Folclore da Região Centro-Oeste do Brasil

 

O que é


O folclore da Região Centro-Oeste corresponde ao conjunto de lendas, festas, danças, músicas, costumes, crenças, práticas religiosas, comidas e conhecimentos tradicionais presentes nos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além do Distrito Federal. Essas manifestações foram formadas pelo contato entre culturas indígenas, africanas, europeias e de populações vindas de outras regiões do Brasil.

A diversidade cultural centro-oestina também está relacionada às características geográficas da região, marcada pelo Cerrado, pelo Pantanal e por áreas da Floresta Amazônica. A vida no campo, a criação de gado, a pesca, a navegação pelos rios, a agricultura e a convivência com a natureza influenciaram muitas histórias, festas e tradições populares.



Origem e formação


As tradições folclóricas do Centro-Oeste começaram a se formar muito antes da chegada dos portugueses, pois diferentes povos indígenas já habitavam a região e possuíam seus próprios mitos, rituais, músicas, danças e conhecimentos sobre a natureza. Entre esses povos estão os Xavante, Bororo, Terena, Guarani-Kaiowá, Kadiwéu, Karajá e diversos outros grupos.

A partir do século XVIII, a mineração e a expansão da pecuária atraíram colonizadores para áreas que atualmente pertencem a Goiás e Mato Grosso. Os europeus introduziram elementos do catolicismo popular, festas religiosas, instrumentos musicais e danças. As populações africanas e afro-brasileiras, muitas delas submetidas à escravidão, contribuíram com ritmos, práticas religiosas, culinária, cantos e formas de organização comunitária.

Durante os séculos XIX e XX, migrantes de outras partes do Brasil também se estabeleceram na região. Mineiros, paulistas, nordestinos, sulistas e habitantes de outras áreas levaram costumes que se misturaram às tradições locais. Por esse motivo, o folclore centro-oestino apresenta grande variedade cultural.




Principais lendas


A lenda do Minhocão do Pari é uma das narrativas tradicionais de Mato Grosso. De acordo com a crença popular, o Minhocão seria uma enorme criatura aquática que viveria nas profundezas dos rios e provocaria ondas, redemoinhos e desmoronamentos nas margens. A história refletia o temor das populações ribeirinhas diante dos perigos das águas.

O Negrinho-d’Água também aparece em narrativas do Pantanal e de outras regiões brasileiras. Ele seria um ser pequeno, escuro e ágil que vive nos rios, assustando pescadores, virando embarcações e escondendo objetos. Alguns pescadores ofereciam fumo ou alimentos para evitar suas travessuras.

A lenda do Pé de Garrafa é comum em áreas rurais de Goiás, Mato Grosso e outras partes do interior brasileiro. Segundo as narrativas populares, esse ser vive nas matas, possui corpo coberto de pelos e deixa no solo uma pegada arredondada, semelhante ao fundo de uma garrafa. Seus gritos confundiriam caçadores e viajantes.

A Mãe do Ouro é descrita como uma bola de fogo ou uma mulher de grande beleza que aparece perto de jazidas minerais. A lenda se tornou especialmente conhecida em Goiás e Mato Grosso devido à atividade mineradora iniciada no século XVIII. Em algumas versões, ela protege riquezas subterrâneas e castiga pessoas movidas pela ganância.

A Romãozinho é uma das lendas mais conhecidas de Goiás. O personagem é apresentado como um menino cruel e desobediente, condenado a vagar eternamente pelo mundo depois de provocar uma grave desavença familiar. Sua história era utilizada para ensinar valores relacionados ao respeito, à obediência e às consequências das más ações.

O Pai do Mato seria um protetor das florestas e dos animais. Geralmente descrito como um homem muito alto, forte e coberto de pelos, ele perseguiria caçadores que matassem animais de forma excessiva ou destruíssem a vegetação. A narrativa apresenta semelhanças com as histórias do Curupira e do Caipora.

 

 

Ilustração sobre a lenda do Minhocão do Pari
Minhocão do Pari: lenda tradicional do estado do Mato Grosso.

 



Festas populares e religiosas


A Cavalhada é uma das manifestações folclóricas mais conhecidas de Goiás, especialmente no município de Pirenópolis. Realizada tradicionalmente durante a Festa do Divino Espírito Santo, a encenação representa batalhas entre cristãos e mouros ocorridas durante a Idade Média na Península Ibérica. Os participantes usam roupas coloridas, máscaras, lanças e montam cavalos ornamentados.

