Mark Fisher


Introdução

Mark Fisher (1968–2017) foi um filósofo britânico e crítico cultural que escreveu sobre as relações entre capitalismo e experiência cotidiana. Em seus livros e no blog k-punk, examinou como as pessoas trabalham, consomem cultura e imaginam o futuro. Também relatou sua experiência com a depressão e discutiu a tendência de atribuir ao indivíduo problemas que envolvem relações de classe.

Fisher escreveu a partir de uma perspectiva marxista, em diálogo com a filosofia continental. Ao analisar uma canção ou uma sala de aula, investigava os desejos e as expectativas que as pessoas desenvolvem sob determinadas condições históricas. Seu conceito de realismo capitalista descreve a dificuldade de conceber uma sociedade organizada por critérios que ultrapassem a concorrência e a rentabilidade.

 

Foto do filósofo Mark Fisher
Mark Fisher (1968–2017) foi um filósofo, crítico cultural e teórico político britânico, conhecido por suas análises sobre o capitalismo contemporâneo, a cultura de massa e seus efeitos na sociedade.



Formação filosófica e trajetória docente

Na Universidade de Warwick, Fisher participou da Cybernetic Culture Research Unit, conhecida pela sigla CCRU. Os integrantes desse grupo experimental aproximavam teoria filosófica e cultura eletrônica, recorrendo à ficção científica para discutir a experiência humana em ambientes tecnológicos. Em 1999, ele concluiu o doutorado em Filosofia com a tese "Flatline Constructs: Gothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction".

Nessa pesquisa, investigou as fronteiras entre seres vivos e máquinas, com atenção à literatura cyberpunk. Leu autores como J. G. Ballard e dialogou com Gilles Deleuze e Félix Guattari. A discussão sobre corpos e tecnologias já ocupava sua escrita antes dos livros pelos quais se tornaria conhecido.

Fisher lecionou em uma instituição britânica de educação pós-secundária e depois trabalhou no Departamento de Culturas Visuais de Goldsmiths, na Universidade de Londres. Ali coordenou o mestrado em Teoria da Arte Contemporânea. Em suas aulas, relacionava leitura filosófica e produção cultural, incluindo debates sobre o desejo de viver em uma sociedade pós-capitalista.



O blog k-punk e a escrita fora da universidade

No k-punk, Fisher publicava ensaios sobre música e política, entre outros temas. Os leitores acompanhavam suas interpretações e podiam discutir com ele nos comentários. O formato permitia desenvolver argumentos fora dos prazos de publicação acadêmica e conectar debates teóricos a acontecimentos culturais.

Ao escrever sobre Joy Division ou sobre o produtor de música eletrônica Burial, Fisher examinava como os músicos elaboravam experiências de isolamento e lembranças de formas anteriores de convivência. Tratava os ouvintes como participantes de uma discussão filosófica, capazes de reconhecer nos sons problemas que também atravessavam sua vida.



O conceito de realismo capitalista

Em "Capitalist Realism: Is There No Alternative?", publicado em 2009, Fisher descreveu a crença de que o capitalismo constitui a única organização econômica viável. Uma pessoa pode desaprovar a desigualdade e ainda considerar impossível organizar a produção por outras regras. Fisher chamou de realismo capitalista essa aceitação dos limites do sistema, inclusive entre aqueles que o criticam.

O autor situou essa experiência no período posterior à queda do Muro de Berlim, quando dirigentes e comentaristas passaram a tratar as alternativas ao capitalismo como projetos superados. Ao empregar a palavra realismo, examinava quem tinha autoridade para definir uma proposta como praticável. A expressão carregava uma crítica à maneira como escolhas políticas eram apresentadas como exigências inevitáveis da realidade.

Um exemplo hipotético ajuda a acompanhar o argumento: moradores podem desejar transporte público acessível, enquanto os responsáveis pelo serviço aceitam discutir apenas medidas que assegurem retorno financeiro. Antes de comparar propostas, eles já restringiram os critérios da decisão. Fisher investigava esse estreitamento da imaginação política e as possibilidades de contestá-lo.



Educação e impotência reflexiva

A partir de sua experiência docente, Fisher descreveu a impotência reflexiva: a atitude de quem reconhece um problema, mas acredita que qualquer tentativa de mudança fracassará. Essa convicção pode desencorajar a participação em ações coletivas. Quem deixa de agir por antecipar o fracasso contribui para conservar as condições que julgava impossíveis de alterar.

