Mitologia Japonesa

 

Introdução


A mitologia japonesa, um componente central da cultura e história japonesa, é uma interessante e rica mistura de folclore tradicional, crenças xintoístas e budistas e relatos históricos. Essa mitologia não é apenas uma janela para os aspectos espirituais e religiosos da vida japonesa, mas também reflete a maneira única com que os japoneses historicamente entenderam e explicaram fenômenos naturais, hierarquias sociais e os princípios fundamentais da vida e da morte.

 

Origem

 

A mitologia japonesa formou-se pela combinação de antigas crenças animistas dos povos do arquipélago, sobretudo o culto aos kami, espíritos ou divindades associados à natureza, aos antepassados e a fenômenos da vida cotidiana. Essas tradições deram origem ao xintoísmo e foram registradas principalmente nas obras “Kojiki”, de 712, e “Nihon Shoki”, de 720, compiladas para preservar narrativas sobre a criação do mundo, a origem das ilhas japonesas e a linhagem divina da família imperial. Com o passar dos séculos, esse conjunto de mitos recebeu influências do budismo, introduzido no Japão durante o século VI, e de elementos provenientes da cultura chinesa e coreana, formando uma tradição religiosa e narrativa marcada pela convivência entre divindades, seres sobrenaturais, heróis e forças da natureza.




Principais Características da Mitologia Japonesa:


Influência do Xintoísmo e Budismo: o Xintoísmo, espiritualidade indígena do Japão, e o Budismo, importado da China via Coreia, moldaram significativamente a mitologia japonesa. As crenças xintoístas estão profundamente enraizadas na veneração dos "kami", espíritos associados a elementos naturais, ancestrais e seres mitológicos. O Budismo trouxe consigo um complexo panteão de divindades e ideias filosóficas que se misturaram ao Xintoísmo para criar uma rica e diversa mitologia.


Adoração à Natureza e Ancestrais: central para a mitologia japonesa é a profunda reverência pela natureza e ancestrais. Muitos mitos envolvem kami que personificam elementos naturais como o sol, o mar, montanhas e rios. Esse respeito pela natureza está profundamente enraizado nas práticas culturais e religiosas japonesas.


Mitos de Criação e Cosmologia: a mitologia japonesa inclui ricos contos sobre a criação do mundo e das ilhas do Japão. Essas histórias geralmente giram em torno de divindades e espíritos que trazem o mundo do caos, estabelecendo ordem e dando vida ao mundo natural.


Contos Heroicos e Morais: assim como outras mitologias, a mitologia japonesa está repleta de histórias de heróis, muitas vezes envolvendo missões, batalhas com monstros e lições morais. Esses contos frequentemente servem para comunicar valores culturais e normas sociais.


Integração com Narrativas Históricas: uma característica única da mitologia japonesa é como ela se entrelaça com a narrativa histórica do país. Imperadores lendários e figuras históricas importante são frequentemente retratados como descendentes de deuses ou como deuses em si, misturando mito com relatos históricos.


Folclore e Lendas Locais: as diversas regiões do Japão têm seus contos populares e lendas únicos, muitos dos quais contribuem para o espectro mais amplo da mitologia japonesa. Essas histórias locais frequentemente apresentam espíritos, demônios e criaturas mágicas únicas para áreas específicas da vida.

 

Pintura representando um deus japones sentado

Tsukuyomi: deus da Lua na mitologia japonesa





Principais deuses, deusas e figuras Mitológicas na Mitologia Japonesa:


A mitologia japonesa reúne divindades conhecidas como kami, espíritos da natureza, ancestrais divinizados, heróis lendários e criaturas sobrenaturais. Suas principais narrativas foram registradas no “Kojiki”, de 712, e no “Nihon Shoki”, de 720, embora muitas tradições tenham continuado a ser transmitidas oralmente. Ao longo dos séculos, as crenças xintoístas também se misturaram a elementos do budismo, do taoismo e do folclore regional.



