Corsários

 

Quem eram os corsários?

 

Os corsários eram navegadores, comerciantes ou comandantes de navios particulares que recebiam autorização oficial de um governo para atacar embarcações de países inimigos, principalmente em tempos de guerra. Essa autorização era dada por meio da chamada carta de corso, documento que tornava suas ações legais do ponto de vista do Estado que os contratava. 

Diferentemente dos piratas, que agiam por conta própria e eram considerados criminosos, os corsários atuavam como uma espécie de força naval auxiliar, ajudando a enfraquecer o comércio marítimo adversário e a capturar riquezas. Eles foram especialmente importantes entre os séculos XVI e XIX, período de intensas disputas coloniais e comerciais entre as potências europeias.



Como viviam e o que faziam?

 

Na prática, eles capturavam embarcações, apreendiam mercadorias, enfraqueciam o comércio rival e, muitas vezes, entregavam parte dos lucros ao Estado que os autorizava. Suas ações eram comuns entre os séculos XVI e XIX, quando as disputas marítimas entre potências europeias envolviam colônias, metais preciosos, açúcar, especiarias, escravizados e outros produtos valiosos.

A vida dos corsários era marcada por riscos, disciplina naval e busca por lucro. Muitos viviam em portos estratégicos, onde preparavam seus navios, contratavam tripulações, negociavam apoio com comerciantes e aguardavam novas oportunidades de ataque. Durante as viagens, enfrentavam tempestades, doenças, fome, longos períodos no mar e o perigo de combate contra navios armados. Embora alguns corsários tenham enriquecido e recebido prestígio social, a maioria dependia do sucesso das expedições para obter ganhos. Quando capturados por inimigos, podiam ser tratados como prisioneiros de guerra se sua carta de corso fosse reconhecida, mas também corriam o risco de serem acusados de pirataria, especialmente em contextos de disputa política ou ausência de reconhecimento legal.



Quando deixaram de existir

 

Os corsários deixaram de existir principalmente porque os Estados europeus passaram a consolidar marinhas nacionais mais organizadas e a controlar com maior rigor a guerra no mar. Durante a Idade Moderna, os corsários atuavam com autorização oficial dos governos, por meio das chamadas cartas de corso, atacando navios inimigos em tempos de guerra. Porém, com o avanço do comércio internacional, o fortalecimento do direito marítimo e o interesse das grandes potências em garantir rotas oceânicas mais seguras, essa prática passou a ser vista como instável e perigosa. No século XIX, especialmente após a Declaração de Paris de 1856, várias potências aboliram oficialmente o corso, proibindo o uso de navios particulares armados em conflitos. Assim, a guerra naval ficou cada vez mais restrita às forças militares do Estado, e os antigos corsários perderam sua função legal, sendo gradualmente substituídos por marinhas profissionais.



Exemplos dos corsários mais famosos da história:

 

- Sir Francis Drake: corsário inglês famoso por atacar navios e colônias espanholas no Caribe e no Pacífico. Drake foi o primeiro inglês a circunavegar o globo, destacando-se pelo seu papel estratégico nas disputas marítimas entre Inglaterra e Espanha durante o reinado da rainha Elizabeth I.


- Henry Morgan: corsário galês reconhecido por seus ataques a possessões espanholas no Caribe. Destacou-se especialmente pelo ataque e conquista da cidade do Panamá, tornando-se uma figura influente na Jamaica colonial, onde posteriormente recebeu o título de governador.


- Martin Tromp: corsário e almirante neerlandês conhecido por sua atuação em batalhas navais contra forças espanholas e inglesas. Liderou combates significativos durante a Guerra dos Oitenta Anos e na Primeira Guerra Anglo-Holandesa, sendo um símbolo da marinha holandesa no século XVII.


- James Lancaster: corsário e navegador inglês pioneiro nas viagens da Companhia Britânica das Índias Orientais. Liderou a primeira expedição comercial inglesa às Índias Orientais, estabelecendo rotas e contatos comerciais importantes para a Inglaterra na Ásia.


- René Duguay-Trouin: destacado corsário francês do século XVIII, conhecido especialmente por suas vitórias sobre forças inglesas e holandesas. Sua ação mais famosa foi a captura do Rio de Janeiro em 1711, evento que resultou em um resgate significativo pago por Portugal.


- Anne Bonny (corsária irlandesa): uma das poucas mulheres corsárias conhecidas na história da pirataria. Atuou no Caribe ao lado de John Rackham, destacando-se por sua coragem e participação ativa em batalhas e saques, tornando-se uma figura lendária na cultura popular.


- John Rackham: corsário inglês conhecido como "Calico Jack". Atuou principalmente no Caribe, tornando-se célebre tanto pelos seus ataques quanto por sua relação com Anne Bonny e Mary Read, que integravam sua tripulação.


- Mary Read (corsária inglesa): célebre corsária inglesa que atuou ao lado de Anne Bonny sob o comando de John Rackham. Destacou-se pela bravura em combate, disfarçando-se muitas vezes como homem para lutar em batalhas marítimas.


- Timoja (corsário hindu): corsário indiano que desempenhou papel importante na costa ocidental da Índia no século XVI. Tornou-se aliado dos portugueses na região, ajudando-os a conquistar Goa, e destacando-se na luta contra governantes locais.


- Amaro Pargo (corsário espanhol): corsário e comerciante espanhol das Ilhas Canárias, reconhecido por ataques bem-sucedidos contra navios inimigos. Tornou-se célebre pela riqueza adquirida através de suas atividades marítimas e é considerado uma figura relevante na história naval espanhola do século XVIII.

 

Retrato do navegador e corsário ingles James Lancaster

James Lancaster (1554-1618): foi um navegador, comerciante e corsário inglês.

 

 

Ilustração da pirata e corsária Mary Read

Mary Read: famosa corsária inglesa do início do século XVIII.

 

 

Três curiosidades sobre os corsários:

 

• Muitos corsários eram vistos como heróis nacionais em seus países de origem. Embora atacassem navios e tomassem mercadorias, suas ações eram valorizadas quando prejudicavam potências rivais. Um exemplo famoso foi Francis Drake, que atuou a serviço da Inglaterra contra embarcações espanholas no século XVI.


• Os corsários não podiam atacar qualquer navio. Em teoria, eles só tinham autorização para atacar embarcações de países inimigos indicados na carta de corso. Se atacassem navios de nações neutras ou aliadas, poderiam ser acusados de pirataria.


• A divisão dos lucros fazia parte da atividade corsária. Depois da captura de um navio, as mercadorias eram avaliadas e repartidas entre o dono da embarcação corsária, a tripulação e, em muitos casos, o governo que havia concedido a autorização.

 

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 30/06/2026