A Festa do Divino Espírito Santo ocorre em diferentes cidades da região. Sua origem está ligada ao catolicismo português e às celebrações realizadas em homenagem ao Espírito Santo. A programação pode incluir missas, procissões, distribuição de alimentos, apresentações musicais, folias e encontros comunitários.

A Procissão do Fogaréu é realizada na cidade de Goiás durante a Semana Santa. Homens encapuzados, conhecidos como farricocos, percorrem as ruas históricas carregando tochas, enquanto representam a perseguição e a prisão de Jesus Cristo. A cerimônia reúne religiosidade, teatro popular e memória histórica.

A Festa de São Benedito é muito importante em Mato Grosso, principalmente na cidade de Cuiabá. Ela reúne celebrações religiosas, danças, músicas e comidas tradicionais. A devoção ao santo possui forte presença entre comunidades afro-brasileiras e representa a continuidade de tradições formadas durante o período colonial.

O Banho de São João é uma tradição realizada em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Durante a festa, grupos carregam andores com a imagem de São João Batista até o rio Paraguai, onde ocorre o chamado banho do santo. A celebração combina fé católica, música, dança e costumes das populações pantaneiras.



Danças e manifestações musicais


O siriri é uma dança tradicional de Mato Grosso, praticada principalmente em festas populares e religiosas. Os participantes dançam em pares ou fileiras, acompanhados por palmas, cantos e instrumentos como a viola de cocho, o ganzá e o mocho. Seus movimentos são alegres e lembram o trabalho cotidiano e a convivência comunitária.

O cururu é uma manifestação musical encontrada principalmente em Mato Grosso e em áreas do interior do Brasil. Tradicionalmente realizado por homens, reúne canto improvisado, versos religiosos e desafios entre cantadores. A viola de cocho é um dos instrumentos mais utilizados durante as apresentações.

A dança dos mascarados é característica do município de Poconé, em Mato Grosso. Os participantes utilizam máscaras e roupas coloridas, executando coreografias ao som de instrumentos de sopro e percussão. A manifestação apresenta influências europeias, indígenas e africanas.

A catira, também chamada de cateretê, é bastante praticada em Goiás. Os dançarinos formam duas fileiras e produzem ritmos por meio de palmas e batidas dos pés. A apresentação costuma ser acompanhada por violeiros que cantam músicas relacionadas à vida rural, à religiosidade e ao cotidiano das comunidades.

A polca paraguaia e o chamamé são muito presentes em Mato Grosso do Sul, especialmente nas áreas próximas ao Paraguai. Essas manifestações revelam a intensa troca cultural existente nas regiões de fronteira. Instrumentos como violão, acordeão e harpa podem acompanhar as apresentações.



Instrumentos tradicionais


A viola de cocho é um dos principais símbolos culturais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Fabricada artesanalmente a partir de um único bloco de madeira escavado, recebe esse nome porque seu formato lembra um cocho utilizado para alimentar animais. O instrumento acompanha danças como o siriri e o cururu.

O ganzá é um instrumento de percussão semelhante a um chocalho. Produzido com metal, madeira ou outros materiais, ele é preenchido com pequenas sementes ou objetos que produzem som ao serem agitados. Seu ritmo ajuda a acompanhar cantos e danças populares.

O mocho é um pequeno banco de madeira cujo assento de couro funciona como instrumento de percussão. O músico bate no couro com as mãos, criando a marcação rítmica utilizada principalmente nas apresentações de siriri.



Artesanato


O artesanato da Região Centro-Oeste utiliza matérias-primas encontradas na natureza, como madeira, argila, fibras vegetais, sementes, couro e palha. As peças podem representar animais do Pantanal, paisagens do Cerrado, elementos religiosos e cenas do cotidiano regional.

Os povos indígenas produzem cerâmicas, cestarias, adornos, utensílios, pinturas corporais e objetos decorativos. Entre os Kadiwéu, por exemplo, destacam-se os desenhos geométricos presentes em cerâmicas e pinturas. Essas produções não são apenas decorativas, pois também expressam identidades, conhecimentos e tradições coletivas.

Em Goiás, são conhecidas as peças feitas com barro e fibras vegetais, assim como os trabalhos com pedras e metais. Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o artesanato pantaneiro utiliza couro, madeira e elementos relacionados à criação de gado, à pesca e à vida nas fazendas.



Culinária folclórica


A culinária centro-oestina apresenta forte influência indígena, africana, portuguesa e das populações que vivem em áreas de fronteira. Ingredientes como milho, mandioca, peixes, arroz, carnes, pequi e guariroba aparecem em diversas receitas tradicionais.