Izanagi e Izanami: considerados divindades primordiais, participaram da formação do arquipélago japonês. Segundo o mito, receberam uma lança celestial e, ao agitarem as águas do oceano, fizeram surgir a primeira ilha. Da união entre ambos nasceram outras ilhas, divindades e forças da natureza. A morte de Izanami, após dar à luz o deus do fogo, levou Izanagi a tentar resgatá-la no mundo dos mortos.



Amaterasu: deusa do Sol e uma das figuras centrais do xintoísmo, teria nascido quando Izanagi purificou o olho esquerdo após retornar do mundo dos mortos. Ela governa a Planície Celestial e representa a luz, a fertilidade, a ordem e a continuidade da vida. A tradição japonesa considera Amaterasu ancestral divina da família imperial, especialmente por meio de seu neto Ninigi.



Susanoo: irmão de Amaterasu, é associado aos mares, às tempestades e às forças imprevisíveis da natureza. Seu comportamento violento provocou conflitos com a deusa do Sol e resultou em sua expulsão do mundo celestial. Mais tarde, tornou-se um herói ao derrotar Yamata no Orochi, uma gigantesca serpente de oito cabeças, salvando a jovem Kushinada-hime.



Tsukuyomi: divindade ligada à Lua e à noite, nasceu durante o ritual de purificação de Izanagi. Em uma narrativa, matou a deusa dos alimentos, Ukemochi, por considerar impuro o modo como ela produzia a comida. Amaterasu, indignada com o ato, afastou-se dele, explicando simbolicamente a separação entre o dia e a noite.



Raijin: deus do trovão, dos relâmpagos e das tempestades, costuma ser representado como uma figura de aparência feroz cercada por tambores. Ao golpeá-los, produziria o som dos trovões. Embora pudesse causar medo e destruição, também era relacionado às chuvas necessárias para a agricultura.



Fujin: divindade dos ventos, aparece geralmente carregando um grande saco sobre os ombros. Ao abrir esse recipiente, libera as correntes de ar que percorrem o mundo. Frequentemente representado ao lado de Raijin, simboliza tanto a força destrutiva dos vendavais quanto a circulação do ar indispensável à natureza.



Hachiman: venerado como deus da guerra, da proteção e dos guerreiros, tornou-se especialmente importante entre os samurais. Também era visto como defensor do Japão e protetor das comunidades. Sua figura foi associada ao imperador Ōjin, que teria vivido entre os séculos III e IV e posteriormente foi divinizado.



Inari: kami relacionado ao arroz, à agricultura, à fertilidade, à prosperidade e ao comércio. Pode ser representado como uma figura masculina, feminina ou sem gênero definido, dependendo da tradição. As raposas, chamadas kitsune, aparecem como suas mensageiras e são frequentemente encontradas em estátuas nos santuários dedicados à divindade.



Ame-no-Uzume: deusa da alegria, da dança e das celebrações, teve papel fundamental no mito da caverna de Amaterasu. Quando a deusa do Sol se escondeu e mergulhou o mundo na escuridão, Uzume realizou uma dança cômica diante dos outros deuses. A curiosidade de Amaterasu levou-a a sair do esconderijo, devolvendo a luz ao mundo.



Omoikane: divindade da sabedoria, da inteligência e do aconselhamento. Nos mitos, era chamado pelos demais deuses sempre que surgia um problema difícil. Foi ele quem ajudou a elaborar o plano destinado a retirar Amaterasu da caverna celestial.



Ninigi-no-Mikoto: neto de Amaterasu, foi enviado à Terra para governar o território japonês. Sua descida do mundo celestial representa a ligação entre as divindades e a linhagem imperial. Segundo a tradição, seu bisneto teria sido Jimmu, considerado o primeiro imperador do Japão.



Konohanasakuya-hime: deusa das flores, da primavera e dos vulcões, especialmente associada ao Monte Fuji. Seu nome pode ser interpretado como “princesa que faz florescer as árvores”. Casou-se com Ninigi e tornou-se símbolo da delicadeza da vida, cuja beleza é comparada à breve duração das flores.



