Presidentes da Ditadura Militar no Brasil

 

Introdução


A Ditadura Militar no Brasil foi o regime político que vigorou entre 1964 e 1985, iniciado após o movimento político-militar que depôs o presidente João Goulart em 31 de março e 1º de abril de 1964. Durante aproximadamente 21 anos, o país foi governado por militares que chegaram à Presidência por mecanismos indiretos, sem eleições presidenciais diretas e competitivas. O período caracterizou-se pela concentração de poderes no Executivo, restrições aos direitos políticos, cassações de mandatos, censura, perseguição aos opositores e atuação dos órgãos de repressão. Ao mesmo tempo, ocorreram importantes transformações econômicas, urbanas e de infraestrutura, acompanhadas por crescimento da dívida externa, aumento da desigualdade social em determinados momentos e sucessivas mudanças na política econômica.

Ao longo da ditadura, cinco generais ocuparam formalmente a Presidência da República: Humberto de Alencar Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo. Entre Costa e Silva e Médici, o país também foi governado temporariamente por uma Junta Militar. Cada governo apresentou características próprias, embora todos estivessem inseridos no mesmo regime autoritário. Enquanto os primeiros anos estiveram ligados à organização institucional da ditadura, o final da década de 1960 e o início da seguinte corresponderam ao período de maior repressão. A partir da segunda metade dos anos 1970, iniciou-se uma abertura política gradual, que terminou com a substituição do regime militar por um governo civil em 1985.



1. Humberto de Alencar Castelo Branco (1964–1967)


O marechal Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente do período militar. Eleito indiretamente pelo Congresso Nacional em 11 de abril de 1964, assumiu a Presidência no dia 15 do mesmo mês. Inicialmente, seu mandato deveria terminar em janeiro de 1966, mas foi posteriormente prorrogado até março de 1967.

Seu governo foi fundamental para a organização política e jurídica do novo regime. Os Atos Institucionais ampliaram os poderes do Executivo e possibilitaram cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos e outras medidas excepcionais. O Ato Institucional nº 2 (AI-2), de outubro de 1965, extinguiu os partidos políticos existentes e estabeleceu eleições indiretas para presidente da República. Posteriormente, foi criado um sistema bipartidário formado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio ao governo, e pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que reunia a oposição consentida.

Na economia, Castelo Branco implantou o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), destinado principalmente ao combate à inflação e à reorganização das finanças públicas. Foram realizadas reformas bancárias, fiscais e administrativas. Nesse período surgiram instituições como o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional. Também foram criados o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), em 1966, e mecanismos que modificaram as relações de trabalho.

Outro acontecimento importante foi a Constituição de 1967, elaborada sob forte influência do governo militar e aprovada pelo Congresso. O documento incorporou várias medidas adotadas desde 1964 e fortaleceu o Poder Executivo.


Principais aspectos do governo Castelo Branco:


• Estruturação institucional do regime militar.

• Cassação de mandatos e suspensão de direitos políticos.

• Extinção dos partidos políticos existentes e implantação do bipartidarismo.

• Criação da Arena e do MDB.

• Implantação do PAEG.

• Criação do Banco Central e do FGTS.

• Promulgação da Constituição de 1967.




2. Artur da Costa e Silva (1967–1969)


O marechal Artur da Costa e Silva assumiu a Presidência em 15 de março de 1967. Durante seu governo, aumentaram as manifestações contrárias à ditadura, envolvendo estudantes, trabalhadores, intelectuais, artistas e setores políticos da oposição.

Em 1968 ocorreram grandes manifestações estudantis. A morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, ocorrida durante uma ação policial no Rio de Janeiro em março daquele ano, provocou protestos em várias regiões do país. Em junho, a Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e outros setores da sociedade no Rio de Janeiro.

Também ocorreram mobilizações operárias, como as greves de Contagem, em Minas Gerais, e Osasco, em São Paulo. Paralelamente, organizações da esquerda começaram a adotar a luta armada contra a ditadura, realizando ações como assaltos a bancos, atentados e posteriormente sequestros de diplomatas.

O acontecimento mais importante do governo Costa e Silva foi a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. O AI-5 concedeu amplos poderes ao presidente, permitiu o fechamento do Congresso Nacional, facilitou cassações e suspendeu a garantia do habeas corpus para determinados crimes políticos. A medida marcou o endurecimento do regime e abriu uma fase de repressão mais intensa.

Em agosto de 1969, Costa e Silva sofreu um problema de saúde que o incapacitou para continuar no cargo. Embora o vice-presidente Pedro Aleixo fosse o sucessor constitucional, os comandantes militares impediram sua posse.


