Carlota Joaquina

 

Quem foi

Carlota Joaquina de Bourbon (1775–1830) foi uma infanta espanhola que se tornou rainha consorte de Portugal, Brasil e Algarves por seu casamento com dom João VI. Filha do rei Carlos IV da Espanha e de Maria Luísa de Parma, casou-se em 1785, ainda criança, com o então infante dom João. Transferiu-se com a corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, durante as invasões napoleônicas, e participou ativamente das disputas políticas do período. De perfil conservador e absolutista, envolveu-se em conspirações contra o marido, opôs-se às ideias liberais e tentou ampliar sua influência sobre os territórios espanhóis da América do Sul, projeto conhecido como carlotismo. Após retornar a Portugal, em 1821, apoiou movimentos contrários à monarquia constitucional e permaneceu ligada às forças absolutistas até sua morte, em 1830.

 

Biografia

 

Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Bourbon nasceu em Aranjuez, Espanha, em 25 de abril de 1775. Era filha de Carlos IV e de dona Maria Luísa de Parma, reis da Espanha.

 

Aos dez anos, como era costume à época, casou-se por procuração com o príncipe de Portugal, dom João de Bragança, em um acordo de aproximação entre os dois países. Com ele, teve nove filhos: Maria Teresa, Antonio Pio, Maria Isabel Francisca, Pedro de Bragança (primeiro imperador do Brasil), Maria Francisca, Isabel Maria, Miguel I, Maria da Assunção e Ana de Jesus.

 

Em 1788, o irmão de dom João, dom José, morreu, provocando em sua mãe, dona Maria I, graves crises emocionais. Dom João assumiu então o governo em 1792, mas se recusou a receber o título de príncipe regente, pois esperava a cura da mãe. Apenas em 1799, com o fim da Revolução Francesa (que ameaçava as cortes europeias), e com a tentativa de Carlota Joaquina, que o acusou de incompetente, de assumir a regência, é que dom João concordou em aceitar o cargo.

 

Em 1792, Carlota Joaquina mudou-se para Portugal para viver com o marido, tornando-se princesa do Brasil, pois a colônia de Portugal no Brasil foi elevada à condição de reino.



Quando Napoleão invadiu Portugal, em 1807, ela e a corte portuguesa fugiram para o Brasil, estabelecendo a sede do Império Português no Rio de Janeiro. Carlota Joaquina não simpatizou com as novas terras e seus habitantes, e é mantida afastada por dom João dos negócios e da política da corte. Por isso, conspirou novamente contra seu marido para tornar-se rainha das províncias espanholas do Rio da Prata, mas seu projeto acabou fracassando. Foi aclamada rainha em 1816, após a morte de dona Maria I.



Com a morte de D. Maria I (sua sogra), em 1816, Carlota Joaquina tornou-se rainha consorte de Portugal, mesmo estando no Brasil na época.



No ano de 1821, enquanto as revoluções liberais varriam Portugal e o Brasil, a corte real retornava a Portugal. Carlota Joaquina, no entanto, discordava da abordagem indulgente do marido com os liberais e muitas vezes conspirava contra ele.



Em 1822, Carlota Joaquina tentou se tornar a rainha de um Brasil independente, um plano que falhou quando seu filho, Pedro, declarou a independência do Brasil e se tornou seu imperador.



Em 1826, após a morte de D. João VI, iniciou-se uma crise sucessória, em parte alimentada pelas ambições de governo de Carlota Joaquina. Seu filho Pedro acabou se tornando o rei Pedro IV de Portugal, mas logo abdicou em favor de sua filha, Maria II.

 

Faleceu no palácio de Queluz, em Lisboa, Portugal, em 7 de janeiro de 1830



Seu trabalho e funções

 

Carlota Joaquina não exerceu uma profissão ou cargo administrativo nos moldes atuais. Sua principal função oficial foi a de princesa e, posteriormente, rainha consorte de Portugal, Brasil e Algarves, condição adquirida por seu casamento com dom João VI. Como integrante da família real, participava de cerimônias públicas, representava a monarquia e mantinha relações com membros da nobreza e da diplomacia. No campo político, atuou informalmente em conspirações e articulações para aumentar sua influência sobre o governo, defendeu o absolutismo e apoiou movimentos contrários ao liberalismo. 

