Jacques le Goff

 

Quem foi

 

Jacques Le Goff foi um importante historiador francês, que se dedicou ao estudo da Idade Média. Fez parte da terceira geração da Escola dos Annales, dedicando grande parte de sua obra à História das Mentalidades. Fez estudos aprofundados sobre a cultura e mentalidade do homem na Idade Média. Abordou, em suas obras (mais de 40 livros), aspectos sociológicos, psicológicos, religiosos, antropológicos, artísticos, comportamentais, econômicos e sociais. Suas obras são consideradas referências de extrema importância para o estudo da Idade Média.

 

A grande contribuição dos seus estudos foi no sentido de mostrar a Idade Média como um período dinâmico, ao contrário dos estudos tradicionais anteriores, que mostravam apenas os aspectos econômicos e militares. Desta forma, ele mudou a visão que havia até então sobre a Idade Media. É considerado um dos principais historiadores da Nova História (Nouvelle Histoire).

 

Biografia



Jacques Le Goff nasceu em 1º de janeiro de 1924, na cidade de Toulon, no sul da França. Filho de uma família de professores, cresceu em um ambiente marcado pela valorização da educação e da cultura. Durante a juventude, viveu o período da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), experiência que influenciou sua formação intelectual e sua visão crítica sobre a sociedade europeia.

Após concluir os estudos secundários, ingressou na Escola Normal Superior de Paris, uma das instituições mais prestigiadas da França. Também estudou na Universidade Carolina de Praga, na antiga Tchecoslováquia, e na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Sua formação acadêmica concentrou-se principalmente na História medieval, área à qual dedicaria grande parte de sua trajetória profissional.

Em 1950, Le Goff foi aprovado na agrégation, exigente concurso francês para professores. Nos anos seguintes, trabalhou como pesquisador e professor em diferentes instituições europeias. Entre 1954 e 1959, atuou no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, conhecido pela sigla CNRS. Posteriormente, passou a lecionar na Universidade de Lille.

A partir de 1960, começou a trabalhar na École Pratique des Hautes Études, em Paris, instituição que mais tarde deu origem à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Nesse ambiente, conviveu com importantes historiadores franceses e fortaleceu sua ligação com a Escola dos Annales, corrente historiográfica criada por Marc Bloch e Lucien Febvre em 1929.

Jacques Le Goff tornou-se um dos principais representantes da terceira geração da Escola dos Annales. Em 1972, sucedeu Fernand Braudel na presidência da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, cargo que ocupou até 1977. Durante sua gestão, contribuiu para ampliar o diálogo entre a História e outras áreas do conhecimento, como Antropologia, Sociologia, Psicologia e Economia.

Ao longo da carreira, participou de projetos acadêmicos, conferências e programas de rádio voltados para a divulgação do conhecimento histórico. Também colaborou com pesquisadores de diversos países e teve importante atuação na formação de novos medievalistas. Sua trajetória profissional esteve marcada pela preocupação em aproximar a pesquisa universitária do público não especializado.

Em sua vida pessoal, casou-se com a médica polonesa Hanka Dunin-Wasowicz, com quem teve filhos. O casal permaneceu junto até a morte dela, em 2004. Le Goff manteve vínculos estreitos com a Polônia e com outros países da Europa Central, regiões que fizeram parte de sua experiência pessoal e intelectual.

O historiador recebeu diversos prêmios e reconhecimentos internacionais por sua contribuição à História. Entre eles, destacou-se a Medalha de Ouro do CNRS, concedida em 1991, uma das mais importantes distinções científicas da França. Também recebeu títulos honorários de universidades europeias e latino-americanas.

Jacques Le Goff faleceu em 1º de abril de 2014, em Paris, aos 90 anos.

 

Foto do historiador Jacques Le Goff
Jacques Le Goff: grande contribuição para o estudo da Idade Média.

 

 

Obras principais de Jacques Le Goff:

 

“Os intelectuais na Idade Média” (1957)

Nesta obra, Jacques Le Goff estuda o surgimento dos intelectuais como grupo social entre os séculos XII e XIII. O historiador aborda o crescimento das cidades, a criação das universidades e a atuação de professores, teólogos e filósofos. Também explica os conflitos entre a liberdade de pensamento, a autoridade religiosa e as estruturas políticas medievais.



“A civilização do Ocidente medieval” (1964)

O livro apresenta uma ampla interpretação da sociedade europeia entre os séculos V e XV. Le Goff examina as estruturas econômicas, as relações sociais, o poder político, a religiosidade, as cidades e as formas de pensamento. Em vez de descrever a Idade Média apenas como uma sucessão de guerras e reinados, procura compreender a vida cotidiana e a organização cultural do período.



