George Berkeley
Quem foi George Berkeley?
George Berkeley foi um filósofo e teólogo irlandês nascido em 1685 e falecido em 1753. É amplamente reconhecido como um dos principais representantes do Empirismo moderno, ao lado de John Locke e David Hume, embora tenha se distanciado deles em aspectos fundamentais. Sua filosofia é marcada pela defesa do imaterialismo (também conhecido como idealismo subjetivo), tese segundo a qual a realidade é constituída pelas percepções e ideias que existem na mente, e não por substâncias materiais independentes. Para Berkeley, ser é ser percebido ("esse est percipi"), uma das expressões mais conhecidas da história da filosofia. Ele procurou refutar o materialismo e o ceticismo que, segundo ele, ameaçavam tanto a fé religiosa quanto o conhecimento humano.
Biografia
George Berkeley nasceu em 12 de março de 1685, em Dysart Castle, próximo a Kilkenny, na Irlanda. Estudou na Trinity College, em Dublin, onde se destacou em filosofia e teologia. Ainda jovem, demonstrou grande interesse pela natureza do conhecimento e pela relação entre mente e mundo, temas centrais do pensamento moderno.
Em 1709, publicou sua primeira obra importante, "An Essay Towards a New Theory of Vision" ("Um Ensaio para uma Nova Teoria da Visão"), na qual começou a desenvolver suas ideias sobre a percepção. Em 1710, lançou "A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge" ("Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano"), obra que consolidou sua doutrina imaterialista.
Berkeley acreditava que a filosofia materialista conduzia ao ateísmo e ao ceticismo. Por isso, sua filosofia buscou conciliar a razão com a fé, mostrando que o mundo sensível depende de um espírito supremo (Deus), que o sustenta e o torna possível. Em 1713, publicou "Three Dialogues Between Hylas and Philonous" ("Três Diálogos entre Hylas e Filonous"), texto em forma de diálogo que apresenta suas ideias de modo acessível e refuta objeções comuns.
Em 1721, foi ordenado bispo anglicano e, posteriormente, nomeado bispo de Cloyne, na Irlanda. Envolveu-se também em projetos sociais e educacionais, entre eles a tentativa de fundar uma universidade nas Bermudas, voltada à formação de missionários para o Novo Mundo. Apesar de o projeto não se concretizar, Berkeley permaneceu comprometido com a educação e a moral cristã.
Faleceu em 1753, na Inglaterra, deixando uma obra filosófica densa, coerente e original, que viria a exercer grande influência na filosofia moderna e contemporânea.
Principais ideias filosóficas:
A filosofia de Berkeley parte de uma crítica ao materialismo e ao empirismo de seus antecessores, especialmente John Locke. Ele rejeita a distinção entre qualidades primárias (como forma e extensão) e secundárias (como cor e som), sustentando que todas são dependentes da percepção. A seguir, estão alguns de seus principais conceitos e ideias:
• Imaterialismo (ou Idealismo Subjetivo): Berkeley negava a existência da matéria como substância independente da mente. Para ele, o que existe são ideias percebidas por sujeitos conscientes. O mundo é composto por percepções, e não por objetos materiais. O que chamamos de “matéria” é apenas um conjunto de sensações organizadas pela mente.
• Princípio “Esse est percipi”: Essa expressão latina significa “ser é ser percebido”. Com ela, Berkeley resume sua ontologia: os objetos só existem enquanto são percebidos por uma mente. Quando não são percebidos por nós, continuam a existir na mente divina, que percebe tudo continuamente. Dessa forma, Deus garante a permanência e a ordem do mundo.
• Crítica à abstração: Berkeley rejeitou a ideia de que a mente humana pode formar conceitos totalmente abstratos, como “corpo” ou “matéria” em geral. Para ele, todos os pensamentos derivam de percepções concretas e particulares. A ideia de uma substância material genérica, sem qualidades sensíveis, seria uma ficção produzida por hábitos de linguagem.
• O papel de Deus: a teologia é central em seu sistema. Berkeley defende que a coerência e a regularidade do mundo sensível são garantidas por Deus, a mente infinita que percebe e conserva todas as coisas. Assim, o mundo físico existe de modo constante, não porque seja material, mas porque é sustentado por uma percepção divina permanente.
• Crítica ao ceticismo: o filósofo combate o ceticismo derivado do empirismo, mostrando que o conhecimento não é ilusório. Se tudo o que conhecemos são ideias, isso não implica que o mundo é incerto ou inexistente. Ao contrário, as percepções são reais enquanto ideias, e sua estabilidade é assegurada pela vontade divina.
• Teoria da percepção: Berkeley formulou uma teoria inovadora sobre a percepção sensorial, especialmente no campo da visão. Em sua "Nova Teoria da Visão", argumentou que a percepção da distância e da profundidade não é inata, mas aprendida por meio da experiência. O espaço é uma construção mental baseada em associações entre diferentes sentidos.
• Linguagem e experiência: Ele também concebeu a linguagem como um instrumento de comunicação das experiências sensoriais. As palavras não designam coisas materiais, mas servem para expressar ideias e ordenar nossas percepções. O significado surge do uso e da relação entre os sinais e as ideias, antecipando debates da filosofia da linguagem moderna.
