Plebiscito
O que é plebiscito?
Plebiscito é uma forma de consulta popular na qual os cidadãos são convocados a votar diretamente sobre uma questão política, administrativa, constitucional ou territorial considerada relevante. Em vez de escolher representantes, como ocorre nas eleições, o eleitor manifesta sua posição sobre um assunto específico, geralmente selecionando entre duas ou mais opções previamente estabelecidas.
No Brasil, o plebiscito é um dos instrumentos de exercício direto da soberania popular previstos na Constituição Federal de 1988. Sua principal característica é a realização da consulta antes da adoção da decisão política ou da criação do ato legislativo ou administrativo correspondente. Nesse aspecto, diferencia-se do referendo, no qual os eleitores são chamados posteriormente para confirmar ou rejeitar uma decisão que já foi tomada pelos poderes públicos.
Origem
A palavra plebiscito tem origem no latim "plebiscitum", expressão formada por "plebs" (plebe) e "scitum" (decisão ou decreto). Sua origem histórica encontra-se na República Romana, especialmente nas decisões tomadas pela plebe reunida em assembleias próprias. Inicialmente, essas decisões estavam relacionadas principalmente aos plebeus, grupo social que não fazia parte da aristocracia patrícia.
Um momento importante desse processo ocorreu em 287 a.C., com a aprovação da "Lex Hortensia". A partir dela, as decisões tomadas pela assembleia da plebe passaram a ter força legal para todos os cidadãos romanos, incluindo os patrícios. Apesar dessa origem, os plebiscitos da Antiguidade não correspondiam exatamente às consultas populares modernas, pois a participação política romana era organizada segundo critérios sociais e jurídicos muito diferentes daqueles existentes nas democracias contemporâneas.
Nos séculos XIX e XX, consultas populares passaram a ser utilizadas com maior frequência em diferentes países, sobretudo para decidir questões territoriais, constitucionais, formas de governo e mudanças políticas importantes. Com o desenvolvimento das democracias modernas, o plebiscito tornou-se um dos mecanismos associados à chamada democracia direta ou semidireta.
Como funciona na prática
A realização de um plebiscito começa com a definição de uma questão que será submetida diretamente aos eleitores. Essa pergunta deve ser apresentada de maneira suficientemente clara para permitir que os cidadãos compreendam as alternativas disponíveis. Antes da votação, normalmente ocorre um período de debate público, durante o qual grupos políticos, organizações sociais e meios de comunicação apresentam diferentes argumentos.
Na data estabelecida, os cidadãos habilitados comparecem às urnas e escolhem uma das alternativas apresentadas. Encerrada a votação, os votos são contabilizados e o resultado orienta a decisão sobre a matéria consultada, de acordo com as regras jurídicas de cada país.
No Brasil, plebiscito e referendo estão previstos no artigo 14 da Constituição Federal de 1988 e são regulamentados pela Lei nº 9.709, de 18 de novembro de 1998. Em questões de relevância nacional, a convocação ocorre mediante decreto legislativo. A Justiça Eleitoral organiza a votação, estabelece procedimentos e realiza a apuração.
Diferença entre plebiscito e referendo
Embora sejam instrumentos de consulta popular, plebiscito e referendo não são sinônimos. A principal diferença está no momento em que a população é consultada.
No plebiscito, a consulta ocorre antes da decisão política ou da elaboração do ato legislativo ou administrativo. Os cidadãos indicam previamente qual caminho deverá ser seguido. No referendo, a consulta ocorre depois que determinado ato foi aprovado ou estabelecido, permitindo que os eleitores o confirmem ou rejeitem.
Um exemplo brasileiro ajuda a compreender essa diferença. Em 1993, os eleitores escolheram entre monarquia e república e entre parlamentarismo e presidencialismo, caracterizando um plebiscito. Já em 2005, a população foi consultada sobre uma disposição relacionada à comercialização de armas de fogo e munições prevista no Estatuto do Desarmamento, configurando um referendo.