No ensaio "Reflexive Impotence", relacionou essa atitude à posição dos estudantes britânicos, tratados como consumidores de serviços educacionais e pressionados a conseguir qualificações. Também discutiu a dificuldade de sustentar a atenção diante do entretenimento contínuo. Suas observações partiram de turmas e condições institucionais específicas; a leitura desses exemplos exige preservar esse recorte, sem atribuir o mesmo comportamento a todos os jovens.



Depressão e relações de classe

No ensaio "Good for Nothing", de 2014, Fisher relatou episódios de depressão e a sensação de ocupar lugares para os quais não se considerava capaz. Descreveu esse sentimento durante a pós-graduação e em empregos temporários. Mesmo ao conseguir trabalhar como professor, continuou a questionar se tinha condições de exercer aquela função.

Ao interpretar a própria experiência, aproximou a autodepreciação das hierarquias de classe. Pessoas com menor segurança econômica podem aprender a considerar certas ocupações fora de seu alcance e culpar a si mesmas pelas dificuldades que enfrentam. Fisher criticava discursos que prometem sucesso a qualquer pessoa disposta a se esforçar, sem examinar as oportunidades disponíveis.

Seu argumento propunha incluir as condições de vida na discussão sobre sofrimento psíquico. Trata-se de uma interpretação política da experiência, cujo alcance precisa ser distinguido de uma explicação clínica individual. As relações entre trabalho e sofrimento permitem investigar pressões sociais; diagnósticos e decisões de tratamento exigem avaliação própria.



Hauntologia e futuros perdidos

Em "Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures", lançado em 2014, Fisher reuniu ensaios sobre cultura e expectativas históricas frustradas. Para discutir essas experiências, retomou a hauntologia de Jacques Derrida, um conceito que permite pensar a presença de vestígios e possibilidades ausentes. Na escrita de Fisher, os fantasmas incluem futuros que as pessoas esperaram viver e que deixaram de parecer alcançáveis.

Na música, ele prestava atenção a gravações em que os artistas usavam ruídos e vozes fragmentadas para criar uma impressão de distância temporal. Em sua interpretação de Burial, associava esses procedimentos às lembranças da cultura das raves e às promessas de convivência que os ouvintes reconheciam em seus vestígios sonoros.

Fisher examinava, assim, uma relação com o passado que envolvia expectativas de mudança. O ouvinte podia reconhecer uma época anterior e sentir falta das possibilidades que imaginara a partir dela. Para o autor, discutir esses futuros perdidos permitia perguntar quais condições haviam restringido as experiências culturais desejadas.



O estranho e o inquietante

Em "The Weird and the Eerie", Fisher investigou duas formas de experiência estética associadas ao encontro com o desconhecido. No weird, o estranho, o leitor ou espectador encontra algo que parece incompatível com o mundo em que surgiu. Já no eerie, o inquietante, percebe uma ausência ou presença inesperada e começa a perguntar quem, ou o que, poderia ter produzido aquela situação.

Uma criatura que rompe as categorias pelas quais se reconhecem os seres oferece um exemplo do estranho. Um lugar abandonado em que se escuta uma atividade sem identificar seu responsável pode provocar o inquietante. Fisher analisou essas experiências por meio de obras literárias e cinematográficas. Incluiu autores como H. P. Lovecraft e Margaret Atwood, discutindo também o fascínio que o desconhecido pode despertar.



Comunismo ácido e desejo pós-capitalista

Nos últimos anos de sua vida, Fisher trabalhou no projeto "Acid Communism", ou "Comunismo ácido". Nele, retomava experiências da contracultura e tentativas de ampliar a consciência coletiva sobre as condições de vida. O termo ácido remetia à cultura psicodélica e à possibilidade de transformar os hábitos pelos quais as pessoas percebem o mundo.

Fisher discutia como desejos de liberdade e prazer poderiam participar de um projeto de emancipação coletiva. Também perguntava como as pessoas aprendem a desejar dentro das relações capitalistas. Deixou esse trabalho inacabado; a introdução disponível permite acompanhar suas hipóteses, enquanto as aulas finais registram discussões que ele desenvolvia com os estudantes.