O arroz com pequi é um dos pratos mais conhecidos de Goiás. O pequi é um fruto típico do Cerrado, de sabor e aroma marcantes, utilizado também em molhos, carnes e outros preparos. Seu caroço possui numerosos espinhos internos, razão pela qual deve ser consumido com cuidado.

A pamonha, feita principalmente com milho verde, pode ser doce ou salgada. Sua preparação costuma envolver familiares e vizinhos, formando as chamadas pamonhadas. Esses encontros demonstram que a culinária popular também possui uma importante função de integração social.

O empadão goiano é preparado com massa recheada de carnes, linguiça, queijo, ovos e outros ingredientes. A guariroba, uma espécie de palmito de sabor amargo, também pode fazer parte da receita.

Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, destacam-se pratos preparados com peixes de rios, como pacu, pintado e dourado. A mojica de pintado, o caldo de piranha e o peixe assado são exemplos ligados ao modo de vida pantaneiro.

A sopa paraguaia, apesar do nome, é um bolo salgado feito com milho, queijo, leite e cebola. Muito consumida em Mato Grosso do Sul, sua presença demonstra a influência cultural do Paraguai na culinária das áreas próximas à fronteira.



Folclore indígena


Os povos indígenas possuem papel fundamental na formação cultural da Região Centro-Oeste. Suas narrativas explicam a origem dos seres humanos, dos animais, dos rios, das plantas e dos fenômenos naturais. Esses conhecimentos são transmitidos de geração em geração por meio da oralidade, dos rituais e da convivência comunitária.

As danças indígenas podem estar relacionadas à caça, à colheita, à guerra, à cura, à passagem para a vida adulta ou à celebração de acontecimentos importantes. Os cantos, as pinturas corporais e os adornos possuem significados específicos para cada povo.

Muitos conhecimentos sobre plantas medicinais, alimentos, ciclos das chuvas, comportamento dos animais e preservação da natureza também têm origem indígena. Essas práticas demonstram que o folclore não se limita ao entretenimento, pois reúne saberes essenciais para a vida das comunidades.



O folclore nas áreas rurais


A cultura dos boiadeiros e dos trabalhadores das fazendas está presente em músicas, festas, causos e hábitos regionais. As narrativas contadas ao redor de fogueiras, durante viagens ou nos momentos de descanso apresentam histórias de animais, seres sobrenaturais, assombrações e acontecimentos extraordinários.

Os chamados causos são relatos orais que misturam fatos reais, humor, exagero e imaginação. Geralmente, o contador procura prender a atenção dos ouvintes e pode modificar a narrativa conforme o público e a ocasião.

As festas de peão, as comitivas de gado, os cantos de trabalho e as modas de viola também estão relacionados ao modo de vida rural. Embora algumas dessas práticas tenham passado por transformações, elas continuam representando aspectos importantes da identidade regional.



Importância cultural


O folclore da Região Centro-Oeste preserva a memória de diferentes grupos que participaram da formação histórica da região. Suas manifestações revelam formas de compreender a natureza, organizar a vida comunitária, expressar a fé e transmitir ensinamentos.

Festas, danças, músicas, lendas e receitas tradicionais fortalecem o sentimento de pertencimento das comunidades. Quando essas práticas são transmitidas aos mais jovens, conhecimentos acumulados durante várias gerações permanecem vivos.

A preservação do folclore também favorece o reconhecimento da diversidade cultural brasileira. No entanto, essa valorização deve respeitar os grupos responsáveis pelas tradições, evitando transformar suas práticas apenas em atrações comerciais ou representações estereotipadas.



Folclore e transformações atuais


O folclore não permanece imutável. As manifestações populares são adaptadas de acordo com as mudanças sociais, econômicas e tecnológicas. Festas que antes estavam restritas às comunidades locais passaram a receber turistas, divulgação nos meios de comunicação e apoio de instituições culturais.

Ao mesmo tempo, o crescimento das cidades, a destruição de ambientes naturais e a redução das comunidades rurais podem provocar o desaparecimento de costumes e conhecimentos tradicionais. Por essa razão, escolas, universidades, museus, associações comunitárias e órgãos de preservação desenvolvem projetos de documentação e valorização dessas manifestações.

Mesmo diante das transformações, o folclore centro-oestino continua presente no cotidiano regional. Ele aparece nas celebrações religiosas, na música, na culinária, no artesanato, nas histórias populares e na relação das comunidades com o Cerrado, o Pantanal e os rios.

 

 


 

Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 22/07/2026