“Para um novo conceito de Idade Média” (1977)

Formada por estudos produzidos em diferentes momentos, essa obra propõe novas formas de compreender o mundo medieval. Le Goff analisa temas como o trabalho, o tempo, a cultura clerical, a cultura popular e as transformações sociais. O livro também demonstra a influência da Escola dos Annales em sua produção historiográfica, especialmente na valorização das estruturas de longa duração.



“O nascimento do Purgatório” (1981)

A pesquisa investiga a formação histórica da crença no Purgatório, consolidada no cristianismo ocidental entre os séculos XII e XIII. Segundo Le Goff, a definição desse espaço intermediário entre o Paraíso e o Inferno esteve relacionada a transformações religiosas, sociais e culturais. A obra também examina as práticas de penitência, as orações pelos mortos e as concepções medievais sobre o destino das almas.

“O imaginário medieval” (1985)

Nesse livro, o historiador estuda as imagens, crenças, símbolos e representações que orientavam a maneira como os homens e as mulheres medievais compreendiam o mundo. Entre os temas abordados estão os sonhos, o corpo, o espaço, o tempo, os monstros e as visões do além. Le Goff demonstra que o imaginário não era uma simples fantasia, mas uma dimensão importante da vida social.



“História e memória” (1988)

A obra discute conceitos fundamentais da pesquisa histórica, como documento, monumento, memória, passado e periodização. Le Goff mostra que a memória é construída socialmente e pode sofrer seleções, esquecimentos e manipulações. Também destaca que os documentos históricos não são neutros, pois foram produzidos dentro de relações sociais e políticas específicas.



“A bolsa e a vida” (1986)

O livro analisa as relações entre a atividade dos comerciantes e as doutrinas religiosas durante a Idade Média. O autor concentra-se especialmente na condenação da usura, entendida como a cobrança de juros sobre empréstimos. Le Goff explica como as mudanças econômicas e o desenvolvimento urbano levaram a Igreja a adaptar suas interpretações sobre a riqueza, o crédito e a salvação.



“O homem medieval” (1987)


Organizada por Le Goff e escrita com a participação de outros historiadores, a obra apresenta diferentes personagens da sociedade medieval. Entre eles aparecem o monge, o guerreiro, o camponês, o comerciante, o intelectual, o artista, a mulher e o marginal. O objetivo é mostrar a diversidade das experiências sociais existentes durante a Idade Média.



“São Luís” (1996)


Trata-se de uma biografia histórica do rei francês Luís IX, que governou entre 1226 e 1270 e foi canonizado pela Igreja Católica em 1297. Le Goff reconstrói sua trajetória política, religiosa e pessoal, ao mesmo tempo que examina a formação da imagem do rei santo. A obra também discute os limites das fontes medievais e as dificuldades envolvidas na escrita de uma biografia histórica. 



“São Francisco de Assis” (1999)

Neste estudo, Le Goff analisa a trajetória de Francisco de Assis, religioso italiano que viveu entre 1181 ou 1182 e 1226. O autor relaciona o surgimento do franciscanismo às transformações urbanas, econômicas e espirituais dos séculos XII e XIII. A obra destaca a defesa da pobreza, a valorização da natureza e a renovação da religiosidade cristã.



“Em busca da Idade Média” (2003)

Resultado de conversas sobre sua trajetória intelectual, o livro apresenta reflexões sobre a formação de Le Goff e seu trabalho como medievalista. O historiador discute suas escolhas metodológicas, sua ligação com a Escola dos Annales e sua interpretação da sociedade medieval. A obra combina elementos autobiográficos com debates sobre a produção do conhecimento histórico.



“O Deus da Idade Média” (2003)


Le Goff examina a centralidade de Deus na sociedade medieval e demonstra como a religião influenciava a política, a cultura, o trabalho, a moral e a vida cotidiana. O livro também aborda as mudanças ocorridas na maneira de representar o divino durante os diferentes períodos da Idade Média.



“O nascimento da Europa” (2003)


A obra discute a formação histórica da Europa durante o período medieval. Le Goff analisa a influência do cristianismo, a herança greco-romana, os povos germânicos, o crescimento das cidades e o desenvolvimento das instituições políticas. Ao mesmo tempo, evita apresentar a Europa medieval como uma realidade uniforme, ressaltando suas diferenças regionais e culturais.