Ryūjin: deus-dragão dos mares e dos oceanos, governaria um palácio submarino chamado Ryūgū-jō. Controlava as marés por meio de joias mágicas e exercia autoridade sobre criaturas marinhas. Sua figura aparece em lendas relacionadas a pescadores, navegantes, tempestades e viagens pelo oceano.



Watatsumi: antiga divindade marinha associada ao domínio das águas. Em algumas tradições, é identificado ou relacionado a Ryūjin. Sua presença demonstra a importância do mar para as comunidades japonesas, que dependiam da pesca, da navegação e das águas costeiras.



Ōkuninushi: divindade ligada à construção e à organização do mundo terrestre, à agricultura, à medicina e aos relacionamentos amorosos. Diversos mitos relatam suas aventuras, provações e disputas familiares. Posteriormente, teria transferido o governo da Terra aos descendentes de Amaterasu.



Takemikazuchi: deus do trovão, da espada e das artes militares. Participou da conquista do território terrestre em nome das divindades celestiais. Também foi relacionado ao desenvolvimento do sumô, pois uma de suas lutas mitológicas é considerada uma origem simbólica desse esporte.



Kagutsuchi: deus do fogo, nasceu de Izanami e provocou queimaduras fatais em sua mãe durante o parto. Enfurecido pela morte da esposa, Izanagi matou o filho com uma espada. Do sangue e das partes do corpo de Kagutsuchi teriam surgido novas divindades, sobretudo ligadas ao fogo, às montanhas e à guerra.



Ukemochi: deusa dos alimentos e da produção de comida. Em um mito, ofereceu um banquete a Tsukuyomi, mas ele se sentiu ofendido ao descobrir que os alimentos haviam sido retirados de seu corpo. Após sua morte, surgiram de seus restos produtos essenciais, como arroz, trigo, feijão e animais destinados à alimentação.



Toyotama-hime: princesa marinha e filha do deus do mar. Casou-se com o caçador Hoori, ancestral lendário da família imperial. Durante o nascimento de seu filho, revelou sua verdadeira forma de criatura marinha, fato que provocou sua separação do marido.



Benzaiten: deusa de origem budista associada à música, à eloquência, às artes, ao conhecimento e às águas. Sua figura deriva da deusa hindu Sarasvati e foi incorporada à religiosidade japonesa. É uma das Sete Divindades da Fortuna e costuma ser representada segurando um instrumento musical chamado biwa.



Ebisu: deus da pesca, da prosperidade, do trabalho e da boa sorte. Geralmente aparece sorridente, carregando uma vara de pescar e um grande peixe. Tornou-se especialmente popular entre pescadores, comerciantes e trabalhadores urbanos.



Daikokuten: divindade da riqueza, da agricultura e da abundância, adaptada de uma figura religiosa de origem indiana. Costuma ser retratado com um martelo mágico, sacos de arroz e pequenos roedores. Também integra o grupo das Sete Divindades da Fortuna.



Bishamonten: protetor dos guerreiros, guardião da justiça e defensor contra forças malignas. Sua origem está relacionada ao budismo indiano, mas sua imagem foi incorporada às tradições religiosas japonesas. Aparece vestido com armadura e carregando uma lança ou uma pequena torre sagrada.



Tenjin: deus do conhecimento, dos estudos, da literatura e da caligrafia. Sua origem está ligada ao erudito e político Sugawara no Michizane, que viveu entre 845 e 903. Após sua morte, desastres foram atribuídos ao seu espírito vingativo, levando à sua divinização e veneração como protetor dos estudantes.



Jizō: figura budista muito popular no Japão, considerado protetor das crianças, dos viajantes e das almas dos mortos. Pequenas estátuas de Jizō são encontradas em estradas, cemitérios e templos. Embora não pertença originalmente ao xintoísmo, tornou-se parte importante do imaginário religioso e popular japonês.



Enma: governante e juiz do mundo dos mortos, decide o destino das almas após a morte. Sua figura tem origem no budismo e em antigas tradições indianas e chinesas. Nas narrativas japonesas, examina as ações realizadas por cada pessoa e determina as punições ou os caminhos de sua reencarnação.