Principais aspectos do governo Costa e Silva:


• Crescimento das manifestações de oposição ao regime.

• Passeata dos Cem Mil, em 1968.

• Greves operárias em Contagem e Osasco.

• Expansão das organizações de luta armada.

• Decretação do AI-5 em dezembro de 1968.

• Ampliação da censura e da repressão política.




3. A Junta Militar de 1969


Entre 31 de agosto e 30 de outubro de 1969, o Brasil foi governado por uma Junta Militar formada pelos ministros Augusto Rademaker, da Marinha, Aurélio de Lira Tavares, do Exército, e Márcio de Sousa e Melo, da Aeronáutica. A Junta assumiu o poder após o afastamento de Costa e Silva e impediu que o vice-presidente Pedro Aleixo assumisse constitucionalmente a Presidência.

Durante esse breve período, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, que modificou profundamente a Constituição de 1967 e reforçou características autoritárias do regime. A Junta também conduziu o processo que resultou na escolha do general Emílio Garrastazu Médici como novo presidente.




4. Emílio Garrastazu Médici (1969–1974)


O general Emílio Garrastazu Médici assumiu a Presidência em 30 de outubro de 1969. Seu governo correspondeu ao período de maior repressão política da Ditadura Militar e é frequentemente associado aos chamados "anos de chumbo".

Os órgãos de segurança e repressão intensificaram sua atuação contra organizações de oposição. Instituições como os DOI-CODI participaram da prisão e do interrogatório de suspeitos de envolvimento com movimentos contrários ao regime. Nesse contexto ocorreram casos documentados de tortura, desaparecimentos forçados e mortes de opositores. A censura atingiu jornais, revistas, programas de televisão, músicas, peças teatrais, filmes e outras manifestações culturais.

Ao mesmo tempo, a economia brasileira apresentou elevadas taxas de crescimento, sobretudo entre 1969 e 1973. Essa fase ficou conhecida como "Milagre Econômico Brasileiro". O governo investiu em grandes obras de infraestrutura, entre elas a Rodovia Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói e projetos no setor energético.

O crescimento, entretanto, não beneficiou igualmente todos os grupos sociais. Houve concentração de renda e manutenção de baixos salários para grande parte dos trabalhadores. O modelo econômico também aumentou a dependência de financiamentos externos.

Na propaganda oficial, o governo procurou associar o crescimento econômico e o nacionalismo ao regime. Slogans como "Brasil, ame-o ou deixe-o" foram utilizados nesse contexto. A conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1970 também foi incorporada à propaganda nacionalista.


Principais aspectos do governo Médici:


• Período de maior repressão política da Ditadura Militar.

• Intensificação da censura.

• Atuação dos órgãos de repressão contra opositores.

• Combate às organizações da luta armada.

• Auge do "Milagre Econômico Brasileiro".

• Grandes investimentos em infraestrutura.

• Intensificação da propaganda nacionalista do governo.

• Crescimento econômico acompanhado por concentração de renda e aumento do endividamento.




5. Ernesto Geisel (1974–1979)


O general Ernesto Geisel assumiu a Presidência em 15 de março de 1974. Seu governo marcou o início de uma mudança na condução política da ditadura. Geisel anunciou uma política de abertura "lenta, gradual e segura", com o objetivo de reduzir progressivamente os mecanismos autoritários sem permitir uma ruptura imediata do regime.

A abertura enfrentou resistência de setores militares contrários à flexibilização política. Casos de violência praticados pelos órgãos repressivos continuaram ocorrendo. Um dos mais conhecidos foi a morte do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, nas dependências do DOI-CODI em São Paulo. No ano seguinte, o operário Manuel Fiel Filho também morreu após ser detido. Esses episódios aumentaram as críticas à repressão e contribuíram para o desgaste político do regime.

Geisel procurou aumentar o controle da Presidência sobre os setores mais radicais das Forças Armadas. Em 1977, por exemplo, demitiu o ministro do Exército, general Sylvio Frota, que representava uma das principais forças contrárias à política de abertura.

No campo econômico, o governo lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), baseado em investimentos em infraestrutura, energia e indústria de base. A construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu avançou durante sua administração, enquanto foi firmado um acordo nuclear entre Brasil e Alemanha Ocidental em 1975.

O crescimento econômico, entretanto, passou a enfrentar dificuldades após a crise internacional do petróleo iniciada em 1973. O aumento da dívida externa e da inflação tornou-se um problema crescente.

Em outubro de 1978, Geisel promoveu uma das principais medidas do processo de abertura: a revogação do AI-5, que deixou de vigorar em 1º de janeiro de 1979.


Principais aspectos do governo Geisel:


• Início da abertura política "lenta, gradual e segura".