Publicações póstumas e leitura de sua obra

Após a morte de Fisher, em janeiro de 2017, editores reuniram textos que estavam dispersos em publicações e no blog. Darren Ambrose organizou "k-punk: The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher (2004–2016)", lançado em 2018, com prefácio de Simon Reynolds. O volume incluiu a introdução inacabada de "Acid Communism".

Matt Colquhoun editou "Postcapitalist Desire: The Final Lectures", publicado em 2020, a partir das aulas ministradas em Goldsmiths no final de 2016. Os leitores podem acompanhar perguntas e intervenções que Fisher discutia em sala, em um formato distinto dos ensaios que preparou para publicação.

Ao ler sua obra, convém observar o alcance dos exemplos: Fisher escreveu com frequência sobre instituições britânicas e sobre repertórios musicais que conhecia. Aplicar seus conceitos a outro país exige examinar as relações de trabalho e a produção cultural desse lugar. Seus relatos de sala de aula, por exemplo, oferecem material para comparação com pesquisas locais sobre a experiência dos estudantes.

 

 

Influências:

 

- Karl Marx: crítica ao capitalismo e às relações de exploração econômica.


- Fredric Jameson: análise do pós-modernismo, da cultura contemporânea e da dificuldade de imaginar alternativas ao capitalismo.


- Gilles Deleuze e Félix Guattari: reflexões sobre desejo, subjetividade, capitalismo e produção cultural.


- Michel Foucault: influência das relações de poder e dos mecanismos de controle social.


- Jacques Lacan: contribuições da psicanálise para compreender o desejo, a ideologia e a subjetividade.


- Slavoj Žižek: crítica da ideologia e investigação dos mecanismos que sustentam o capitalismo.


- Antonio Gramsci: influência do conceito de hegemonia cultural na compreensão da dominação ideológica.


- Stuart Hall: estudos culturais e análise das relações entre cultura, política e sociedade.


- Jacques Derrida: influência do conceito de espectralidade, especialmente na formulação da hauntologia.


- Escola de Frankfurt: crítica à indústria cultural, ao consumismo e à mercantilização da vida cotidiana.



Você sabia?

• Fisher também produziu ensaios sonoros. Com Justin Barton, criou "On Vanishing Land", apresentado no espaço artístico The Showroom, em Londres, em 2013. A obra dura 45 minutos e combina narração com música para percorrer uma paisagem entre o porto de Felixstowe e o sítio arqueológico de Sutton Hoo.

• Em uma postagem do k-punk, Fisher contou que quase chamou o blog de "Ghosts of My Life", em homenagem à canção "Ghosts", da banda Japan, e ao uso da voz de David Sylvian por Rufige Kru. Anos depois, empregou aquele nome em seu livro de ensaios.



Resumo de suas ideias principais:

 

- Realismo capitalista: ideia de que o capitalismo se tornou tão dominante que parece impossível imaginar um sistema econômico e social alternativo.

 

- Crítica ao neoliberalismo: questionamento da lógica de mercado aplicada à educação, à saúde, ao trabalho e às relações sociais.

 

- Hauntologia: conceito que expressa a presença de futuros que foram imaginados no passado, mas nunca se concretizaram, especialmente na cultura e na política.

 

- Saúde mental e capitalismo: compreensão de que problemas como depressão, ansiedade e sofrimento psicológico também possuem causas sociais, econômicas e políticas.

 

- Crítica à cultura contemporânea: análise da repetição de fórmulas culturais e da dificuldade de produzir novidades em uma sociedade dominada pelo mercado.

 

- Individualização dos problemas sociais: crítica à tendência de responsabilizar os indivíduos por dificuldades que possuem origens estruturais.

 

- Burocracia neoliberal: crítica à expansão dos mecanismos de avaliação, controle e produtividade nas instituições públicas e privadas.

 

- Perda da imaginação política: ideia de que o capitalismo limita a capacidade coletiva de imaginar e construir sociedades diferentes.

 

- Cultura popular e resistência: valorização da música, do cinema e de outras manifestações culturais como espaços de crítica social e contestação política.

 

- Consciência de classe e transformação social: defesa da construção de alternativas coletivas ao capitalismo, superando o individualismo e a resignação diante das desigualdades.

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 10/10/2026