Obras principais:
1. "An Essay Towards a New Theory of Vision" (1709)
Nesta obra, Berkeley desenvolve sua teoria da percepção visual. Ele argumenta que a visão por si só não fornece informações sobre distância, forma ou tamanho; essas noções são aprendidas pela experiência, através da associação entre o tato e a visão. Essa teoria rompe com a concepção inatista e antecipa ideias psicológicas sobre a aprendizagem perceptiva.
2. "A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge" (1710)
Esta é sua principal obra filosófica. Nela, Berkeley apresenta sua crítica à noção de matéria e defende o imaterialismo. Segundo o autor, todas as qualidades sensíveis existem apenas enquanto são percebidas. Ele rejeita a ideia de uma substância material que exista independentemente da mente e sustenta que só há espíritos e ideias. A regularidade do mundo é garantida por Deus, o espírito infinito.
3. "Three Dialogues Between Hylas and Philonous" (1713)
O texto é apresentado em forma de diálogo entre dois personagens: Hylas, que defende o materialismo, e Philonous (que significa “amigo da mente”), porta-voz das ideias de Berkeley. O objetivo é demonstrar que não há fundamento racional para crer na existência da matéria. Ao mesmo tempo, Berkeley mostra que sua filosofia não leva ao ceticismo, mas reafirma a realidade das percepções e a existência de Deus.
4. "Alciphron, or The Minute Philosopher" (1732)
Nesta obra, Berkeley discute temas morais e religiosos, combatendo o ceticismo e o deísmo. O texto defende a importância da religião cristã para a sociedade e critica as correntes filosóficas que buscavam explicar o mundo sem recorrer à fé.
5. "The Analyst" (1734)
Este livro é uma crítica ao uso dos fundamentos matemáticos do cálculo infinitesimal, especialmente contra Isaac Newton. Berkeley argumenta que os matemáticos empregavam conceitos tão obscuros quanto aqueles que criticavam na teologia, mostrando a necessidade de consistência racional em todas as áreas do saber.
6. "Siris" (1744)
Obra tardia e complexa, na qual Berkeley combina especulações filosóficas e científicas com reflexões teológicas. O texto começa com observações sobre o uso medicinal da água de alcatrão e termina discutindo a hierarquia do ser, numa síntese de filosofia, religião e ciência.
Legado para a filosofia
O pensamento de George Berkeley exerceu profunda influência na história da filosofia moderna. Seu imaterialismo inspirou e provocou intensos debates, sendo interpretado tanto como uma defesa espiritualista da realidade quanto como um desafio à metafísica tradicional.
Em primeiro lugar, Berkeley contribuiu para o desenvolvimento do empirismo, ao afirmar que todo conhecimento deriva da experiência sensível. Contudo, ao contrário de Locke, ele levou essa tese às últimas consequências, negando a existência de substâncias materiais. Assim, aproximou o empirismo de uma forma de idealismo que influenciaria gerações posteriores.
Sua crítica à abstração e à substância material antecipou questionamentos que seriam retomados por Immanuel Kant, para quem o conhecimento depende das condições subjetivas da mente. Ainda que Kant discordasse de Berkeley em muitos pontos, reconheceu sua importância como um dos pensadores que destacaram o papel ativo do sujeito na constituição da experiência.
Na filosofia moderna, o idealismo de Berkeley foi reinterpretado por pensadores como Hegel e Schopenhauer. O primeiro via no imaterialismo um precursor da ideia de que a realidade é expressão do espírito absoluto; o segundo, embora crítico, admitiu que Berkeley havia revelado a dependência do mundo em relação à representação mental.
Na filosofia analítica, sobretudo a partir do século XX, Berkeley voltou a ser estudado por sua teoria da percepção e pela clareza lógica de seus argumentos. Filósofos como A. J. Ayer e Bertrand Russell discutiram suas ideias sobre a linguagem, a experiência e a relação entre mente e mundo. Além disso, sua concepção de que o mundo é uma coleção ordenada de percepções antecipa reflexões da fenomenologia e da filosofia da mente contemporânea.
No campo religioso, Berkeley também deixou um legado notável. Sua tentativa de harmonizar razão e fé o distingue de outros empiristas. Ao mostrar que o mundo depende de uma percepção divina constante, ele defende uma visão teísta da realidade, em que Deus é o fundamento do ser e da ordem natural. Assim, sua filosofia serviu como uma resposta à ameaça do materialismo e do ateísmo emergentes no século XVIII.
Por fim, seu estilo de escrita, claro e didático, influenciou a tradição dos diálogos filosóficos e dos tratados sistemáticos. Seu pensamento continua a ser estudado em cursos de filosofia moderna, tanto pela originalidade quanto pela profundidade com que abordou temas centrais do conhecimento humano.
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| George Berkeley: um dos principais filósofos empiristas do século XVIII. |
Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP).
Publicado em 25/05/2025
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Bibliografia e vídeos indicados:
Fonte de Referência:
George Berkeley - Enciclopédia de Filosofia (em inglês)
Vídeo indicado no YouYube:
GEORGE BERKELEY – EMPIRISMO IDEALISTA | EMPIRISMO BRITÂNICO

