Invasões estrangeiras no Brasil

 

Introdução 

 

Durante os séculos XVI e XVII, o Brasil sofreu saques, ataques e ocupações de países europeus. Estes ataques ocorreram na região litorânea e eram organizados por corsários ou governantes europeus. Tinham como objetivos o saque de recursos naturais ou até mesmo o domínio de determinadas regiões. Ingleses, franceses e holandeses foram os povos que mais participaram destas invasões nos primeiros séculos da História do Brasil Colonial.

 

Contexto histórico das invasões estrangeiras no Brasil Colonial


As invasões estrangeiras ocorridas no Brasil durante o período colonial estiveram diretamente relacionadas às disputas entre as potências europeias pela expansão marítima, pelo controle de territórios e pelo acesso às riquezas da América. Entre os séculos XVI e XVII, Portugal enfrentou principalmente franceses e holandeses, que contestavam o domínio português sobre partes do território brasileiro e procuravam participar dos lucros proporcionados pelo comércio colonial.

No século XVI, a colonização portuguesa ainda era pouco consolidada em diversas regiões do litoral. A presença limitada de colonos e a dificuldade de Portugal em fiscalizar uma costa tão extensa favoreceram a atuação de comerciantes e navegadores estrangeiros. Os franceses, que não reconheciam plenamente a divisão das terras americanas estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, estabeleceram contatos comerciais com grupos indígenas e tentaram criar núcleos coloniais, como a França Antártica, na região da baía de Guanabara, em 1555, e a França Equinocial, no Maranhão, em 1612.

Durante o século XVII, o contexto europeu tornou-se ainda mais importante. Entre 1580 e 1640, Portugal e seus domínios ficaram sob a autoridade dos reis espanhóis durante a União Ibérica. Como os Países Baixos estavam em conflito com a Espanha, os territórios portugueses passaram a ser considerados alvos pelos holandeses. Ao mesmo tempo, comerciantes neerlandeses possuíam forte participação no financiamento, transporte e comercialização do açúcar produzido no Brasil, atividade da qual foram progressivamente afastados em razão das guerras contra a monarquia espanhola.

Nesse cenário, a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, criada em 1621, passou a organizar ações militares contra áreas estratégicas do Império Português. Os holandeses atacaram Salvador em 1624 e, a partir de 1630, ocuparam importantes regiões produtoras de açúcar no Nordeste, sobretudo Pernambuco. Portanto, as invasões estrangeiras no Brasil Colonial devem ser compreendidas como parte de uma disputa mais ampla entre Estados e companhias comerciais europeias pelo controle das rotas atlânticas, das áreas coloniais e das atividades econômicas altamente lucrativas desenvolvidas no mundo colonial.

 

 

1. Invasões francesas: história e principais características

 

A presença francesa no Brasil Colonial ocorreu principalmente entre os séculos XVI e XVII. A França não reconhecia plenamente a divisão das terras americanas entre Portugal e Espanha estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, e comerciantes franceses passaram a frequentar o litoral brasileiro em busca sobretudo do pau-brasil. Para realizar esse comércio, estabeleceram alianças e relações de troca com diferentes grupos indígenas.

A tentativa francesa mais importante do século XVI foi a França Antártica, estabelecida em 1555 na região da baía de Guanabara, atual Rio de Janeiro. Liderados por Nicolas Durand de Villegagnon, os franceses construíram uma base permanente e receberam colonos, inclusive protestantes franceses. Para combatê-los, os portugueses intensificaram a ocupação da região e fundaram a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 1565. Após vários confrontos, os franceses foram definitivamente expulsos da região em 1567.

Outra tentativa ocorreu no Maranhão, onde os franceses estabeleceram a França Equinocial em 1612. Nesse contexto foi fundada São Luís, cidade cujo nome homenageava o rei francês Luís XIII. A ocupação teve curta duração, pois forças portuguesas derrotaram os franceses em 1615. Mesmo depois dessas experiências colonizadoras, corsários e comerciantes franceses continuaram realizando incursões pelo litoral brasileiro.

 

Esquadra de corsários franceses

Esquadra de corsários franceses que saquearam a cidade do Rio de Janeiro em 1711.



2. Invasões holandesas: história e principais características

 

As invasões holandesas ocorreram principalmente no século XVII e estiveram diretamente relacionadas à União Ibérica. Antes desse período, comerciantes dos Países Baixos participavam intensamente do negócio açucareiro brasileiro, financiando produtores, transportando açúcar para a Europa e realizando sua distribuição comercial. O conflito dos neerlandeses contra a Espanha prejudicou essas relações.

Com a criação da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, em 1621, os holandeses passaram a organizar ataques contra territórios portugueses no Atlântico. Em 1624, conquistaram Salvador, então capital do Brasil, mas foram expulsos no ano seguinte por uma força militar luso-espanhola.

A ofensiva mais importante começou em 1630, quando os holandeses ocuparam Pernambuco e posteriormente ampliaram seus domínios sobre outras áreas do Nordeste açucareiro. Entre 1637 e 1644, durante a administração de João Maurício de Nassau, Recife tornou-se o principal centro político do chamado Brasil Holandês. Houve investimentos urbanos, científicos e culturais, enquanto a produção açucareira permaneceu como principal fundamento econômico da ocupação.

Após a saída de Nassau, aumentaram os conflitos entre os proprietários de engenhos e a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, especialmente em razão das dívidas acumuladas pelos senhores de engenho. A Insurreição Pernambucana, iniciada em 1645, reuniu diferentes grupos interessados na expulsão dos holandeses. As batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649, enfraqueceram o domínio neerlandês, que terminou definitivamente com a rendição holandesa no Recife, em 1654.

 

Pintura de um retrato de um homem branco, loiro e de bigode.

Maurício de Nassau: governador durante a ocupação holandesa no Brasil.

 

 

3. Invasões inglesas

 

A participação inglesa no Brasil Colonial foi diferente das experiências francesa e holandesa. Os ingleses não chegaram a estabelecer uma colônia duradoura em território brasileiro. Durante os séculos XVI e XVII, sua atuação ocorreu principalmente por meio de corsários e navegadores que atacavam embarcações, portos e povoações pertencentes aos impérios ibéricos.

Essas incursões estavam inseridas nas rivalidades marítimas e comerciais entre a Inglaterra e as monarquias ibéricas. A situação tornou-se particularmente favorável aos ataques ingleses durante a União Ibérica (1580–1640), quando Portugal e suas colônias ficaram sob o governo dos reis espanhóis. Como a Inglaterra esteve em guerra contra a Espanha em determinados momentos desse período, territórios portugueses também se tornaram possíveis alvos.

Entre os episódios mais conhecidos está a expedição do corsário inglês Thomas Cavendish, que atacou Santos e São Vicente entre 1591 e 1592. Outros navegadores ingleses também realizaram ações no litoral brasileiro em busca de riquezas e mercadorias. Entretanto, essas incursões foram geralmente rápidas e destinadas ao saque, não resultando em ocupações territoriais comparáveis às realizadas por franceses e holandeses.

 

 

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 08/08/2026