Segundo Reinado no Brasil

 

O que foi


O Segundo Reinado foi o período da História do Brasil correspondente ao governo de D. Pedro II. Teve início em 23 de julho de 1840, quando o chamado Golpe da Maioridade antecipou a maioridade de Pedro de Alcântara, então com 14 anos, permitindo que ele assumisse o trono antes da idade prevista pela Constituição de 1824. A medida encerrou o Período Regencial, marcado por forte instabilidade política e por diversas revoltas provinciais.

O governo de D. Pedro II prolongou-se por aproximadamente 49 anos e terminou em 15 de novembro de 1889, com a Proclamação da República. Durante esse período, o Brasil passou por importantes transformações políticas, econômicas e sociais, entre elas a expansão da economia cafeeira, o crescimento das ferrovias, o aumento da imigração europeia, o desenvolvimento de atividades industriais e o processo gradual de abolição da escravidão.




Principais características da política no Segundo Reinado


A política do Segundo Reinado foi marcada principalmente pela atuação do Partido Liberal e do Partido Conservador. Apesar das disputas pelo controle do governo, ambos representavam, em grande medida, os interesses das elites proprietárias e defendiam a manutenção da monarquia, da propriedade privada e da estrutura social existente. As diferenças entre os dois partidos estavam mais relacionadas às formas de organização e exercício do poder do que a projetos profundamente distintos de sociedade.

O sistema político funcionava dentro de uma monarquia constitucional, na qual o imperador possuía amplos poderes garantidos pela Constituição de 1824, especialmente por meio do Poder Moderador. D. Pedro II podia nomear e demitir ministros, dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições. A partir de 1847, consolidou-se o cargo de presidente do Conselho de Ministros, responsável pela condução do governo e escolhido pelo imperador.

Esse modelo ficou conhecido como parlamentarismo às avessas, pois apresentava diferenças importantes em relação ao parlamentarismo britânico. No Brasil, o imperador tinha participação decisiva na formação do governo. Em determinadas situações, D. Pedro II nomeava um gabinete e, posteriormente, eram realizadas eleições destinadas a formar uma maioria parlamentar favorável ao novo ministério.

As eleições durante o Segundo Reinado também foram marcadas por forte influência das elites locais. Fraudes eleitorais, compra de votos, pressão sobre os eleitores e episódios de violência eram relativamente frequentes. Como o direito ao voto era censitário durante grande parte do período, baseado em critérios de renda, apenas uma parcela limitada da população participava efetivamente da vida política. Esse sistema contribuiu para manter o poder concentrado principalmente entre grandes proprietários rurais e outros grupos economicamente privilegiados.

Pintura de Dom Pedro II em pé

Dom Pedro II aos 20 anos

 

 

Principais acontecimentos históricos do período:

 

1. Término da Guerra dos Farrapos

 

Quando assumiu o império a Revolução Farroupilha estava em pleno desenvolvimento. Havia uma grande possibilidade de a região sul conseguir a independência do restante do país. Para evitar o sucesso da revolução, Dom Pedro II nomeou o barão de Caxias como chefe do exército. Caxias utilizou a diplomacia para negociar o fim da revolta com os líderes. Em 1845, obteve sucesso através do Tratado de Poncho Verde e conseguiu colocar um fim na Revolução Farroupilha.



2. Revolução Praieira

 

A Revolução Praieira foi uma revolta liberal e federalista que ocorreu na província de Pernambuco, entre os anos de 1848 e 1850. Dentre as várias revoltas ocorridas durante o Brasil Império, esta foi a última. Ganhou o nome de praieira, pois a sede do jornal dirigido pelos liberais revoltosos (chamados de praieiros) situava-se na rua da Praia.



3. Guerra do Paraguai


A Guerra do Paraguai ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu o Paraguai contra a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. O conflito teve causas relacionadas às disputas políticas e territoriais na região da Bacia do Prata, aos interesses estratégicos dos países envolvidos e às tensões existentes entre o governo paraguaio de Francisco Solano López e seus vizinhos.

A guerra terminou com a derrota do Paraguai e provocou enormes perdas humanas e econômicas, principalmente para a população paraguaia. Para o Brasil, o conflito também gerou elevados gastos públicos e milhares de mortes, ao mesmo tempo que fortaleceu politicamente o Exército. A participação britânica ocorreu principalmente por meio de relações comerciais e financeiras com os países da região, não sendo correto afirmar que a Inglaterra participou diretamente da guerra ao lado da Tríplice Aliança.

 

Batalha do Avaí durante a Guerra do Paraguai

Batalha do Avaí durante a Guerra do Paraguai: um dos momentos mais complicados e tensos do Segundo Reinado.



Economia do Brasil no Segundo Reinado:

 

• O café foi o principal produto brasileiro (monocultura). Sua produção visava, principalmente, o mercado internacional (economia exportadora). Os principais compradores do café brasileiro eram os Estados Unidos e os países da Europa.

 

• As duas regiões de maior desenvolvimento da cultura do café foram: Vale do Paraíba (entre as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo) e o Oeste Paulista.

