Anita Malfatti
Quem foi
Anita Malfatti foi uma pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira, considerada uma das principais precursoras do Modernismo no Brasil. Nascida em São Paulo, em 2 de dezembro de 1889, participou do processo de renovação das artes brasileiras nas primeiras décadas do século XX. Sua exposição realizada em 1917 tornou-se um marco na História da Arte brasileira, enquanto sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922 contribuiu para consolidar sua presença entre os artistas modernistas.
Biografia
Anita Catarina Malfatti nasceu em uma família de origem italiana e alemã. Era filha do engenheiro italiano Samuel Malfatti e da norte-americana Eleonora Elizabeth Krug, conhecida como Bety Malfatti. Desde o nascimento, apresentava uma deficiência no braço e na mão direita. Ainda criança, passou por uma cirurgia na Itália, mas não recuperou completamente os movimentos. Por essa razão, aprendeu a escrever, desenhar e pintar utilizando a mão esquerda.
A presença da arte em sua vida começou no ambiente familiar. Sua mãe, que possuía conhecimentos de pintura e desenho, tornou-se uma das primeiras responsáveis por sua formação artística. Após a morte do pai, em 1901, Bety Malfatti passou a ministrar aulas para sustentar a família, enquanto Anita aprofundava seu interesse pelas atividades artísticas.
Em 1910, com o apoio financeiro de um tio, Anita viajou para a Alemanha, onde permaneceu até 1914. Estudou em Berlim e teve contato com professores, museus, exposições e tendências artísticas diferentes daquelas predominantes no Brasil. A experiência europeia foi decisiva para sua formação profissional e para o desenvolvimento de uma trajetória vinculada à renovação da pintura brasileira.
Com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Anita retornou ao Brasil. No ano seguinte, viajou para os Estados Unidos, onde estudou em Nova York, principalmente na Independent School of Art. Durante essa permanência, entrou em contato com artistas, professores e métodos de ensino que valorizavam a liberdade de criação. Retornou ao Brasil em 1916 e passou a apresentar ao público parte da produção realizada no exterior.
Em dezembro de 1917, Anita organizou uma exposição individual em São Paulo. O evento provocou intensa repercussão nos meios culturais, sobretudo depois da publicação de uma crítica de Monteiro Lobato. Apesar das reações negativas, a exposição aproximou a artista de jovens escritores e intelectuais interessados na renovação cultural brasileira, entre eles Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia.
Nos anos seguintes, Anita passou a integrar os círculos modernistas de São Paulo. Em fevereiro de 1922, participou da Semana de Arte Moderna, realizada no Theatro Municipal de São Paulo. Também fez parte do chamado Grupo dos Cinco, formado por ela, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia. O grupo desempenhou papel importante na divulgação das propostas modernistas no país.
Em 1923, Anita recebeu uma bolsa do governo paulista e viajou para Paris, onde permaneceu por aproximadamente cinco anos. Durante esse período, frequentou cursos, participou de exposições e conviveu com artistas brasileiros e europeus. A temporada francesa ampliou sua formação profissional e fortaleceu sua participação no meio artístico internacional.
Após retornar definitivamente ao Brasil, em 1928, dedicou-se à pintura e ao ensino de Arte. Ministrou aulas em escolas, ateliês e instituições de ensino, atividade que se tornou uma importante fonte de renda. Também participou de exposições coletivas, salões oficiais e associações de artistas. Entre essas iniciativas estavam a Sociedade Pró-Arte Moderna, a Família Artística Paulista e os Salões Paulistas de Belas Artes.
Durante as décadas de 1930 e 1940, Anita manteve participação ativa na vida cultural de São Paulo. Em 1931, integrou o Salão Revolucionário, no Rio de Janeiro, e, em 1942, tornou-se presidente do Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras e mudanças na recepção de seu trabalho, continuou produzindo, ensinando e expondo.
Na vida pessoal, Anita Malfatti não se casou nem teve filhos. Manteve relações próximas com familiares, alunos, artistas e intelectuais, especialmente com Mário de Andrade, com quem trocou extensa correspondência. Nos últimos anos de vida, residiu em uma chácara no município de Diadema, na Região Metropolitana de São Paulo, onde continuou pintando e recebendo amigos.
Anita Malfatti faleceu em São Paulo, em 6 de novembro de 1964, aos 74 anos.
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| Anita Malfatti com 23 anos (foto de 1912) |
Principais características de suas pinturas e do seu etilo artístico:
• Presença de renovação artística, característica típica dos artistas modernistas.
• Suas obras são caracterizadas pela presença de cores vivas e vibrantes.
• Obra marcada pela influência da estética do cubismo e do expressionismo. Embora tenha recebido essas influências, desenvolveu seu estilo artístico particular.
• Sua obra é caracterizada pela realização de pinturas, desenhos e gravuras.
• Sua principal técnica foi a pintura a óleo sobre tela.
• Abordou temas relacionados ao dia a dia e a experiências pessoais.
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| A Ventania (1917) |
Principais obras de Anita Malfatti:
“O Homem Amarelo” (1915-1916)
Considerada uma das obras mais conhecidas de Anita Malfatti, a pintura apresenta um homem sentado, representado com formas simplificadas, contornos marcados e cores intensas. O amarelo utilizado na figura não busca reproduzir fielmente a aparência humana, mas expressar sensações e estados psicológicos. A obra demonstra a influência do Expressionismo, movimento artístico europeu que valorizava a subjetividade e a deformação intencional das formas.
