menchevique” passou a ser utilizado pelas autoridades stalinistas como acusação contra pessoas consideradas reformistas, moderadas ou contrárias às decisões do Partido Comunista, mesmo quando elas não pertenciam ao antigo grupo. No exterior, pequenos núcleos mencheviques continuaram ativos, mas perderam influência com o passar do tempo.

 

 




Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).