Exemplos na História:
Plebiscito brasileiro de 1993
Em 21 de abril de 1993, os brasileiros participaram de uma das mais importantes consultas populares da história política nacional. A realização do plebiscito havia sido determinada pela Constituição Federal de 1988, por meio do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Os eleitores deveriam decidir duas questões fundamentais. A primeira dizia respeito à forma de governo, escolhendo entre república e monarquia constitucional. A segunda tratava do sistema de governo, com as opções presidencialismo e parlamentarismo. A república recebeu ampla maioria dos votos, enquanto o presidencialismo venceu a disputa sobre o sistema de governo. Dessa maneira, foram mantidas características fundamentais da organização política brasileira estabelecida desde o final do século XIX e consolidada ao longo do período republicano.
Plebiscito sobre a divisão do Pará, em 2011
Em 11 de dezembro de 2011, os eleitores do Pará foram consultados sobre propostas de divisão do território estadual. Pretendia-se criar dois novos estados, Carajás e Tapajós, que seriam desmembrados do Pará.
Os eleitores responderam separadamente se eram favoráveis à criação de cada um dos novos estados. A maioria rejeitou as duas propostas. Como resultado, o território paraense permaneceu sem alterações. O episódio constitui um exemplo importante da utilização do plebiscito para decidir questões relacionadas à organização territorial brasileira.
Plebiscito do Chile de 1988
Em 5 de outubro de 1988, os cidadãos chilenos participaram de uma consulta decisiva para a história política do país. A questão principal era determinar se o general Augusto Pinochet, que governava o Chile desde o golpe militar de 1973, permaneceria na Presidência por um novo período.
A opção "Não" venceu com aproximadamente 56% dos votos válidos, enquanto cerca de 44% votaram pelo "Sim". O resultado abriu caminho para a realização de eleições presidenciais e parlamentares em 1989 e contribuiu para o processo de transição do regime autoritário para um governo democrático.
Consulta popular no Timor-Leste, em 1999
Em 30 de agosto de 1999, a população do Timor-Leste participou de uma consulta organizada com a participação das Nações Unidas para decidir o futuro político do território, então ocupado e administrado pela Indonésia.
A maioria dos eleitores rejeitou a proposta de autonomia dentro da Indonésia, optando pelo caminho que conduziria à independência. Depois de um período marcado por grave violência e intervenção internacional, o Timor-Leste tornou-se oficialmente independente em 20 de maio de 2002. O episódio demonstra como consultas populares também podem desempenhar papel decisivo na definição da soberania e do destino político de territórios.
Plebiscito de Roma em 1870
O plebiscito de Roma de 1870 ocorreu em 2 de outubro, poucos dias depois da entrada das tropas do Reino da Itália na cidade, em 20 de setembro, episódio conhecido como Tomada de Roma. A consulta perguntou à população se desejava a incorporação de Roma e dos antigos Estados Pontifícios ao Reino da Itália sob a monarquia constitucional da Casa de Saboia. O resultado foi amplamente favorável à anexação, consolidando Roma como parte do Estado italiano e encerrando, na prática, o poder territorial dos papas sobre a região. Em 1871, Roma tornou-se oficialmente a capital do Reino da Itália, marcando uma etapa decisiva da unificação italiana, o chamado Risorgimento.
Plebiscitos e questões territoriais
Ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, consultas populares foram empregadas em diferentes partes do mundo para decidir mudanças de fronteiras, independência, autonomia política e incorporação de territórios. Esse tipo de votação tornou-se especialmente relevante quando a legitimidade de determinada configuração territorial dependia da manifestação da população diretamente envolvida.
Contudo, o simples emprego da palavra plebiscito não garante que uma consulta seja democrática. Em regimes autoritários, governantes também recorreram a votações populares para buscar legitimação política. Por isso, historiadores e cientistas políticos analisam não apenas o resultado, mas também as condições em que a votação ocorreu, como liberdade de expressão, possibilidade de oposição, acesso equilibrado à informação, transparência na apuração e ausência de coerção.