“A Estudante Russa” (1915)
Nessa pintura, Anita retratou uma jovem que conheceu durante seu período de estudos nos Estados Unidos. A figura apresenta expressão séria e introspectiva, enquanto as pinceladas visíveis e as áreas de cores contrastantes reforçam sua dimensão emocional. O fundo e a personagem não são representados de maneira realista, pois a artista privilegiou a liberdade de composição e a expressão individual.
“A Boba” (1915-1916)
A obra representa uma mulher sentada, com expressão distante e postura aparentemente rígida. As cores fortes, como amarelo, azul, verde e vermelho, foram aplicadas de maneira livre e contrastante. A figura possui traços deformados propositalmente, característica relacionada ao Expressionismo. “A Boba” tornou-se um símbolo da renovação artística promovida por Anita Malfatti no Brasil.
“A Mulher de Cabelos Verdes” (1915-1916)
O retrato apresenta uma mulher idosa com cabelos pintados em tons de verde, escolha que rompe com a representação naturalista. O rosto possui linhas marcadas e expressão intensa, enquanto o uso de cores não convencionais amplia o caráter emocional da pintura. A obra evidencia a intenção da artista de representar sentimentos e características psicológicas, em vez de reproduzir apenas a aparência física da modelo.
“O Japonês” (1915-1916)
Nesse retrato, o personagem aparece com traços simplificados, pinceladas fortes e cores contrastantes. A postura e a expressão facial produzem uma sensação de concentração e introspecção. Anita utilizou deformações e combinações cromáticas pouco convencionais para construir uma imagem mais subjetiva, afastando-se dos padrões acadêmicos predominantes na Arte brasileira daquele período.
“Retrato de Lalive” (1915-1917)
A pintura retrata um homem de maneira expressiva, com destaque para o rosto, os olhos e os contornos da figura. As cores foram utilizadas de forma livre, sem a preocupação de reproduzir exatamente os tons naturais. O quadro revela a influência das experiências artísticas vividas por Anita nos Estados Unidos e seu interesse pela representação psicológica das pessoas.
“A Ventania” (1915-1917)
Diferentemente dos retratos mais conhecidos da artista, “A Ventania” apresenta uma paisagem marcada pelo movimento. As árvores aparecem inclinadas, como se fossem atingidas por fortes rajadas de vento, enquanto as pinceladas curvas e as cores intensas reforçam a sensação de instabilidade. A natureza não é mostrada de maneira tranquila, mas como uma força dinâmica e expressiva.
“O Farol” (1915)
Produzida durante a permanência de Anita Malfatti nos Estados Unidos, a obra apresenta uma paisagem litorânea com um farol cercado por vegetação, construções e formas onduladas. As cores intensas e as pinceladas aparentes criam movimento e profundidade. A composição demonstra a influência do Expressionismo e das experiências da artista com novas linguagens pictóricas.
“A Onda” (1915-1917)
A força do mar constitui o elemento principal dessa pintura. As formas curvas, as pinceladas rápidas e a combinação de cores transmitem a agitação das águas. Em lugar de uma paisagem detalhada e realista, Anita produziu uma representação baseada no movimento, na intensidade e na impressão emocional provocada pela natureza.
“Tropical” (1916-1917)
A obra apresenta uma mulher em meio a elementos associados à vegetação e ao ambiente tropical. Embora conserve características modernas, a pintura também revela o interesse da artista pela construção de temas relacionados ao Brasil. A composição aproxima a figura humana da paisagem e antecipa a busca dos modernistas por uma Arte que dialogasse com a realidade cultural brasileira.
“Chanson de Montmartre” (1926)
Produzida durante a permanência de Anita Malfatti em Paris, a pintura representa o ambiente urbano e cultural do bairro de Montmartre, conhecido pela presença de artistas, cafés e espetáculos. A obra apresenta uma composição mais equilibrada e cores menos agressivas do que aquelas utilizadas em sua fase expressionista. Essa mudança demonstra o contato da pintora com tendências artísticas mais moderadas da Europa da década de 1920.
“Samba” (década de 1940)
Nessa composição, a artista abordou uma manifestação cultural ligada à música e à dança brasileiras. As figuras humanas aparecem reunidas em uma cena coletiva, marcada pelo ritmo e pela movimentação dos corpos. A obra demonstra o interesse de Anita por temas populares e nacionais, característica que se tornou mais presente em sua produção nas décadas posteriores à Semana de Arte Moderna.
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O farol (1915), obra do período expressionista de Anita Malfatti. |
Legado artístico
Anita Malfatti deixou um legado significativo para as artes brasileiras, especialmente como uma das principais precursoras do modernismo no país. Sua ousadia estética e temática rompeu com as convenções acadêmicas tradicionais, introduzindo ao Brasil influências das vanguardas europeias, como o expressionismo e o cubismo. A exposição de 1917, embora criticada por setores conservadores, abriu um intenso debate sobre os rumos da arte no Brasil, inspirando uma nova geração de artistas a explorar linguagens inovadoras e a valorizar a identidade cultural nacional. Sua contribuição foi crucial para a Semana de Arte Moderna de 1922, consolidando-a como um marco na história cultural do Brasil e como referência de liberdade criativa e autenticidade artística.
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| A Estudante (1915-1916): pintura de Anita Malfatti. Acervo do MASP. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)
Atualizado em 23/07/2026
Temas relacionados
Bibliografia e vídeos indicados:
Fontes de referência do texto:
http://anitamalfatti.ieb.usp.br/
MENDES DE ALMEIDA, Paulo. De Anita ao museu. São Paulo: Perspectiva, 1976.
AMARAL, Aracy (Org.). Artes plásticas na Semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1970.
Vídeo indicado no YouTube:
- Anita Malfatti, Pintora - Vida & Obra | Canal Arte & Educação