“Heróis e maravilhas da Idade Média” (2005)

O livro aborda personagens, criaturas e lugares que ocuparam posição importante no imaginário medieval. Entre os temas estão o rei Artur, Carlos Magno, o cavaleiro, a fada, o unicórnio, a catedral e o castelo. Le Goff explica como essas figuras foram construídas historicamente e continuaram presentes na cultura ocidental.



“A Idade Média e o dinheiro” (2010)


Nesta obra, o historiador investiga o papel do dinheiro na sociedade medieval. São analisados o comércio, as moedas, os impostos, o crédito, a usura e as relações entre riqueza e religião. Le Goff questiona a existência de um verdadeiro capitalismo medieval, argumentando que a economia do período permanecia submetida a valores sociais e religiosos próprios.



“Devemos realmente recortar a História em fatias?” (2014)

Publicado no final de sua vida, o livro apresenta uma reflexão crítica sobre a divisão tradicional da História em períodos. Le Goff questiona a ideia de que a Idade Média terminou de maneira repentina no século XV e defende a existência de uma “longa Idade Média”, cujas estruturas teriam permanecido até o século XVIII. A obra mostra que as periodizações são construções elaboradas pelos historiadores para organizar e interpretar o passado.

 

A abordagem histórica de Jacques Le Goff


A abordagem histórica de Jacques Le Goff estava vinculada à Escola dos Annales, especialmente à chamada Nova História. Em vez de concentrar seus estudos apenas em acontecimentos políticos, guerras, governos e grandes personagens, ele procurava compreender as estruturas sociais, culturais, econômicas e religiosas que moldavam a vida das sociedades ao longo do tempo.

Um dos principais elementos de seu método foi o estudo das mentalidades. Le Goff investigava como os indivíduos de uma época compreendiam o mundo, a morte, o tempo, o trabalho, o corpo, o pecado e a salvação. Para ele, crenças, símbolos e valores coletivos também eram objetos legítimos da História e ajudavam a explicar comportamentos sociais.

Sua produção também foi marcada pela interdisciplinaridade. O historiador utilizou contribuições da Antropologia, Sociologia, Psicologia, Economia e Literatura para ampliar a interpretação do passado. Dessa forma, documentos religiosos, narrativas, imagens, lendas, objetos, costumes e práticas cotidianas podiam ser analisados como fontes históricas.

Le Goff valorizava ainda a longa duração, conceito associado a Fernand Braudel. Essa perspectiva buscava identificar estruturas e permanências que atravessavam séculos, em vez de explicar a História apenas por mudanças rápidas. Por isso, ele defendia a ideia de uma “longa Idade Média”, estendida para além do século XV, pois muitos elementos medievais teriam continuado presentes até os séculos XVII e XVIII.

Outro aspecto importante foi sua crítica à visão tradicional da Idade Média como uma época de atraso. Le Goff procurou compreender o período de acordo com seus próprios valores e estruturas, evitando julgamentos baseados em critérios modernos. Sua abordagem apresentou a sociedade medieval como complexa, dinâmica e fundamental para a formação da Europa ocidental.



Importância de Jacques Le Goff


Jacques Le Goff foi um dos historiadores mais importantes do século XX por renovar os estudos sobre a Idade Média. Vinculado à Escola dos Annales, ele se afastou de uma História concentrada apenas em reis, guerras e acontecimentos políticos. Em suas pesquisas, valorizou temas como as mentalidades, o imaginário, a religiosidade, o trabalho, o tempo, o dinheiro, a memória e a vida cotidiana.

Sua produção contribuiu para superar a visão da Idade Média como um período exclusivamente marcado pelo atraso e pela violência. Le Goff demonstrou que a sociedade medieval era complexa, dinâmica e responsável pela formação de diversas instituições e práticas que influenciaram a Europa moderna, como as universidades, as cidades, as atividades comerciais e determinadas concepções religiosas.

Outra contribuição importante foi aproximar a História de áreas como Antropologia, Sociologia, Psicologia e Literatura. Esse diálogo interdisciplinar ampliou as possibilidades de interpretação das fontes históricas e permitiu estudar crenças, símbolos, gestos e comportamentos coletivos. Le Goff também teve papel relevante na divulgação do conhecimento histórico, tornando os estudos medievais acessíveis a leitores não especializados.

Sua importância permanece presente na formação de historiadores e nas pesquisas sobre a sociedade medieval. Ao questionar periodizações rígidas e propor a ideia de uma “longa Idade Média”, Le Goff mostrou que as mudanças históricas ocorrem de maneira gradual e que diversas estruturas medievais continuaram existindo durante os primeiros séculos da Idade Moderna.

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 26/07/2026