O plebiscito no Brasil
A primeira Constituição brasileira a mencionar expressamente o plebiscito foi a Constituição de 1937, promulgada durante o governo de Getúlio Vargas. O próprio texto constitucional previa que seria submetido a uma consulta popular, procedimento que nunca chegou a acontecer. A Constituição de 1946 também estabeleceu possibilidades de consulta popular relacionadas a mudanças territoriais entre os estados.
Na crise política de 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, foi instituído o parlamentarismo como solução para permitir a posse do vice-presidente João Goulart. Em 6 de janeiro de 1963, uma consulta popular decidiu sobre a continuidade desse sistema. Embora seja muitas vezes chamada popularmente de plebiscito, a Justiça Eleitoral a classifica historicamente como referendo, pois a população se pronunciou sobre um sistema que já havia sido implantado. A maioria decidiu pela restauração do presidencialismo.
Com a Constituição Federal de 1988, a participação direta da população recebeu maior definição jurídica. O artigo 14 estabelece o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular como instrumentos de exercício da soberania popular. A Constituição também determina consultas plebiscitárias em determinadas situações relacionadas à incorporação, subdivisão ou desmembramento de estados e às alterações territoriais envolvendo municípios.
Vantagens e limites do plebiscito
Entre as principais vantagens do plebiscito está a possibilidade de participação direta dos cidadãos em decisões de grande relevância. Em determinadas situações, uma questão política pode ultrapassar os limites das disputas partidárias e justificar uma manifestação direta do eleitorado. O mecanismo também pode ampliar a legitimidade política de decisões que provocam profundas consequências institucionais ou territoriais.
Existem, entretanto, limitações. Questões políticas complexas podem ser reduzidas a alternativas simples, como "sim" ou "não", deixando de representar todas as posições existentes na sociedade. Campanhas marcadas por desinformação, desigualdade econômica entre os grupos envolvidos ou formulação tendenciosa da pergunta também podem comprometer a qualidade da decisão popular.
Por essa razão, a realização de um plebiscito democrático exige regras claras, liberdade de debate, transparência, acesso a informações confiáveis e instituições capazes de assegurar a legitimidade do processo eleitoral.
Importância no contexto da democracia
O plebiscito amplia as possibilidades de participação política porque permite que os cidadãos intervenham diretamente em determinadas decisões públicas. Enquanto a democracia representativa funciona principalmente por meio da eleição de representantes, mecanismos como plebiscitos, referendos e iniciativas populares acrescentam formas de participação direta ao funcionamento das instituições.
Sua importância também está relacionada ao princípio da soberania popular, segundo o qual a autoridade política deriva, em última instância, dos cidadãos. Em questões de grande impacto, a consulta direta pode conferir maior legitimidade às decisões e estimular debates públicos sobre assuntos fundamentais para o país ou para determinada região.
Ao mesmo tempo, o plebiscito não substitui as instituições representativas, o Poder Legislativo, as garantias constitucionais ou a proteção dos direitos fundamentais. Nas democracias contemporâneas, sua função é complementar os mecanismos representativos. Seu valor democrático depende tanto da participação dos eleitores quanto da existência de condições que assegurem uma escolha livre, informada e transparente.
Conclusão
Historicamente, o plebiscito passou de uma forma específica de decisão política existente na Roma Antiga para um instrumento moderno de consulta direta aos cidadãos. Sua utilização esteve associada a questões territoriais, mudanças institucionais, sistemas de governo, independência e momentos de transformação política.
Nas democracias atuais, sua principal contribuição está na possibilidade de aproximar determinadas decisões do conjunto do eleitorado. Contudo, uma análise histórica demonstra que consultas populares devem ser avaliadas considerando o contexto em que são realizadas. Liberdade política, pluralidade de opiniões, transparência eleitoral e respeito aos direitos fundamentais são condições essenciais para que um plebiscito represente efetivamente uma manifestação democrática da vontade popular.
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Ilustração (alegoria) sobre o Plebiscito de Roma em 1870 |
Você sabia?
A realização do plebiscito está prevista na Constituição Federal do Brasil de 1988, no artigo 14.
Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/08/2026