• Tentativa de controlar os setores militares mais resistentes à abertura.

• Continuidade de episódios de repressão política.

• Morte de Vladimir Herzog em 1975.

• Implantação do II Plano Nacional de Desenvolvimento.

• Investimentos em infraestrutura, energia e indústria de base.

• Aumento da dívida externa.

• Revogação do AI-5 em 1978.




6. João Baptista Figueiredo (1979–1985)


O general João Baptista de Oliveira Figueiredo assumiu a Presidência em 15 de março de 1979 e foi o último presidente do regime militar. Seu governo deu continuidade ao processo de abertura política iniciado durante a administração Geisel, embora esse processo tenha enfrentado conflitos e resistências.

Uma das medidas mais importantes foi a Lei da Anistia, aprovada em 28 de agosto de 1979. A legislação permitiu o retorno ao país de diversos exilados políticos e beneficiou pessoas punidas por crimes políticos e conexos. A interpretação e o alcance dessa lei permanecem objeto de debates jurídicos, políticos e historiográficos, especialmente em relação aos agentes do Estado envolvidos em violações dos direitos humanos.

Ainda em 1979 ocorreu o fim do sistema bipartidário. Arena e MDB deixaram de existir nessa configuração, permitindo a formação de novos partidos. Surgiram, entre outros, o Partido Democrático Social (PDS), o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

A abertura enfrentou a oposição de setores radicais que procuravam interromper o processo. Em 30 de abril de 1981 ocorreu o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro. Uma bomba explodiu dentro de um automóvel ocupado por militares durante um evento comemorativo do Dia do Trabalho. O episódio aumentou o desgaste dos setores contrários à redemocratização.

Na economia, o governo enfrentou uma grave crise, marcada por inflação elevada, recessão, aumento da dívida externa e desemprego. A situação econômica contribuiu para intensificar o descontentamento social com o regime.

Entre 1983 e 1984 ganhou força o movimento Diretas Já, que defendia a aprovação da Emenda Dante de Oliveira e o restabelecimento das eleições diretas para presidente. Milhões de brasileiros participaram de manifestações em diversas cidades. A emenda não conseguiu os votos necessários na Câmara dos Deputados, e a eleição presidencial de 1985 ocorreu de forma indireta.


Principais aspectos do governo Figueiredo:



• Continuidade da abertura política.

• Aprovação da Lei da Anistia em 1979.

• Retorno de exilados políticos.

• Fim do bipartidarismo e reorganização partidária.

• Atentado do Riocentro em 1981.

• Grave crise econômica e crescimento da inflação.

• Expansão dos movimentos sociais e sindicais.

• Campanha pelas Diretas Já em 1983 e 1984.

• Encerramento da Ditadura Militar em 1985.




O fim dos governos militares


Como a Emenda Dante de Oliveira não foi aprovada em 1984, o sucessor de Figueiredo ainda foi escolhido indiretamente pelo Colégio Eleitoral. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, candidato da Aliança Democrática, derrotou Paulo Maluf, candidato do PDS. A vitória representou o fim do controle da Presidência pelos militares.

Tancredo Neves, contudo, adoeceu antes da posse prevista para 15 de março de 1985 e não conseguiu assumir o cargo. O vice-presidente eleito, José Sarney, tomou posse nessa data. Tancredo morreu em 21 de abril, e Sarney tornou-se definitivamente presidente. Assim terminou o ciclo de governos militares iniciado em 1964 e começou o período conhecido como Nova República.



Conclusão


Os cinco governos militares não foram idênticos, mas fizeram parte de uma mesma estrutura política autoritária. Castelo Branco organizou institucionalmente o regime; Costa e Silva comandou seu endurecimento, especialmente com o AI-5; Médici governou durante o auge da repressão e do chamado "Milagre Econômico"; Geisel iniciou a abertura política controlada; e Figueiredo conduziu a etapa final da transição para um governo civil.

A análise histórica do período exige considerar simultaneamente seus diferentes aspectos. Houve modernização da infraestrutura, crescimento industrial e expansão de setores econômicos, mas também restrições às liberdades democráticas, perseguição política, censura, tortura e outras violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado. No campo econômico, fases de elevado crescimento foram seguidas pelo aumento da dívida externa, inflação e crise. A redemocratização resultou de uma combinação entre decisões tomadas dentro do próprio regime e pressões crescentes da sociedade civil, dos movimentos sociais, dos trabalhadores, da oposição política e de diferentes instituições brasileiras.

 

Foto oficial do presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

Foto oficial de João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente da República do regime militar no Brasil.

 

 



Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).
Atualizado em 08/08/2026