 

• Base econômica agrária, baseada na presença de latifúndios (grandes propriedades monocultoras).

 

• Grande parte da mão de obra era escrava. Esse cenário só começou a mudar no final do Segundo Reinado, quando se intensificou a entrada de mão de obra imigrante (europeia).

 

• Os grandes proprietários rurais, que eram muito ricos, tinham grande influência e participação na política brasileira.

 

• Entre 1850 e 1870, houve a chamada Era Mauá. A economia cafeicultora, monocultora e exportadora continuou sendo a base econômica do país, porém ocorreu uma tentativa de desenvolvimento industrial e de infraestrutura. O principal responsável pelos investimentos nesses setores foi Irineu Evangelista de Sousa (Barão de Mauá). Ele investiu em ferrovias, indústrias, navios a vapor, empresas de navegação, bondes no Rio de Janeiro, bancos e sistema telegráfico (rede de telégrafos).

 

• Além do café, o Brasil também produzia, nesse período, outros produtos secundários. Entre eles, os principais foram: açúcar (principalmente no Nordeste), algodão (no Maranhão) e borracha (na região amazônica).



Tarifa Alves Branco

 

Foi uma medida econômica tomada pelo governo de D. Pedro II que aumentou os impostos dos produtos importados (aumento de 30% dos produtos que não eram produzidos no Brasil e 60% sobre os que tinham similares brasileiros). A lei desagradou muito os comerciantes ingleses, porém ajudou o desenvolvimento econômico interno.

 

Imigração

 

Muitos imigrantes europeus, principalmente italianos, chegaram para aumentar a mão de obra nos cafezais de São Paulo, a partir de 1850. Vieram para, aos poucos, substituírem a mão-de-obra escrava que, devido às pressões da Inglaterra, começava a entrar em crise. Além de buscarem trabalho nos cafezais do interior paulista, também foram para as grandes cidades do Sudeste que começavam a abrir muitas indústrias.



Questão abolicionista

 

A questão abolicionista foi o conjunto de debates, conflitos políticos e mobilizações sociais relacionados ao fim da escravidão no Brasil durante o Segundo Reinado, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX. O crescimento do movimento abolicionista, a atuação de jornalistas, intelectuais, advogados, parlamentares, associações civis e pessoas escravizadas aumentaram a pressão sobre o governo imperial. Nesse contexto, foram aprovadas medidas graduais, como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885), até a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, que aboliu oficialmente a escravidão no país. A abolição também contribuiu para o desgaste político da monarquia, especialmente entre setores escravistas que se sentiram prejudicados pela ausência de indenização aos antigos proprietários de escravizados.

 

Bandeira do Brasil Império

Bandeira do Brasil durante o Primeiro e o Segundo Reinado

 

 

Cultura no 2º Reinado

 

Durante o Segundo Reinado, o Brasil testemunhou um notório florescimento cultural. Esse período foi marcado por uma estreita ligação com a cultura europeia, o que resultou na absorção de influências oriundas do Romantismo, do Realismo e do Positivismo.


No âmbito literário, figuras notáveis como José de Alencar, Machado de Assis e Gonçalves Dias brilharam com suas obras. No cenário musical, a era se notabilizou pelo surgimento da ópera brasileira, com composições de destaque por parte de Carlos Gomes. No campo da arquitetura, as obras de Victor Meirelles e Grandjean de Montigny (arquiteto francês radicado no Brasil) se destacaram como exemplos emblemáticos.


Em síntese, o Segundo Reinado se revelou como um período de efervescente diversidade cultural no Brasil, impulsionado pela influência de diversas correntes artísticas e pela presença marcante dos imigrantes europeus.

 


Principais causas da crise do Segundo Reinado

 

A crise do 2º Reinado teve início já no começo da década de 1880. Esta crise pode ser entendida através de algumas questões:

 

• Interferência de D. Pedro II em questões religiosas, gerando um descontentamento nas lideranças da Igreja Católica no país;

 

• Críticas e oposição feitas por integrantes do Exército Brasileiro, que se mostravam descontentes com a corrupção existente na corte. Além disso, os militares estavam insatisfeitos com a proibição, imposta pela Monarquia, pela qual os oficiais do Exército não podiam dar declarações na imprensa sem uma prévia autorização do Ministro da Guerra;

 

• A classe média brasileira (funcionários públicos, profissionais liberais, jornalistas, estudantes, artistas, comerciantes) desejava mais liberdade e maior participação nos assuntos políticos do país. Identificada com os ideais republicanos, esta classe social passou a apoiar a implantação da República no país;

 

• Falta de apoio dos proprietários rurais, principalmente dos cafeicultores do Oeste Paulista, que desejavam obter maior poder político, já que tinham grande poder econômico. Fazendeiros de regiões mais pobres do país também estavam insatisfeitos, pois a abolição da escravatura, encontraram dificuldades em contratar mão de obra remunerada.

 

Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial do Rio de Janeiro

Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial do Rio de Janeiro (1888): abolição da escravatura foi uma das últimas ações importantes do Segundo Reinado.