Durante a permanência da corte no Brasil, entre 1808 e 1821, também tentou assumir o controle das colônias espanholas na região do Rio da Prata, iniciativa conhecida como carlotismo. Portanto, seu principal campo de atuação foi a política dinástica e palaciana, embora não tenha governado diretamente Portugal ou o Brasil.




Volta a Portugal

 

Carlota Joaquina retornou a Portugal apenas depois de 1820, junto com a corte real, por causa da revolução do Porto. Uma vez lá, recusou-se a assinar a Constituição de 1822, perdendo assim sua cidadania portuguesa. Com a morte de dom João, conspirou para que de seu filho dom Miguel ascendesse ao trono, mas este foi tomado por dom Pedro I do Brasil.




O Carlotismo

 

Carlotismo foi um movimento político ocorrido no início do século XIX, ligado à figura de Carlota Joaquina, infanta espanhola e esposa de Dom João VI de Portugal.

O contexto se formou a partir de 1808, quando Napoleão Bonaparte invadiu a Espanha e prendeu o rei Fernando VII, deixando o trono espanhol vago. Carlota Joaquina, por ser irmã de Fernando VII, passou a reivindicar o direito de assumir a regência dos territórios espanhóis na América, especialmente na região do Rio da Prata (atual Argentina, Uruguai e parte do Paraguai), alegando que, com o rei preso, cabia a ela exercer a autoridade legítima da coroa espanhola sobre esses domínios.

Esse projeto político ficou conhecido como carlotismo e teve apoio de setores interessados em conter o avanço napoleônico na América espanhola e em ampliar a influência portuguesa e britânica na região platina. A Inglaterra, aliada de Portugal, viu no plano uma forma de manter a região fora do controle francês, embora não tenha oferecido apoio efetivo e decisivo.

O plano, no entanto, encontrou forte resistência. As elites criollas de Buenos Aires e de outras regiões platinas rejeitaram a ideia de se submeter a uma regente portuguesa, e o próprio Dom João VI mostrou-se receoso em relação às ambições políticas da esposa, com quem mantinha relação conturbada. Sem apoio militar suficiente e em meio às disputas internas da corte, o carlotismo não se concretizou como projeto de regência formal.

Apesar do fracasso do objetivo principal, o episódio teve consequências relevantes: acirrou as tensões entre Portugal e Espanha na região do Prata, estimulou expedições e tentativas de intervenção portuguesa na Banda Oriental (atual Uruguai), e evidenciou as disputas de poder dentro da própria família real portuguesa, então instalada no Brasil desde a transferência da corte em 1808.



Curiosidade:

 

Ao chegar em Portugal, tirou os sapatos e raspou-os nas pedras do cais, dizendo: “Nem nos sapatos quero como lembrança a terra do maldito Brasil”.

 

Retrato pintado de Carlota Joaquina com o rei D. João VI

Carlota Joaquina com o rei D. João VI

 

 

Qual a importância de Carlota Joaquina na História do Brasil?

 

Carlota Joaquina (1775–1830), princesa espanhola da Casa de Bourbon e esposa de Dom João VI, teve relevância na História do Brasil principalmente durante o período da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808. Embora não tenha exercido poder formal direto no governo, sua presença integrou o núcleo político da monarquia portuguesa instalada na América e influenciou disputas internas da corte. Durante as guerras napoleônicas e a crise do Império Espanhol iniciada em 1808, ela tentou promover o chamado projeto carlotista, no qual buscava assumir o controle de territórios espanhóis na América do Sul em nome da dinastia Bourbon, o que poderia alterar o equilíbrio político da região. No contexto brasileiro, sua atuação revela as tensões dinásticas, diplomáticas e políticas que marcaram o período joanino (1808–1821) e os anos que antecederam a Independência do Brasil em 1822.

 

 




Artigo revisado por Jefferson Evandro Machado Ramos - Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 05/08/2026