Tengu: seres sobrenaturais associados às montanhas, às florestas e às práticas guerreiras. Algumas representações mais antigas apresentam características de aves, enquanto outras mostram figuras humanas com o rosto vermelho e o nariz muito comprido. Podem ser protetores de lugares sagrados, mestres das artes marciais ou entidades arrogantes que castigam pessoas presunçosas.



Kappa: criaturas aquáticas classificadas como yōkai, encontradas principalmente em rios, lagos e pântanos. São descritas com corpo semelhante ao humano, pele escamosa, membros adaptados à água e uma cavidade cheia de líquido no alto da cabeça. Podem praticar travessuras perigosas, mas também aparecem em histórias como seres educados, habilidosos e capazes de cumprir promessas.



Kitsune: raposas sobrenaturais dotadas de inteligência, longevidade e poderes mágicos. Algumas atuam como mensageiras de Inari, enquanto outras enganam seres humanos por diversão ou vingança. Conforme envelhecem, podem desenvolver várias caudas, chegando ao máximo de nove, e adquirir a capacidade de assumir forma humana.



Tanuki: criatura inspirada no cão-guaxinim japonês, tornou-se uma figura conhecida por sua capacidade de transformação. Nos contos populares, é brincalhão, astuto e apreciador de comida e bebida. Embora possa enganar viajantes, geralmente possui um caráter mais cômico do que ameaçador.



Oni: seres semelhantes a demônios ou ogros, frequentemente representados com chifres, dentes pontiagudos, pele colorida e grandes clavas de ferro. Podem simbolizar doenças, calamidades, violência e punições do mundo dos mortos. Em certas lendas, porém, alguns oni abandonam o comportamento maligno e passam a proteger pessoas ou templos.



Yuki-onna: figura feminina conhecida como “mulher da neve”, aparece em regiões frias durante tempestades e noites de inverno. É descrita como extremamente bela, pálida e vestida de branco. Dependendo da narrativa, pode congelar viajantes, poupar aqueles que demonstram compaixão ou formar uma família com um ser humano.



Yamata no Orochi: serpente ou dragão gigantesco de oito cabeças e oito caudas. A criatura aterrorizava uma família e exigia o sacrifício anual de suas filhas. Susanoo conseguiu derrotá-la após embriagá-la com saquê e encontrou dentro de seu corpo uma espada sagrada posteriormente oferecida a Amaterasu.



Yatagarasu: corvo divino de três patas enviado para orientar o imperador Jimmu durante sua jornada. Representa a orientação celestial, a intervenção divina e a legitimidade do poder imperial. Na cultura contemporânea, sua imagem também se tornou um símbolo ligado ao futebol japonês.



Yōkai: termo amplo utilizado para designar seres sobrenaturais, monstros, espíritos, animais mágicos e fenômenos inexplicáveis do folclore japonês. Não corresponde a uma única criatura ou divindade. Alguns yōkai são perigosos, outros protetores ou brincalhões, enquanto muitos personificam medos, comportamentos humanos e forças da natureza.



Yūrei: espíritos de pessoas mortas que permaneceram ligadas ao mundo dos vivos por vingança, tristeza, amor, injustiça ou ausência de rituais funerários adequados. Costumam ser representados com roupas brancas, cabelos longos e ausência de pés visíveis. Sua imagem exerceu grande influência sobre o teatro, a literatura e o cinema de terror japonês.



Shinigami: seres relacionados à morte, responsáveis por conduzir ou influenciar as almas humanas em algumas narrativas. Diferentemente de Amaterasu ou Susanoo, não ocupam uma posição central nos textos mitológicos mais antigos. Sua presença tornou-se mais comum em obras literárias, teatrais e populares desenvolvidas em períodos posteriores.

 

Pintura de uma deusa da mitologia japonesa representando o sol

Amaterasu: a deusa do Sol na mitologia japonesa.

 

 


 

Publicado em 14/11/2023 e atualizado em 30/07/2026

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).