Fim da Monarquia e a Proclamação da República



Em 15 de novembro de 1889, um movimento militar liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubou o governo imperial. Naquele dia, tropas ocuparam pontos estratégicos do Rio de Janeiro, então capital do país, e Deodoro destituiu o Conselho de Ministros, presidido pelo visconde de Ouro Preto. O movimento contou com a participação de militares e republicanos civis e ocorreu em um contexto de crescente desgaste da Monarquia, provocado por conflitos com setores do Exército, pelo avanço das ideias republicanas e pelas tensões políticas surgidas após a abolição da escravidão, em 1888.

Com a queda do gabinete imperial, a República foi proclamada e formou-se um Governo Provisório, chefiado por Deodoro da Fonseca. D. Pedro II não organizou uma reação militar para permanecer no poder, evitando a possibilidade de um conflito armado. A mudança de regime ocorreu, portanto, sem uma ampla participação popular direta, sendo conduzida principalmente por setores militares e grupos republicanos.

Na madrugada de 17 de novembro de 1889, D. Pedro II e a família imperial deixaram o Brasil rumo à Europa. Encerrava-se, assim, o Segundo Reinado (1840–1889) e também o período monárquico brasileiro iniciado com a Independência, em 1822. A partir daquele momento, o Brasil passou a ser uma República, tendo Deodoro da Fonseca como chefe do Governo Provisório.

 

 




Linha do tempo do Segundo Reinado no Brasil

 

1840 – Golpe da Maioridade: D. Pedro II, com apenas 14 anos, é declarado maior de idade e assume o trono. Tem início o Segundo Reinado.

 

1841 – D. Pedro II é coroado imperador do Brasil. O governo fortalece a centralização política e restabelece o Conselho de Estado.

 

1842 – Revoltas Liberais: ocorreram principalmente em São Paulo e Minas Gerais, organizadas por liberais contrários às medidas centralizadoras do governo imperial. Foram reprimidas pelas forças governamentais.

 

1845 – Fim da Guerra dos Farrapos: o governo imperial e os rebeldes gaúchos assinam a Paz de Poncho Verde, encerrando a revolta iniciada em 1835.

 

1847 – Criação do cargo de presidente do Conselho de Ministros, fortalecendo o sistema parlamentarista brasileiro, posteriormente conhecido como "parlamentarismo às avessas".

 

1850 – Lei Eusébio de Queirós: o tráfico transatlântico de africanos escravizados para o Brasil é proibido. No mesmo ano, a Lei de Terras estabelece novas regras para o acesso à propriedade fundiária.

 

1850–1870 – Expansão da economia cafeeira: o café consolida-se como principal produto de exportação brasileiro, especialmente nas províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo.

 

1851–1852 – Guerra contra Oribe e Rosas: o Império brasileiro participa de conflitos na região do Rio da Prata, contribuindo para a derrota de Manuel Oribe, no Uruguai, e de Juan Manuel de Rosas, na Argentina.

 

1854 – Inauguração da primeira ferrovia do Brasil, a Estrada de Ferro Mauá, no Rio de Janeiro, símbolo das transformações econômicas e da modernização dos transportes.

 

1864–1870 – Guerra do Paraguai: Brasil, Argentina e Uruguai formam a Tríplice Aliança e enfrentam o Paraguai. O conflito provoca grandes perdas humanas e materiais e fortalece politicamente o Exército brasileiro.

 

1870 – Manifesto Republicano: publicado no Rio de Janeiro, apresenta críticas à Monarquia e defende a implantação de uma República no Brasil.

 

1871 – Lei do Ventre Livre: determina que os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir da promulgação da lei fossem considerados juridicamente livres, embora sujeitos a diversas restrições.

 

1872–1875 – Questão Religiosa: conflitos entre o governo imperial e setores da Igreja Católica desgastam as relações entre a Monarquia e parte do clero.

 

Década de 1870 – Crescimento do movimento republicano e do movimento abolicionista, enquanto setores do Exército passam a questionar sua posição dentro da estrutura política do Império.

1885 – Lei dos Sexagenários: concede liberdade aos escravizados com mais de 60 anos, embora estabelecesse condições que limitavam seus efeitos práticos.

 

1887 – Questão Militar: aumentam os conflitos entre oficiais do Exército e o governo imperial, contribuindo para o enfraquecimento político da Monarquia.

 

13 de maio de 1888 – Lei Áurea: assinada pela princesa Isabel, determina juridicamente o fim da escravidão no Brasil, sem estabelecer políticas de integração social ou indenização aos libertos.

 

15 de novembro de 1889 – Proclamação da República: o marechal Deodoro da Fonseca lidera o movimento militar que derruba o governo imperial. D. Pedro II é afastado do poder, encerrando o Segundo Reinado e a Monarquia no Brasil.

 

17 de novembro de 1889 – D. Pedro II e a família imperial deixam o Brasil em direção à Europa, consolidando o fim do regime monárquico brasileiro.

 

 




Autor: Professor Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 08/08/2026